Mostrando postagens com marcador Pablo Neruda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pablo Neruda. Mostrar todas as postagens

23/11/2022

FELIZ ANO NOVO PARA MINHA PÁTRIA EM TREVAS





Feliz ano, este ano, para ti, para todos
os homens  e  as trevas, Araucania amada.
Entre ti e minha existência há esta noite nova
que nos separa, e bosques e  rios e caminhos.
Porém até a ti, pequena pátria minha,
como um cavalo escuro meu coração galopa.
Entre por seus desertos de pura geografia,
passo pelos vales verdes onde a uva acumula
seus verdes álcoois, o mar de seus cachos.
Entro em tuas aldeias de jardim fechado,
brancas como camélias, no acre 
odor de tuas adegas, e penetro
como um madeiro a água dos rios que tremem
trepidando e cantando com lábios transbordados.

Recordo, nos caminhos, talvez neste tempo,
ou melhor no outono, sobre as casas deixam
as espigas douradas do milho secando,
e quantas vezes fui como um menino extasiado 
ao ver o ouro nos tetos dos pobres.

Te abraço, devo agora
retornar a meu lugar escondido. Te abraço
sem conhecer-te: dize-me quem és, reconheces
a minha voz no coro do que está nascendo?
Entre todas as coisas que te rodeiam, ouves
minha voz, não sentes como te cerca meu acento
emanado como água natural da terra?

Sou eu que abraço toda a superfície doce
a cintura florida de minha e te chamo
para que falemos quando se apague a alegria
e entregar-te esta hora como uma flor fechada.
Feliz ano-novo para minha pátria em trevas.
Vamos juntos, está o mundo coroado de trigo,
o alto céu corre deslizando e rompendo
suas altas pedras puras contra a noite; apenas
se encheu a nova taça como um minuto
que há de juntar-se ao rio do tempo que nos leva .
Este tempo, esta taça, esta terra são teus:
conquista-os e escuta como nasce a aurora.

Pablo Neruda
de Canto Geral
arte Van Gogh


25/10/2022

ALSTROMOERIA



 Neste mês de Janeiro a alstromoeria,
a sepultura flor, a submersa,
sai do seu esconderijo e sobe aos desertos.
E  amanheceu rosada a penedia.
Os meus olhos reconhecem
a sua marca triangular sobre a areia.
Então pergunto-me 
vendo
o dente pálido
duma pétala, o regaço
perfeito dos seus íntimos sinais,
como se engendrou debaixo da terra
Como surgiu, onde não havia senão pó,
rochas ou cinza, assim pura, incitante,
adornada, irrompendo na vida com sua formosura?
Como foi feito na vida com a sua formosura?
Como foi feito esse trabalho subterrâneo?
Quando se uniu a forma com o pólen?
Como foi que a escuridão
Chegou ao orvalho
e se elevou com  a terna labareda
da flor repentina
até que se teceram gota a gota,
fio por fio as áridas regiões
e pela luz rosada
passou o ar espargindo a fragrância 
como se ali tivesse nascido
de terra ressequida e solitária
fecundidade florida,

frescura por amor multiplicada?

Assim pensei Janeiro
olhando o árido ontem enquanto agora
tímida e enrugada cresce
a terna multidão da alstromoeria:
e onde pedra e deserto
estiveram 
passa o vento na sua nau sulcando
as ondas olorosas.

Pablo Neruda
de Plenos Poderes


28/01/2014

AUTORRETRATO

 


De minha parte,
sou ou creio ser duro de nariz,
mínimo de olhos,
escasso de pelos na cabeça,
crescente de abdômen,
comprido de pernas,
largo de solas,
amarelo de tez,
generoso de amores,
impossível de cálculos,
confuso de palavras,
terno de mãos,
lento de andar,
inoxidável de coração,
aficionado às estrelas, marés, maremotos,
administrador de escaravelhos,
caminhante de areias,
torpe de instituições,
perpetuamente chileno,
amigo de meus amigos,
mudo de inimigos,
intrometido entre pássaros,
mal educado em casa,
tímido nos salões,
arrependido sem objeto,
horrendo administrador,
navegante de boca,
ervateiro da tinta,
discreto entre os animais,
afortunado nos nuvarrões,
investigador em mercados,
obscuro nas bibliotecas,
melancólico nas cordilheiras,
incansável nos bosques,
lentíssimo de contestações,
ocorrente anos depois,
vulgar durante todo o ano,
resplandecente com meu caderno,
monumental de apetite,
tigre para dormir,
sossegado na alegria,
inspetor do céu noturno,
trabalhador invisível,
desordenado, persistente,
valente por necessidade,
covarde sem pecado,
sonolento por vocação,
amável com mulheres,
ativo por padecimento,
poeta por maldição e bobo com chapéu de burro.
 
