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09/03/2009


Foto de filodiniz - Veleiro no Tejo

VELEIRO DA DOR

Que anseias, ó alma à-toa?
Não mais velejam barcos.
No Tejo navega esse velho veleiro da dor.

Adormeço em versos vivos
De Pessoa, Espanca e Régio
assombrações bem-vindas.
Mergulho profundo na Lisboa antiga
e na minha história de partidas.
Onde está minha face?

Orismar Rodrigues
In Antologia Poética

Foto de Luis Felipe Luz

TEMPO TEMIDO

O chão frio
A mesa posta

Sobre o móvel o relógio:
é o tempo.

Passou.Fez-se laço de fita azul
Ficou preso nos cabelos de sol
da menina-sonho.

No papel um desenho - uma máscara
Lá fora os homens na rua

No jardim - pássaro sem vôo
Sem canto
brisa desfeita.
Nesse peito magoado, triste, sofrido
uma lembrança-sempre.

A mesa posta
O latido do cão
O tempo temido
E nas mãos
a ternura rejeitada.

Orismar Martins
In Antologia Poética

Foto de Luis Felipe Luz

OFERENDA

Está decidido:
meus são
meu coração
minhas mãos
carícias.

Também:
meu corpo
canção de amor antiga,
sorriso de infância
não fique igual a esse retrato
amarelo
guardado num álbum de família
precioso de lembranças,
hoje distantes...

Dou ainda:
saudade - essa ruga
tristeza que insiste
em ficar
nos meus olhos.

Orismar Rodrigues
In Antologia Poética

30/12/2008


Foto de veyan1977

DESALENTO

O mar é belo.
Fala-me de partidas.
Quase nunca de chegadas.

O mar é dissabor
com ondas arrastando solidões.
Águas profundas sepultam liberdades.

O mar é belo.
Embala a saudade
essa tristeza d'alma
que carrego não sei desde quando,
para onde, de quem, para quem.

Desisto da busca.
Oferendo minha angústia
às águas cúmplices
do meu desalento.

Orismar Rodrigues
In Poemas do Oriente e de Outros Reinos

Foto de veyan1977

COTIDIANO

Aceitar as mazelas do dia-a-dia
só porque elas chegam e pronto?
Abraçar causas das quais não fomos
consultados
é arbitrariedades do cotidiano.

O inesperado, por ser surpresa,
é também indesejado.
Repudio esse instante
atormentador da alma.

Consciente desse momento indesejado,
não abaixo a cabeça,
nem fico indiferente às angústias,
Meu espírito é inquietude.

Que o amanhã venha amanhã.
Se encontrar-me vestido de estrelas,
que elas brilhem em céu azul de lua cheia.

Mas, se o amanhã chegar sombrio,
que os meus olhos se desfaçam em luz
e iluminem as sepulturas dos amantes.

Orismar Rodrigues
In Sete Poemas da Brevidade