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04/10/2009


by Willem Haenraets

A MÚSICA

A música
acorda
os instantes
amordaçados
pelo silêncio.

A música
ressuscita
teus antepassados
presos
encarcerados
em pedregosa
ausência.

Os avós
de teu anonimato
os pais
de teu desterro
despertam
a vertigem
de astros
alucinantes
a embriaguez
de ocasos inéditos.

O canto
perpetua
a sina
de teu sangue:
memória
esbatida
pelo tropel
das cinzas.

Alexandre Bonafim
Blog Arquipélago do Silêncio

Foto de Anibal Gonca... no Flickr

A OUTRA MARGEM DO TEMPO XLII

Quando a primavera demora
em sua maturação e se ausenta
do mundo, somos somente inverno
a crestar as folhas, sol a queimar a relva.
Em nossos lábios, as estiagens inscrevem
a sede das chuvas, a solidão do azul.
Somos apenas seixos de um rio
abandonado pelas águas,
ninho esquecido pelos vôos.
Entretanto, no fundo da nossa vida,
há sempre um menino a brincar
com as tardes de novembro.
Essa criança nasceu para fazer
do verão uma festa sempre anunciada.
Por isso toda espera adormece
as rochas, dá floração às árvores mortas.
Somos somente a sagração dos frutos maduros.
Há momentos em que a primavera
palpita no cerne de todo deserto.

Alexandre Bonafim
Blog Arquipélago do Silêncio

26/08/2009


by Pablo Picasso

A OUTRA MARGEM DO TEMPO XLI

These are the days when Birds come back –
A very few – a Bird or two –
To take a backward look.
Emily Dickinson

Há dias em que os pássaros tardam a regressar,
manhãs em que o inverno pousa, em nossa nudez,
os dias da esquecida infância. Nesses momentos,
o crepúsculo nunca se despede de nossos olhos,
as folhas não afagam o vento: somos, inteiros,
uma doce melancolia a gestar as primaveras. Há dias
em que os pássaros são a promessa de um milagre.

Alexandre Bonafim
In Arquipélago do Silêncio

23/08/2009


by Arthur Heyer

O GATO BRANC0

O gato branco
sobre o asfalto negro
sobre a noite escura
é um sussurro de mistério
é uma alegria súbita
entontece o coração
dos amantes
acaricia o olhar
das crianças.
O gato branco
pluma do silêncio
pétala da brisa
é uma festa
um susto
um sorriso
do milagre.
Seus olhos têm
a ternura das estrelas
a leveza das auroras.
Seria Deus disfarçado?
Seria a presença do inominado?
O gato branco
sobre o instante negro
sobre a vida escura
é apenas a própria noite
nos acalentando em sua ternura.

Alexandre Bonafim
In Blogger Arquipélago do silêncio