Pablo Neruda
In Blog Banco da Poesia
tradução Cleto de Assis

14/10/2013

OUTRO CASTELO


NÃO SOU, não sou o ígneo,
sou feito de roupa, reumatismo,
papéis rasgados, encontros esquecidos,
pobres signos rupestres
no que foram pedras orgulhosas.
 
No que ficou o castelo da chuva,
a adolescência com seus tristes sonhos
e aquele propósito entreaberto
de ave estendida, de águia no céu,
de fogo heráldico?
 
Não sou, não sou o raio
de fogo azul, cravado como lança
em qualquer coração sem amargura.
 
A vida não  é a ponta de um punhal,
não é um golpe de estrela,
mas um gastar-se dentro de um vestuário,
um sapato mil vezes  repetido,
uma medalha que se oxidando 
dentro de uma caixa escura, escura.
 
Não peço nova rosa nem dores,
nem indiferença é o que me consome,
mas cada signo que se escreveu,
o sal e o vento borram a escrita
e a alma agora é um tambor calado
à margem de um  rio, daquele rio
que estava ali e ali continuará  sendo.
 
Pablo Neruda
In Defeitos Escolhidos & 2000
tela Edvard Munch 

27/07/2013

ÁGUA SEXUAL




Rolando em grandes gotas solitárias,
em gotas como dentes,
em espessas gotas de marmelada e sangue,
cai a água,
como um dilacerante rio de vidro,
uma espada em gotas,
cai mordendo,
golpeando o eixo da simetria, agarrando-se às costuras da alma
rompendo coisas abandonadas, empapando  o escuro.
 
É somente um sopro, mas úmido que o pranto,
um líquido, um suor, um azeite sem nome,
um movimento  agudo,
fazendo-se, espessando-se,
cai a água,
em grandes gotas lentas
para o seu mar, para o seu seco oceano,
para sua onda sem água.
 
Vejo o verão extenso, e um estertor saindo do celeiro,
adegas, cigarras,
quartos, meninas
dormindo com as mãos no coração,
sonhando com bandidos, com incêndios,
vejo navios,
 
Vejo árvores de medula
eriçadas  como gatos raivosos,
vejo sangue, punhais e meias de mulher,
e pelos de homem,
vejo camas, vejo corredores onde grita uma viagem,
vejo cobertores e órgãos e hotéis.  
 
Vejo os sonhos sigilosos ,
admito os derradeiros dias,
e também as origens, e também as recordações,
como pálpebra atrozmente levantada à força
estou olhando.
 
E então há este som:
um ruído rúbeo de ossos,
um grudar-se de carne,
e pernas amarelas como espigas se juntando.
Entre os disparos dos beijos escuto,
escuto, sacudido entre respirações e soluços .
 
Estou olhando, ouvindo,
com a metade da alma no mar e a metade da alma na terra,
e com as duas metades da alma olho o mundo.
 
E ainda que feche os olhos e me cubra o coração inteiramente,
vejo cair uma água surda,
em grandes gotas surdas.
É como um furacão de gelatina,
como a cachoeira de espermas e medusas.
Vejo correr um arco-íris turvo.
Vejo passar as suas águas através  dos ossos.
 
Pablo Neruda
In Residência da Terra II
tela  John Henry Twachtman 

23/07/2013

O CONSTRUTOR



Escolhi a quimera,
de sal gelado construí a estátua:
edifiquei o relógio em plena chuva
e contudo estou vivo.
 
É certo que o meu longo reinado
subdividiu os sonhos
e sem que eu soubesse levantavam
muros, divisórias, incessantemente.
 
Dirigi-me então ao litoral.
 
Vi quando nasceu a embarcação,
toquei-a, lisa como o peixe sagrado:
 
estremeceu como a cítara de Deus,
a madeira  era pura,
cheirava a mel.
E quando as naus não voltavam,
afogavam-se todas nas suas lágrimas
enquanto eu regressava à madeira
com o machado reluzente como uma estrela.
 
A minha religião eram aquelas naus.
 
Não tenho outro remédio senão viver.
 
