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13/11/2019

JAMBOS VERDES





Nessas tristes tardes 
Debruço-me sobre a janela a colher jambos. 
Infinita tristeza de jambos amarelos 
Jambos verdes, jambos vermelhos. 

Flores dançam ao léu, 
Vermelhas pétalas de aurora. 
Cobrem calçadas, 
Cobrem o colete dos soldados cancioneiros. 

E há sabiás de peito avermelhado: 
Recolhem rosas no céu. 
Recolhem minha tristeza 
Amarga tristeza: risos de outrora. 

Hoje, já não mais giram e quando giram 
Não retornam essas aves retardatárias. 
Memórias esguias. 

E resta o silêncio, insólito silêncio: 
Escada de pedra 
Cravada no peito. 

Onévio  Zabot


25/01/2014

FLORADA DE JACATIRÃO






A mata inteira - verde tapete ondulante -
pouco a pouco desmaia coberta de cores.
Adejam revoltos - pertinazes beija-flores -
voam borboletas num dançar incessante.
 
Correm ligeiros, delicados pincéis de luz,
desenhando aqui, acolá, por toda parte.
Esbanjando talento propiciam nobre arte:
jardim em flor - rubro cálice que seduz .
 
Às vezes, tantas vezes, me quedo olhando,
por horas a fio, essas belas tardes coloridas.
repletas de vida, cujo amor vai aflorando.
 
Ó mãe natureza, berço supremo de sedução!
Ao vestir-se com tamanha profusão de vida,
encarnas os desejos da mais sublime paixão.
 
Onévio Zabot
In Arco de Pedra 

24/04/2013

TEMPESTADE




Longe, no horizonte sul,
risca a trovoada,
vasto campo de nuvens,
pesadas como trem de carga.
 
Um avanço súbito,
coice de ventos cruzados,
mil cavalos invisíveis
em feroz disparada.
 
De lança em punho
emergiu imensa falange,
aquartelada nas nuvens
desfere o fio do granizo.
 
E nos campos
o arco do silêncio,
às vezes, é cortado
por raios em fuga.
 
Montada no vento,
a chuva
cavalga - soberana -
florestas e campos lavrados.
 
A natureza espelha desígnios,
espalha nas vozes,
pegadas de deuses
no templo dos homens.
 
A trovoada em sua fúria
insufla o tropel
instaura a diáspora
em carruagens longínquas,
 
fustiga pastores,
ovelhas e perdizes,
nos campos onde medram
grãos e serpentes.
 
O cenário da tempestade
é tempo de espera,
de repontar rebanhos,
rebanhos de água e vento.
 
Onévio Zabot
In Arco de Pedra
tela Aelbert Cuyp

20/11/2012

BREVES ANDORINHAS



PEITAM A TARDE,
Peitam a noite,
Jovens andorinhas!
E muito mais
Peitariam,
Não fossem minhas.
 
Amo-as e sempre as amarei.
O voo suave, alvissareiro.
Oh, como são leves!
Mansa primavera,
Olhar de riozinho
Desdobrando-se azul.
 
E vê-las alvissareiras
Assentando acampamento no céu.
Revelam-se vento:
Frutos de amor passageiro.
Cavalos alados, movendo-se,
Breves andorinhas.
 
Ó andorinhas mensageiras!
Se fosses minhas,
E não dançariam tão docemente!
E, ao dançar, encantam a gente,
Breves andorinhas!
 
Onévio Zabot
In Confraria das Letras
foto Martins

15/10/2011

COLONO




O colono 
segue trilhas
de chama e enxada.

Enquadrá-lo em jaula de onça,
num círculo qualquer?
Impossível!

Busca a liberdade
como o rio da montanha,
barragem alguma o comporta.

É comum vê-lo
sulcando na terra,
a semente do tempo.

O colono não inspira
sossego de barcos
nos portos da terra.

Se querem sua extinção,
é preciso mais que rasgar 
essas páginas de suor.

Onévio Zabot
In Arco de Pedra
tela Pissarro

05/10/2011

CONSCIÊNCIA DO MUNDO


Este dia não foi inventado.
Sua concepção um ato de força
na consciências do mundo.

Tenho insistido em escalar palavras,
embora a franqueza 
imponha nuvens no caminho.

Cultivo o vento
no campo estéril  da razão,
 a esperança é comensal do tempo.

Não ao enfadonho,
mas navegar com febre e sono,
como um cão sem dono.

Onévio Zabot
In Arco da Pedra
foto de El Virtu

CHUVA DE OUTUBRO



Cai uma chuva fina,
lamento de deuses
por verdes arrozais.

Vergados camponeses
conduzem velhos arados,
sulcam o arco da terra.

A epiderme do chão fende-se
vermelha em longas trincheiras
de suor e lágrimas.

Casas, galpões e cercanias
pairam no tempo
em piedosas litanias.

Nuvens brancas,
outras grisalhas,
cismam dores esquecidas.

Há na natureza
o ardil dos destemidos,
rumores de pingos no teto.

Outubro é assim,
especialmente nas cheias:
as águas num choro sem fim.

A chuva revela Deus.
As folhas ,ao léu,
dedilham acordes de fogo.

A  chuva revela outubro,
A terra com sede,
Colheitas de verde e quimeras.

