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12/10/2011

ARIETAS ESQUECIDAS


I

Na planície, o vento 
Sossega um momento.
(Favart.)  

É o extase amoroso,
é o cansaço langoroso,
são os suspiros que exalam
as matas, ao vir da aragem .
São, pela expessa folhagem,
tímidas vozes que falam.

Oh! fresco e flébil ruído!
É como um leve gemido,
é como o lânguido arfar
que agita a relva, de manso.
Dir-se-ia um surdo balanço
de calhaus n'água, a rolar.

Esta alma que se lamenta,
nesta queixa sonolenta,
não será,talvez, nossa alma?
Quem sabe a minha alma e a tua,
cuja canção se insinua,
baixinho, na tarde calma?

Paul Verlaine
In Festas Calantes
tela Vicent Van Gogh

09/10/2011

ROMANÇAS SEM PALAVRAS


II

Chove, de manso, na cidade.
(Arthur Rimbaud)

Chove em meu coração
como chove lá fora.
Porque esta lassidão
me invade o coração?

Oh! ruido bom da chuva
no chão e nos telhados!
Para uma alma viúva,
oh! o canto da chuva!

E chora sem razão
meu coração amargo.
Algum desgosto? - Não!
É um pranto sem razão.

E essa é a maior dor,
não saber bem por que,
sem ódio e sem amor,
eu sinto tanta dor.

Paul Verlaine
Tradução Onestaldo de Pennafort 
Festas Galantes
tela Avery Tillmon

26/05/2010


foto by Rosa Gambóias

EM SURDINA

Calmo, na paz que difunde
a sombra dos altos ramos,
que o nosso amor se aprofunde
neste silêncios em que estamos.

Coração, alma e sentidos
se confundam com estes ais
que exalam, enlanguescidos,
medronheiros e pinhais.

Fecha os olhos mansamente
e cruza as mãos sobre o seio.
Do teu coração dolente
afasta qualquer anseio.

Deixemo-nos enlevar
ao embalo desta brisa
que a teus pés, doce, a arrulhar,
a relva crestada frisa.

E quando a noite sombria
dos carvalhos for baixando,
o rouxinol a agonia
da nossa alma irá cantando.

Paul Verlaine

15/02/2010


Woman With Umbrella by Claude Monet

SERÁ NUM CLARO DIA DE VERÃO

Será num claro dia de verão;
raios de sol - meu cumplice celeste -
sobre a seda e o cetim da tua veste
mais bela a tua beleza ainda farão.

O céu, como dossel na azul esfera,
ondulará fremente os folhos cálidos
por sobre os nossos rostos, muito pálidos
pela emoção feliz e pela espera.

Doces ares da noite, então chegados,
hão de afagar teus véus alegremente
e há de olhar das estrelas, complacente,
sorrir para os amantes esposados.

Paul Verlaine
(1844-1896)