Pablo Neruda
In Pleno Poderes 
tela  Tom Brown

ODE PARA ENGOMAR




A poesia é branca:
sai da  água envolta em gotas,
enruga-se e amontoa-se,
é preciso estender a pele deste planeta,
é preciso engomar o mar com a sua brancura
e vão e vêm as mãos,
alisam as sagradas superfícies
e assim se engendram as coisas:
dia a dia fazem as mãos o mundo,
une-se o fogo ao aço,
chegam o linho, o algodão e o cotim
da faina das lavandarias
e nasce da luz uma pomba:
a pureza regressa da espuma.
 
Pablo Neruda
In Plenos Poderes
tela Sally Swatland 

27/01/2013

O RELÓGIO CAÍDO DO MAR


Há tanta luz sombria no espaço
e tantas dimensões de súbito amarelas,
porque não cai o vento
nem respiram as folhas.

É um domingo detido no mar,
um dia como um navio submerso.
uma gota de tempo que assaltam as escamas
ferozmente vestidos de umidade transparente.

Há meses seriamente acumulados numa vestimenta 
que queremos cheirar chorando de olhos fechados,
e há anos em um só cego signo da água
depositada e verde,
há a idade que nem os dedos nem a luz apressaram,
muito mais estimável que um leque roto,
muito mais silenciosa que um peixe desenterrado,
há a nupcial idade dos dias dissolvidas
num triste túmulo que os peixes percorrem.

As pétalas do tempo caem imensamente
como vagos guarda-chuvas parecidos com o céu,
crescendo em torno, é apenas 
um sino nunca visto,
uma rosa inundada, uma medusa, um longo
latejo quebrantado:
mas não é isso, é algo que toca e gasta apenas,
uma confusa pegada sem som e sem pássaros,
um desvanecimento de perfumes e raças.

O relógio que no campo se estendeu sobre o musgo
e golpeou uma anca com sua elétrica forma
corre desatado e ferido debaixo da água temível
que ondula palpitando de correntes centrais.

Pablo Neruda
In Residência na Terra  II
tela Salvador Dali

POEMA I



Mulher, quero que sejas como és,
mal surgindo assim da escuridão,
como te vejo agora, como nunca 
mais te verei.

Como nunca mais. Por isso quero
que sejas como és neste momento,
que o tempo se detenha em teu olhar
 e neste amor
que se desprende de ti como fruta de um ramo.

Imóvel diante de mim, tu serás no meu destino.
Em troca, não sou nada.
Sou a atitude contemplativa de todas as coisas
que convergem para ti e que de  ti se afastam.

Sou o estreito cercado de musgos que rodeia 
a glória do rosal que estala,
ou a faixa do rio multiplicada em gotas
em cada pedra da montanha.

Mulher, inútil o desejo
e inúteis todas as palavras.
Mudas no minuto como a dor,
como a luz na água.

Olha-me muito,
nos olhos abertos que amanhã fecharei 
para neles guardar o teu olhar 
contra o aguaceiro do tempo
que chove sempre lágrimas!

Pablo Neruda
In O Rio Invisível  
tela Carrie Vielle

02/11/2012

NA TORRE




Nesta austera torre
não se combate:
a névoa, o ar, o dia
rodearam-na, partiram 
e deixaram-me com o céu e com papel,
solitárias doçuras e deveres.
Pura torre de terra
com ódio e mar distantes
removida
pela onda do céu:
na linha, na palavra quantas
sílabas? Quantas?

Bela é a incerteza do orvalho,
cai na manhã
separando
a noite da aurora
e a sua fria dádiva
permanece
indecisa, aguardando o árduo sol
que a ferirá mortalmente.

Não se sabe
se fechamos os olhos ou a noite 
abre em nós olhos refulgentes,
se escava na parede do nosso sonho
até abrir uma porta.
Porém o sonho
 é o veloz vestido dum minuto:
consumiu-se num latejo
da sombra
e caiu a nossos pés, desabilitado,
quando se movimenta o dia e nos navega.

Esta é a torre donde vejo
entre a luz e a água silente
o tempo com a sua espada
e apresso-me então a viver,
respiro todo o ar,
transtorna-me o deserto
que se constrói sobre a cidade
e falo comigo sem saber com quem
desfolhando o silêncio 
das alturas.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes

PÁSSARO


De pássaro a pássaro caía
tudo o que o dia traz,
ia de flauta em flauta o dia,
ia vestido de verdura
com voos que abriam um túnel,
e por ali passava o vento
por onde as aves cortavam
o ar compacto e azul:
por ali entrava a noite.

