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26/12/2014

SÃO PLÁCIDAS TODAS AS HORAS QUE NÓS PERDEMOS




Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
 
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
 
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...
 
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
 
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
 
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
 
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
 
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
 
Fernando Pessoa
Ode / Ricardo Reis
arte  Fuller Graves

GUIA-ME A SÓ A RAZÃO



Guia-me a só a razão.
Não me deram mais guia.
Alumia-me em vão?
Só ela me alumia.
 
Tivesse quem criou
O mundo desejado
Que eu fosse outro que sou,
Ter-me-ia outro criado.
 
Deu-me olhos para ver.
Olho, vejo, acredito.
Como ousarei dizer:
"Cego, fora eu bendito"?
 
Como olhar, a razão
Deus me deu, para ver
Para além da visão -
Olhar  de conhecer.
 
Se ver é enganar-me,
Pensar um descaminho,
Não sei. Deus os quis dar-me
Por verdade e caminho.
 
Fernando Pessoa
De Cancioneiro
arte Felix Mas  
 

DOMINA OU CALA




Domina ou cala
 
Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
 
Fernando Pessoa
Odes/ Ricardo Reis 
arte Felix Mas

21/06/2014

V



Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho...Eu sou teu Rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
 
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.
 
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
 
Depois a realeza, corpo e alma,
E regressei à Noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa
In Poemas de Fernando Pessoa
Organização Cleonice Berardinelli

[17]



Feliz dia para quem é
O igual do dia,
E no exterior azul que vê
Simples confia!
 
O azul do céu faz pena a quem
Não pode ter
Na alma um azul do céu também
Com que viver.
 
Ah, e se o verde com que estão
Os montes quedos
Pudesse haver no coração
E em seus segredos!
 
Mas vejo quem devia estar
igual do dia
Insciente e sem querer passar.
Ah, a ironia
 
De só sentir a terra e o céu
Tão belos ser
Quem de si  sente que perdeu
A alma p'ra os ter!
 
Fernando Pessoa
In Poemas de Fernando Pessoa
Organização Cleonice Berardinelli
Imagem Berussa Anatolia

19/06/2014

***




Na ampla sala de jantar das tias velhas
O relógio tiquetaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se  não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.

Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
In Fernando Pessoa Antologia Poética
Organização Cleonice Berardinelli
arte John Singer Sargent

***


 

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar...
Eu...
 
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas , ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
 
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei.
Eu...
 
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida,
Terei um futuro? Sem dúvida,
Ainda que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
 
Fernando Pessoa  /Álvaro de Campos
In Fernando Pessoa Antologia Poética
Organização Cleonice Berardinelli
 

04/03/2014

PÕE QUANTO ÉS NO MÍNIMO QUE FAZES




Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
 
Assim em cada  lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
 
 
Fernando Pessoa / Ricardo Reis
In Citações e Pensamento de Fernando Pessoa
tela Dorina Costras

DOMINA OU CALA



Domina ou cala. Não te percas, dando 
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
 
Fernando Pessoa / Ricardo reis
In Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa
tela John White Alexander

DESTINO



Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
 
Ah, embalado
Na ideia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades
nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse. 
 
Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente ,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra.
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento
 
Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos -
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem
                                               [inteligência para compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.
 
Fernando Pessoa / Álvaro de Campos
de Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa
tela Robert Finale

26/02/2014

TEMPO




Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho à Virgílio, à Milton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!
 
Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)…
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.
 
Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um ato indefinido nem factício…
Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…
 
Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!
 
(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto?
Que foi isto a vida?)
 
Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!…
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar, 
E estremece, no mesmo movimento que o da terra,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.
 
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
In Citações e Pensamento de Fernando Pessoa
Imagem Nicolas Poussin

29/01/2014

ANÁLISE




Tão abstrata é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
 
Fernando Pessoa
In As Múltiplas Faces de Fernando Pessoa         
arte desconheço autoria

28/10/2013

DIZES-ME

 
Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
 
Fernando Pessoa
In Poemas Inconjuntos
Imagem Miss Flores (facebook)

12/09/2013

[4]




Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
 
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
 
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.  
 
Fernando Pessoa
In Poemas Inconjuntos 
tela Jennifer Vranes

08/09/2013

44




Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xale -
O xale que minha tia me punha aos  ombros na infância
Mas os ombros da minha infância sumiram-se muito para dentro dos  meus
                                                                                                            ombros,
E o meu coração da infância desceu-se muito, para dentro do meu coração.
 
Sim está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que  eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engenho o capote à minha volta...
O Universo da gente...a gente...as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada,
Sim, aquilo a que chamamos a vida, como se só houvesse astros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem consertar melhor? Puxem-me para cima o capote.
 
Ah, parte a cara à vida!
Liberta-te com estrondo no sossego de ti!
 
Fernando Pessoa 
In Antologia Poética
Organização e apresentação Cleonice Berardinelli  
tela Pablo Picasso 

01/09/2013

49



Quando as crianças brincam
E eu oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
 
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda da alegria
Que não foi de ninguém.
 
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Que ao menos quem sou sinta
Isto no coração.
 
Fernando Pessoa
In Antologia Poética
Elaborada por Cleonice Berardinelli
tela Susan Lyon

XXI



Seu eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
 
 
Nem tudo é dia de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
 
O que é preciso é ser natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim e assim seja...
 
Fernando Pessoa
Publicado em Athena nº 4, Janeiro de 1925
tela Galeria Malarstwa Marek Langowski  
 

04/06/2013

NEVOEIRO



Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer-
Brilhos sem luz e sem arder,
Como o que o fogo - fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje tu é nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa
In Fernando Pessoa - Antologia Poética 


06/02/2013

***


 

MOVEM NOSSOS BRAÇOS  outros braços que os nossos,
falam  na nossa boca lábios que não nos pertencem
Não somos agentes; nós somos acções - os destroços
De gestos apenas metade neste mundo em que a vida
Passa como um cortejo em que os olhos de Deus pensem
E entre ele e o cortejo pensado há quem age esta lida.
 
Somos cartas mandadas de espírito para espírito na treva
Quebrada a ponte, nós somos a ponte, e isso é falso...
Farrapos das intenções dos anjos que a treva leva
E ao alto de cada alma nossa ergue-se num cadafalso...
 
Tudo isso se passa entre Deus e o ser que não temos
E no intervalo chora o som da ida  nos remos.
 
Fernando Pessoa
In Poesias
tela Carrie Vielle 

***



TENHO UM SEGREDO que nem eu próprio conheço...
Data de almas minhas anteriores à actual...
Outras paisagens sugerem-se através das janelas
E a hora visível recua até ao fundo
Do meu ser e intercala-se
Uma ideia de mim entre mim e a realidade...
 
Tenho um segredo que o Tempo não inclui,
Nem a Vida, nem a sombra nos vales
Chamada sentir, nem os palmeirais do sonho,
Não - nem o teu gesto lento só enfado
'Scrito ainda mole nas pregas da tua túnica
(Tudo com sombrias águas ao fundo).
Em torno ao meu sono falso ou profundo eu circulo
E a voz do encantador afastando-me de agir... 
 
Murmúrio das águas...
Humildade das pedras...
O segredo disto tudo é outras eras...
O sentido para que tudo isto se inclina espelha-se no infinito...
E a vida que vivi em tudo isto, e que sofri e amei
Antes do Tempo, parece hoje visto assim ser meu de longe,
É a bailadeira ao canto esperando a vez de dançar
Ainda e com luz da porta oblíqua sobre os ombros.
 
Fernando Pessoa
In Poesia 1902-1917
tela Michel Gorban