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23/02/2014

BORBOLETA

 
 

 Lento e suave bordado.
Brisa e bolero,
leve e ousado,
tatuado na alma...

distraída do vento.



Jairo De Britto
em “Dunas de Marfim”
 
Imagem  Arnold Bocklin

 

12/03/2012

" TOADA"



 As folhas se amontoam
no canto do muro.

Os anos se amontoam
no canto da vida.

Vida afora, amontôo
desafinações
em grandes toadas.

Só...

Quero uma toalha úmida,
como telhas depois da chuva.
E fria, como bonecos de neve.

Para, às quedas,
cobrir meu desespero
inteiro e nu.

 Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
tela Leonid Afremov

11/03/2012

"PASSATEMPO"


 
Cumular lírios
costurar esperanças
caminhar rente ao Rio
cultivar sonhos e risos:

Um disfarce mortal
que leva a vida alegre inteira.

Carregar dúvidas
corromper o tédio
construir venturas
cair de amor e cansaço:

Mistura fina de ocultos sorrisos
que levam a vida triste inteira.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
tela Juan Fortuny

"OLHOS D’ESPANHA"

 
 
Mergulho em seus olhos
um amor de inteira argúcia:
medo, desespero, arte-ofícios.

Mergulho em seus olhos
um mar de nomes inéditos:
cometas, algas, êxtase, suicídios.

Mergulho em seus olhos
uma língua afiada em riste:
verbos, substantivos, pronomes;
oceanos de silêncio e silício.

Mergulho em seus olhos
arcanjos de nuvens e neve:
retalhos, letras, sussurros;
restos avessos da inútil paixão.

Submerso em seus olhos,
desnudo e descubro seu corpo:
então, sua beleza me resgata
do pântano das sobras e sombras.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

01/03/2012

"À DERIVA DO SER"


 De Camões a Gregório,
navego em Atlântico caos.

Nas mãos, o surrado
e mal escrito diário.

No que resta do corpo,
o pretensioso inventário!

Jairo De Britto
 In "Dunas de Marfim"
tela Wendy Puerto

"ANATOMIA E BIOTERNURA"


Amar o corpo exige delicado
observar das cicatrizes aflitas
que sua alma recebe e retém.

Amar e rever o corpo requer
passo de leão, um gesto de cor;
arguir a dor da coragem além.

Amar o corpo requer carinho,
clemência, entrega; caminhar
altivo em lúdico despojar-se.

Amar e sentir o corpo requer
a gramática das rugas abraçar,
a pedagogia do tempo aceitar.

Amar e explorar o corpo requer
ternura para cicatrizes examinar;
alegrias e dores reunir e abrigar.

Espiar e sorver a cara juventude,
expiar a velhice em qualquer idade:

Tudo requer um corpo inteiro nu!
E o resgate do amor infante... 


Jairo De Britto,
 In "Dunas de Marfim" 

21/02/2012

"EL CONDOR PASA"


Com dó maior, assisto
partir o grande pássaro.

Com alegria, vislumbro
um seu novo horizonte.

Com a enorme pena
dos humanos que não voam.

Com a imensa pena
dos que não o vêem,
escuto o vento roçar suas asas.

Com afoita clemência,
abrigo e misturo nossos olhos.

Com a enorme argúcia
dos que tanto sobrevoam;

Com a aurora e astúcia
dos que tanto despertam;
observo seu lento suave
planar sobre o vale.

Com dores e letras, desejo
partir soberano com o pássaro.

Com estranha mansidão,
grito e informo minhas penas:

Com a impávida altivez
e ousadia dos que suicidam

Com a tácita incerta alforria
dos que nos versos ressuscitam!

Ao fim e ao cabo de obscuras
esperanças, aprecio quando
El Condor Pasa e passeia
sua altivez - liberta e sagrada -
sobre os Andes Latinos!

*Jairo De Britto,
em  "Dunas de Marfim"
foto  Ivanuk

24/12/2009


Reflections IV by Trish Biddle

SUPOSIÇÕES

I
Suponha que não sei
como a conheço.
Talvez assim
meus olhos amanheçam.

II
Suponha que não sei
do lado avesso.
Talvez assim
minhas mãos o reconheçam.

III
Suponha que não sei
o exato endereço.
Talvez assim
meus ouvidos o traduzam.

IV
Suponha que não sei
o claro caminho.
Talvez assim
minhas pernas me conduzam.

V
Suponha que não sei
do bravo carinho.
Talvez assim
minha boca o descubra em canto.

VI
Suponha que não sei
quando ou como atravessar o rio.
Talvez assim
aprenda a nadar enquanto.

VII
Suponha que nada sei
do amor, viver ou ser.
Talvez assim
meus pés me levem até você.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

21/12/2009


by Willem Haenraets

TERRA DE ALGUÉM

Meu amor está
aquém dos lençóis.

Invade corações,
maiores e menores,
com o suspense
de um filme de terror.

Meu amor está
além das estações.

Esconde versos,
de pouca valia,
com a insolência
de antigas religiões.

Meu amor está
por entre ramos.

Cultiva ervas exóticas,
com perfumes
de suor e silêncio.

Meu amor está
por entre peles.

Arranca íntimos pêlos,
com pinças farpadas
de prata nobre.

Meu amor está
por entre almas.

Diverso e profundo,
é veio de ouro franco
em pleno pântano de alguém.

Jairo De Britto
In Dunas de Marfim

TEMPO IMEDIATO



O Tempo é tema
ingrato, teclas de sono
sobre células ávidas:

Tapete perene
sob meus pés de sonho.

O Tempo cobre
de penas e alegrias
minhas tantas noites:

Confere novas cores
a meus dias di-versos.

O Tempo sofre
aparas, afere augúrios,
distribui o terror inédito:

Insólito e voraz,
ele cobra meus anos.

O Tempo enorme,
às vezes cálido e audaz,
abriga amor e medo:

Descobre self, sonhos
e faces que aflito exponho.

Jairo De Britto,
In Dunas de Marfim
tela by Willem Haenraets