No regresso de tantas viagens
fiquei suspenso e verde
entre o sol e a geografia:
vi como trabalham as asas,
como se transmite o perfume
por um telégrafo emplumado,
vi das alturas o caminho,
as fontes, as telhas,
os pescadores a pescar,
os cais da espuma,
tudo isto eu vi do meu céu verde.
Não tinha mais letras
que a viagem das andorinhas,
a água pura e diminuta
do pequeno pássaro ardendo
que baila saindo do pólen.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes

23/07/2012

ÁSPERO AMOR



Áspero amor, violeta coroada de espinhos...
Arbusto entre tantas paixões erguidas,
Lança das dores, coroa da ira,
Por quais caminhos e como te dirigiu a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
Repentinamente, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que te levaram a mim?
Que flor, que pedra, que fumaça mostraram minha casa?
A verdade é que tremeu a noite apavorante,
A aurora encheu todas as taças com seu vinho
E o sol estabeleceu sua presença celeste,
Enquanto o amor cruel me cercava sem trégua,
Até que padecendo-me com espadas e espinhos,
Abriu meu coração um caminho ardente

Pablo Neruda
tela Irene Sheri

21/02/2012

PASSADO


Temos que deitar abaixo do passado
 e tal como se constrói
andar por andar, janela por janela,
e o edifício sobe
assim, vamos descendo
telhas quebradas primeiro,
depois orgulhosas portas,
até que do passado
começa a sair pó
como se se batesse
contra o chão,
começa a sair fumo
como se houvesse fogo,
e cada novo dia
brilha
como um prato
vazio:
não há nada, não houve nada:
é preciso enchê-lo de novas e espaçosas
rações,
então, para o fundo
o dia de  ontem cai
à água do passado
como num poço,
à cisterna
daquilo que já não tem voz nem fogo.
É difícil
habituar os ossos
a perderem-se
os olhos
a cerrarem-se
mas
fazê-mo-lo
sem o saber:
tudo era vivo,
vivo, vivo, vivo 
como um peixe escarlate
mas o tempo
com a noite e um pano
foi apagando
o peixe e o seu tremor:
na água na água na água
vai caindo o passado
ainda que se agarre
a espinhos
e raízes:
partiu partiu e de nada valem
as recordações:
já a pálpebra sombria
cobriu a luz do olho
e aquilo que vivia
já não vive
e o que fomos já não somos.
E a palavra ainda que as letras tenham
iguais transparências e vogais
agora é outra e outra é a boca agora:
mudaram os lábios, a pele, a circulação,
outro ser ocupou o nosso esqueleto:
aquele que vivia em nós já não está:
partiu, mas se chamarem, responderemos
"Aqui estou" sabe-se que não estamos,
pois aquele que estava, esteve mas perdeu-se :
perdeu-se no passado e já não volta.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes

A PALAVRA


Nasceu
 a palavra no sangue,
cresceu no corpo sombrio, palpitando,
e voou com lábios e a boca.

Mais adiante e mais próxima
ainda, ela era oriunda
de pais mortos e de errantes raças,
de regiões que se tornaram pedra,
que se cansaram das suas pobres tribos,
porque quando a dor saiu ao caminho
os povos partiram  e chegaram
para semear novamente a sua palavra.

E assim, a herança é está:
este é o ar que nos comunica
com o homem enterrado e com a aurora
de novos seres que ainda não amanheceram.

Treme ainda a atmosfera
com a primeira palavra
engedrada
com dor e pânico.

Saiu
das trevas
e  até agora não há trovão
que troveje com a sua ferrajaria
com aquela palavra,
a primeira
palavra pronunciada:
foi talvez somente um sussurro, uma gota,
mais ainda se despenha a sua cachoeira.

Depois o sentido encheu a palavra.
Ficou prenhe e encheu-se de vidas,
tudo nascimentos e sons:
a afirmação, a claridade, a força,
a negação, a destruição,a morte:
o verbo assumiu todos os poderes
e fundiu-se existência com essência
na eletrecidade da sua formosura.

Palavra humana, sílaba, nádega
de longa luz e rija prataria,
hereditária taça que recebe
as comunicações do sangue:
eis aqui onde o silêncio foi integrado
pela totalidade da palavra humana
e não falar seria morrer entre os seres:
faz-se a linguagem da cabeça aos pés,
fala a boca sem mexer os lábios:
os olhos de repente são palavras.

Eu pego na palavra e acaricio-a
como se fosse somente forma humana,
as suas linhas extasiam-me e navego
em cada ressonância do idioma:
pronuncio e sou e sem falar o fim das palavras
aproxima-me do mais fundo silêncio.

