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25/05/2011

VIAGEM DERRADEIRA




















…E partirei. E ficarão os pássaros
cantando;
e ficará o meu quintal, com a sua árvore verde
mais o seu poço branco.

O céu, todas as tardes estará azul e calmo;
e tocarão, como esta tarde estão tocando
os sinos do campanário.

Irão morrendo aqueles que me amaram;
e a cada ano se fará novo o meu povoado;
e no tal recanto do meu quintal florido e calado
o meu espírito vagueará, nostálgico…

Eu partirei; e ficarei só, sem lar, sem a árvore
verde, sem o poço branco
sem o céu azul e calmo…

E ficarão os pássaros cantando.

juan ramón jiménez
In poemas agrestes/1911
tradução de nicolau saião
blog http://canaldepoesia.blogspot.com/
foto by  riesling_76

21/10/2009


Foto de Micheline Fo... no Flickr

UNIVERSO

Teu corpo: ciúmes do céu.
Minhalma: ciúmes do mar.
(Pensa minhalma outro céu.
Teu corpo sonha outro mar).

Juan Ramón Jiménez
Tradução Manuel Bandeira

19/10/2009


by Carol Sharp

AGRIDOCE

Um pouquinho de sol,
E o jardim gotejante goteja luz,amor.
Um pouquinho de sol,
E os olhos que choram chorarão luz, amor!

Juan Ramón Jiménez
Tradução de Manuel Bandeira

by Albano

O PERIGO

Meu peito todo me treme
Com susto de teu amor,
Como o pássaro que teme
O tiro do caçador.

Quer desaparecer, quer
Fugir, quer cantar na fé
De sua vida, e quer ser
Qualquer coisa que não é.

Em cada refúgio está
Pior; é a felicidade,
Antecipado sangrar,
Como um rio que se vai.

Já não há remanso ou flor
Para buscar, na aflição
De fugir. De teu amor
Já todo é o meu coração

Juan Ramón Jiménez
Tradução de Manuel Bandeira

by Dante Gabriel Rossetti

OLHOS DE ONTEM

Olhos que querem
Olhar alegres
E olham tão tristes!
Ai, impossível
Que um muro velho
Dê brilhos novos;
Que um tronco seco
Abra outras folhas,
Abra outros olhos
Que este, que querem
Olhar alegres
E olham tão tristes!

Ai, impossível!

Juan Ramón Jimenéz
Tradução de Manuel Bandeira

08/10/2009


Foto de photographer... no Flickr

A PAZ

Ter em minhas mãos
Uns jasmins com sol,
Com o primeiro sol;
Saber que amanhece
Em meu coração;
Ouvir de manhã
Uma única voz...

É tudo que quero.

Regressar sem ódios,
Calmo adormecer,
Sonhar ter nas mãos
Silindras com sol,
Com o último sol;
Dormir escutando
Uma única voz...

É tudo o que quero.

Juan Ramón Jiménez

by Heide Dahl

A NOITE

O dormir é como ponte
Que leva de hoje a amanhã:
Por debaixo, como um sonho,
A água passa, e passa a alma.

Juan Ramón Jiménez

Foto de Ben Clinch

BRANCO

Branco, primeiro. De um branco
De inocência, cego,branco,
Branco de ignorância, branco.

Pronto verdeja o veneno.
Abre janelas o corpo.
O branco torna-se negro.

Guerra de noites e dias!
O vento assassina a brisa,
A brisa ao vento...

Na brisa
Vem reconquistando o branco.
Branco verdadeiro, branco
Já de eternidade, branco.

Juan Ramón Jiménez
In Coleção dos Prêmios Nobel da Literatura

10/08/2009


Foto de vandevoern

MELANCOLIA

Esta tarde fui com as crianças visitar a sepultura
de Platero,lá no horto da Piña,à sombra do pinheiro
copado e paternal.Em redor, abril enfeitara a terra
úmida de grandes lírios amarelos.
No alto, cantavam os passarinhos, na copa verde,
sob o céu azul, e seu trinado miúdo, colorido e
risonho perdia-se na dourada transparência do
lusco-fusco vesperal, como um claro sonho de amor
novo. As crianças,logo que chegaram,fizeram silêncio.
Quietas e graves, os olhos brilhantes nos meus olhos,
encheram- me de perguntas ansiosas.
- Platero amigo!- perguntei eu, voltando-me para seu
túmulo: - Se, como penso,estás a esta hora nos prados
celestes e carregas em teu lombo peludo os anjos peque-
ninos, terás acaso,me esquecido? Platero,diz-me: ainda
te lembras de mim?
E,como respondendo à minha pergunta,uma diáfana
borboleta branca, que eu antes não tinha visto, pôs-se
a voar e a revoar,com insistência,como uma alma,por
sobre os lírios.

Juan Ramón Jiménez
In Platero e Eu

20/06/2009


Foto de Luuma

A Cor da Tua Alma

Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!

Juan Ramón Jiménez
In Ríos que se Van
Tradução de José Bento