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04/10/2008


Foto de Luigi FDV

BILHETE

Fulana.
O que mora em ti
feito pranto e desconsolo
não é amor:
é medo da solidão.

Ela existe,
a feia algazarra
dos pensamentos não comunicados.
E dói
- diz-me a memória de um perdido maio.

Na agricultura do amor
uns plantam, outros loteiam.
Indo pra Londrina,
aí mesmo é que não dá.

Anistia-te de especulação e pranto.
Compra o jornal
E aprende no negrito das manchetes,
que já não existem ilhas acasaláveis.

Homero Homem
In O Agrimensor da Aurora

Foto de *Saariy*

GENIPABU
A Aldo Lins Marinho

O mar era dócil novilho de espuma
Lambendo o sal dos dias, as raízes
Do coqueiral, numa praia deserta, a leste do verão.

Meus cabelos eram alísios correndo para o mar.
Meus pés ganhavam forma de nadadeiras.
Os braços mergulhavam no mar.

O vento tatuava cardumes e transatlânticos
Na pele glabra do mar.
O vento modelava canção e folhagem
Na rede estendida na praia.
O vento derrubava frutos e pássaros
Plantando o verão.

O gado descia até o mar,
Mugia olfativo na porfia pelo sal.
Tartarugas desovavam na areia.

Pequenos caranguejos cor de oca
Levantavam-se nas patas laboriosas,
Punham fome e malícia nos periscópios dos olhos redondos.

A noite com sua frota de pingentes luminosos
Girantes, como esferas de mercúrio
Soltas por mares galaxias,azuis do Céu.
Adormecias na praia,
Teu sono se povoava de águas-vivas.
Acordava outra vez menino subtraído ao homem
Naquele verão.

Homero Homem
In O Agrimensor da Aurora

Foto de nlimonge

TARDES DA GÁVEA

Naquele tempo a tarde era lazúlea
de céu. Verde de copa.

Sobre o ombro da tarde já ferida
pendia o Sol, cabeça encanecida
coroada de pássaro e eucalipto.

Eu contemplava a tarde, mas te via
noturno já de rosto, iluminada
apenas pela gota de ametista
que pingava da tarde e de teus brincos.

Coitadinhos de nós no lusco-fusco
da fala e do silêncio que vestia
a grande milha andada e não andada
que a tarde palmilhava e consumia.

Guardo de ti a tarde, teus cabelos,
o desatado brilho de seus aços,
a curva iluminada do caminho
e solidões armadas como laços.

Homero Homem
In Agrimensor da Aurora

03/10/2008


Foto de Jose Ferreira Jr

CÍRCULO DE GIZ
A Alzira

Por algumas mulheres transitei.
Mas em nenhuma, juro, me detive.
Filha de Catanduva, de Ninive,
atendesse por Ângela ou Maria,
Como não as amava, consolei
em versiprosa que nada dizia.

Mas a você que, eu afinal, amei,
me reflori e me tornei converso,
a você que eu amei e multiamei,
sonhei dar muito mais que amor em verso.

Duas vezes apenas me flori
Na estação do amor. Círculo de giz
maravilhado, então, eu aprendi
que o verso é inútil quando se é feliz
e o poema só deflagra seus sinais
quando um dos dois murmura "Não dá mais".

Adaga ardente que me crava o dia,
penetra o sono, fere o coração,
compreende agora, meu amor, porque
Tremia tanto que, por minha mão,
florisse em verso triste a dor tardia
eterna e inútil dessa confissão.

Homero Homem
In O Agrimensor da Aurora

02/10/2008


by Dante Gabriel Rossetti

RETORNO DA POESIA
A Alphonsus de Guimaraens Filho

Fugiu com seus guardados de solteira
e magoado perfil.Fez-se estrangeiro
plantel de náusea e susto no aguaceiro
em que a precipitou nossa cegueira.

Nós a perdemos,sim.Água ligeira,
pura inscrição no azul. Maio primeiro
Platô de vidro sob o céu ordeiro.
Raio (ou ninho) de sol na cumeeira.

Mas essa luz que foge à própria presa,
rastilho na calçada,sobe acesa
os degraus meio cruz do novo dia.

Sendo-seria a luz poesia,
não há por que morrer. senta-te à mesa,
reúne os teus e chora de alegria.

Homero Homem
In Agrimensor da Aurora

by Dante Gabriel Rossetti

DEPOIMENTO

Amor
( se me permite o didatismo
em nome das marcas que carrego,
desse vagir que me caldeia o sangue,
rio de propulsão que em mim situa
sua agência central em capricórnio)
são vôltes acesos navegando sangue
são polias afins entrelaçando
almas e servidões; e mais um sopro
que os pulmões não aproveita
porque (amor) é infenso ao respirar
a qualquer área, política, condomínio
que não seja o de corpos trabalhados
em silêncio, remadas e marés
devastadoras de linhos e auroras.
Porque somos
escutamos humildes e crédulos
o passante mugir das vacas bravas
lambendo o sal dos corpos
pastando prados cantantes
eriçados de ventos e de águas
que se inclinam para o mar
porque é o mar que carregamos.
o amor vem
eu o recebo de mesa posta e mãos limpas.
eu o sirvo e me vou.

Homero Homem
In O agrimensor da Aurora