Bebo pela palavra levantando
uma palavra ou taça cristalina,
por ela bebo
o vinho do idioma
ou a água interminável,
fonte materna das palavras,
e taça e água e vinho
tecem o meu canto
porque o verbo é origem
e cria vida: é sangue
é o sangue que expressa a sua substância
e está designada assim a sua evolução:
dão cristal ao cristal,sangue ao sangue,
e vida à vida, as palavras.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes
      

PARA LAVAR UMA CRIANÇA


Só o amor mais velho da terra
lava  e penteia a estátua das crianças,
endireita as pernas, os joelhos,
eleva a água, faz resvalar os salões,
e puro sai o corpo  respirando
o ar da flor e da mãe.

Ó vigilância clara!
Ó doce perfídia!
Ó terna guerra!

Já o cabelo era um emaranhado
tecido entrelaçado por carvões,
por serrim e azeite,
por fuligens, arames e caranguejos,
até que a paciência
do amor
institui os baldes, as esponjas,
os pentes, as toalhas,
e com âmbar perfumado, limpo, penteado,
com antiga parcimónia e com jasmins
ficou mais novo o menino todavia,
e soltando-se das mãos da mãe
correu a montar novamente no seu alazão,
buscando lodo, azeite, urinas,tinta,
ferindo-se e esponjando-se entre as pedras.
E assim recém-lavado salta o menino pró mundo
porque mais tarde só terá tempo
para andar limpo, mas já sem vida.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes

28/01/2012

COLEÇÃO NOTURNA



Venci o anjo do sono, o funesto alegórico:
sua gestão insistia, sua densa passada chega
envolta em caracóis  e cigarras,
marinha,perfumada de frutas agudas.

É o vento que agita os mares, apito dum trem,
o avançar da temperatura sobre o peito,
um opaco som de sombra
que cai como trapo no interminável,
uma repetição de distâncias, um vinho de cor confusa,
um tropel poeirento de vacas bramando.


Às vezes  o seu canastro negro cai no meu peito,
seus sacos de domínio ferem o meu ombro,
sua multidão de sal, seu exército entreaberto
percorrem e revolvem as coisas do céu:
ele galopa na respiração e sua passada é de beijo:
seu salitre infalível planta nas pálpebras
com um vigor essencial e um solene propósito:
entra no preparado como um dono:
sua substância sem ruído apronta de súbito,
seu alimento profético propaga tenazmente

Reconheço com frequência seus guerreiros,
suas peças corroídas pelo ar, suas dimensões,
e sua  necessidade de espaço é tão violenta
que desce até o meu coração para buscá-lo:
é ele o proprietário dos planaltos inacessíveis,
dança com personagens trágicas e cotidianas:
à noite me rompe a pele o seu ácido aéreo
e escuto no meu interior tremer o seu instrumento.

Ouço o sonho de velhos companheiros e mulheres amadas,
sonhos cujos latejos me quebrantam:
seu material de alfombra eu piso em silêncio,
sua luz de papoula mordo com delírio.

Cadáveres adormecidos que tantas vezes
dançam agarrados ao peso do meu coração,
que cidades opacas percorremos!
Meu pardo corcel de sombras se agiganta
e sobre envelhecidos trapaceiros, sobre lenocínios de escadas gastas, 
 camas de meninas nuas, entre jogadores de futebol, 
pelos ventos cingidos passamos:
e aí tombam em nossa boca esses frutos brandos do céu,
os pássaros, os sinos conventuais, os cometas:
aquele que se nutriu de geografia pura e estremecimento,
esse talvez nos viu passar faiscando.

Camaradas cujas cabeças repousam sobre barris,
num desmantelado barco em fuga, longe,
amigos meus, sem lágrimas, mulheres de rosto cruel:
a meia-noite é chegada e um gongo de morte
bate ao redor de mim como o mar.
Há na  boca o sabor, o sal do adormecido.
Fiel como a condenação e, cada corpo
a palidez do distrito letárgico acorre:
um sorriso frio submerso,
uns olhos tapados como fatigados boxeadores,
uma respiração que surdamente devora fantasmas.

   
Nessa umidade de nascimento, com essa dimensão tenebrosa,
fechada como uma adega, o ar criminoso.
As paredes têm uma triste cor de crocodilo,
uma contextura de aranha sinistra:
pisa-se no macio como sobre um monstro morto:
as uvas negras imensas, repletas,
pendem entre ruínas como odres:
oh capitão, na nossa hora de partilha
abre os mudos ferrolhos e me espera:
lá devemos jantar vestidos de luto:
o doente de malária guardará as portas.

