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14/03/2011

METAMORFOSE DO AMOR
























Se me queres assim, se tu me queres
é porque me tornaste diferente.
Se me queres assim
é porque em mim
já estás presente.

Às vezes quedo-me a pensar
que o amor nisto se resume,
dois seres mutuamente a se entregar
recebendo com ciúme
o que voltam a permutar.

Miguel Reale
In Poemas do Amor e do Tempo
tela de Marcel-Louis Baugniet 

27/02/2011

NA ESFERA CRISTALINA DOS VALORES



















Na esfera cristalina dos valores
aprimora a virtude soberana
de descobrir o bem onde ele exista.

Ama a verdade mesmo contra todos.
A verdade será tanto mais tua
quanto mais a espalhares pelo mundo.

Na medida do humano põe tua alma
e sentirás a mão da caridade
em cada ato de amor e de justiça.

Nos momentos mais duros ou banais,
ou quando entregue às formulas do exato,
de um sopro de beleza não prescindas.

Faze da tolerância o teu Virgilio
para cruzar o inferno e o purgatório
dos vícios e maldades deste mundo.

Seja o teu pensamento alto e sereno
como a águia que domina os horizontes,
como a cruz que se eleva na montanha.

Só assim, no atropelo da existência,
viverás a humildade de teus gestos
ocultando a grandeza de teus sonhos.

Miguel Reale
In Poemas do Amor e do Tempo

TANTO FALEI DE AMOR...























Tanto falei de amor sem ter amada
que quando vieste, minha boa amiga,
parece-me que vinhas desconfiada
de um grande amor, de uma paixão antiga.

E notei que ficaste desolada
descobrindo que tudo era uma intriga
de meus versos...Mas não disseste nada,
de tão bondosa que és, gentil amiga.

Um minuto depois já bem sabias
que a minha mocidade era um engano
só de subjetivismo e fantasias.

Só me deste amizade. Mas que espanto?!
Tudo isso é humano, quase tão humano
como os meus versos que mentiam tanto...

Miguel Reale
In Poemas do Amor e do Tempo
tela The Black Brunswicker1860 - Sir John Everett Millais

EXISTEM SERES PUROS E SENSÍVEIS























Existem seres puros e sensíveis
que nada dizem quando o amor tortura,
guardando sentimentos de candura
que nem o olhar os torna compreensíveis.

Oficiam no templo claro da alma
e quem os vê assim sem um queixume
talvez se lembre da poesia calma
de uma flor escondida no perfume.

Esse amor dura às vezes uma vida
quando a amada ignora ou silencia. . .
Que falta faz um gesto de ousadia,
uma graça maior na despedida!
Que falta faz! Mas ela não socorre
ao pobre amante e chora quando Glaura
aos poucos se transforma numa Laura,
e o seu amor divinizado morre.

Miguel Reale 
In Poemas do Amor e do Tempo
tela The Mother1907 - Sir Frank Bernard Dicksee