Meu coração, é tarde e sem margem,
o dia como uma pobre toalha posta a secar,
oscila cercado de seres e extensão:
de cada ser vivo, há  algo de atmosfera:
mirando muito a aragem surgiriam mendigos,
advogados,bandidos,carteiros,costureiras,
e um pouco de cada ofício, um resto humilhado
pretende trabalhar a sua parte em nosso interior.
Eu busco desde antanho, eu examino sem arrogância, conquistado,
sem dúvida, pelo vespertino.

Pablo Neruda
In Residência na Terra-I  
foto por Tycho Fernandes
tradução de Paulo Mendes Campos     
       

MADRIGAL ESCRITO NO INVERNO


No fundo do mar profundo,
na noite de longas riscas,
como um cavalo cruza correndo
o teu calado calado nome.

Aloja-me em tuas costas, ai, refugia-me,
aparece-me no teu espelho, de repente,
sobre a folha solitária, noturna,
brotando do escuro, atrás de ti.

Flor de doce luz completa,
socorre-me a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.

Afinal, no longe do longe,
de olvido a olvido residem comigo
os trilhos , o grito da chuva:
o que a escura noite preserva.

Acolhe-me na tarde de linho,
quando ao anoitecer trabalha
o seu vestuário e palpita no céu
uma estrela cheia de vento.

Chega-me a tua ausência até o fundo,
pesadamente, tapando-te os olhos,
cruza-me a tua existência, supondo
que o meu coração está destruído.

Pablo Neruda
In Residência na Terra - I
foto por @Doug88888  
Tradução Paulo Mendes Campos

24/01/2012

SISTEMA SOMBRIO



De cada um destes dias negros como velhos ferros,
e abertos pelo sol como grandes bois vermelhos,
e apenas sustidos pelo ar e pelos sonhos,
e desaparecidos irremediavelmente e de súbito,
nada substitui as minhas perturbadas origens,
e as desiguais medidas que circulam no meu coração
aí se forjam de dia e de noite, solitariamente,
e abarcam desordenadas e tristes quantidades.

Assim,pois, como um vigia tornado insensível e cego,
incrédulo e condenado a uma dolorosa espreita,
diante da parede na qual cada dia do tempo se une,
os meus rostos diferentes se apóiam e se encadeiam
como grandes flores pálidas e pesadas
tenazmente substituídas e defuntas.

Pablo Neruda
In Residência na Terra I

08/01/2012

OH TERRA, ESPERA-ME


Volta-me oh sol
a meu destino agreste,
chuva do velho bosque,
devolve-me o aroma e as espadas
que caíam do céu,
a solitária paz de pasto e pedra,
a umidade das margens do rio,
o olor do alerce,
o vento vivo como um coração
pulsando entre a esquiva multidão
da grande araucária.

Terra, devolve-me teus dons puros,
as torres do silêncio que subiram
da solenidade das raízes:
quero voltar a ser o que não fui,
aprender a voltar de tão fundo
que entre todas coisas naturais
possa viver ou não viver: não importa
ser uma pedra mais, a pedra obscura,
a pedra pura levada pelo rio.

Pablo Neruda
In Memorial de Ilha Negra
foto por Sonia Sisí 

A NOITE



Entro no ar negro.
A noite viaja, tem
paciência em sua folhagem,
move-se
com seu espaço,
redonda,
perfurada,
com que plumas se envolve?
Ou vai nua?
Caiu sobre metálicas
montanhas
cobrindo-as com sal
de estrelas duras:
um por um
quanto monte
existe
se extinguiu e desceu sob suas asas:
sob o trabalho negro de suas mãos.
Ao mesmo tempo
fomos
barro negro,
bonecos
derrubados
que dormiam
sem ser, deixando fora o traje diurno,
as lanças de ouro, o chapéu de espigas,
a vida com suas ruas e seus números
ali ficou,
montão de pobre orgulho,
colmeia sem som.
Ai noite e noite aberta
boca, barca,garrafa,
não só tempo e sombra,
não só a fadiga,
algo irrompe, se cumula
como uma taça,
leite escuro,
sal negro,
e cai
dentro
de seu poço
o destino,
queima se quanto existe, a fumaça
viaja buscando espaço até estender a noite,
mas
da cinza
amanhã
nasceremos.

Pablo Neruda
In Memorial de Ilha Negra
                 tela Arthur Rackham