Onévio Zabot
In Arco de Pedra
foto de El Virtu

24/09/2011

GALOPE DO RIO



Lembra o rio,
laço trançado,
soberbo cavalo
de crinas brancas,
a galope.

Nele a rebeldia
põe esporas e poncho,
carrega a neblina
nas abas do chapéu,
a galope.

Alguém o espera,
longe da terra,
em pleno mar,
gaivotas douradas,
a galope.

Vai o rio
afagando às matas,
apegado em tuas mãos,
a galope.

Peixe aos pobres,
leva aos cestos,
assenta o sossego
dos barcos,
a galope.

Longos ou pequenos,
todos os rios
na brancura do caminho,
na trilha do tempo,
a galope.

Onévio Zabot
In Arco de Pedra
foto por Jhetson

EVOCAÇÃO DA TARDE




Há um gesto de amor no fim do dia.
Ave Maria, clamam os deuses
adormecidos!

Árvores baldias
guardam um silêncio verde
nesse fim de estação.

Em vão busco domar
velhas lembranças despedaçadas
aqui e acolá, quem sabe!

Sopeso de laço e corda,
apetrechos de campanha,
combates de diáfana lucidez.

Prenúncio de chuva
acena colheitas
de espigas e grãos.

Hei de colher o trigo
na extensão do planalto,
no desenho claro dos campos.

Onévio Zabot
In Arco de Pedra
foto Abrahamciño

DE AMAR A VIDA


De amar a vida
levei flores de madrugada,
entre pontes de estrelas.

Sulquei a terra em cio
com arados forjados
nas ondas do mar.

Mergulhei aos beijos
no estuário de teus seios,
estação dos ventos curvos.

Amor extremo de perdição,
que procura navios
em portos orientais,

que persegue os poetas,
inventa a vida,
dedilhando acordes de rubro metal.

Que seja assim a vida:
um barco navegando 
por nossos dias de amor extremado.

Onévio Zabot
In Arco de Pedra
foto  blmiers2


MANHÃS


Áspera é a manhã.Faca de corte,
romã de sete cores, partida e fresca.

Em sua sina de pássaro insano
a manhã nunca foge de ser manhã.

Doa-se em pele de pêssego,
licor rubro no tempo real.

Manhãs e manhãs construídas
em alvorada verde e azul.

Manhãs de tragédias romanas,
de César a caminho da Gália.

Manhãs de cabras mansas,
de ondas a galope no mar.

Manhãs de ontem, hoje e sempre,
de colher tulipas na Holanda.

Manhãs de navegar
nos mares da Austrália.

Manhãs da infância
em berço de claro algodão.

Todas as manhãs se parecem
acolhendo o sol na lanterna dos dias,

ao despertar as serpentes
e aquecer filhotes de águia nas escarpas.
Claras manhãs de fé,
onde semeamos descalços pelos campos.

Que sejam eternas as manhãs,
assim como são eternos os dias.

Onévio Zabot
In Arco de Pedra
foto  blmiers2

20/09/2011

MÃE TERRA


É preciso fazer um poema novo
tecido com raios de sol
para cantar a floração da terra.

A invisível floração
tem o tempo do mundo
e a idade dos mares.

O ato de criação
surpreende o avanço das horas
e perfuma a brisa da manhã:

planta árvores no jardim,
enquanto aprendemos a lição
de construir a primavera.

Onévio Zabot
In Arco de Pedra
foto por   Prakash Goteti

BALÉ ESPACIAL


 
Seremos eternos?
Sucessões
esféricas
no tempo.

Dentro de mim
não há
nada.
Dentro de mim,
o mundo.

Simples,
breve,
leve,
caminho sobre esferas
- degraus? -que me conduzem
ao extrato universal.

A leveza sutil
do planeta em rotação
eleva-se num balé essencial:
a dança fantástica de astros
improváveis.

Deus meu!
Quero navegar no rastro
de um astrolábio na segurança de seu passo,
dançarino encantado
do eterno suceder,
com a respiração mais elevada.

Sou de sempre,
miríades esféricas do instante.

Seremos eternos?

Onévio Zabot
In Arco de Pedra
tela de Tom Conway

15/09/2011

VELEIROS DE PAPEL


Há  no ar  uma sede
ferindo a alma dos pescadores,
roendo barcos
e velas em lance de rede. 
O homem pelas sebes 
Caminha, 
recolhendo estrelas
entre as mãos - no céu.
Nas ribanceiras,
crianças empalmam rios,
plantam neve nas colinas
em brancas  tendas de areia.
O cansaço dos  inocentes
põe pedras nos olhos,
fere  de morte os covardes,
desmonta velhas embarcações.
Se nada segues
pouco  vale o destino,
a  morte cavalga veloz
sempre a caminho.
O homem vive
de pescar o tempo:
ora em veleiros de papel,
ora em veleiros  de vento.
Onévio A. Zabot
In Jornal da Poesia
tela de Winslow Homer

MÃOS



 
As mãos que tratam o gado,
apanham nuvens nas noites de chuva
e enfrentam tormentas nas horas de solidão.
Sagrada são as mãos do pastor,
do laçador que boleia o laço 
e movimenta rebanhos por campos de trigo.
Sempre haverá mãos
prontas para o abraço dos desesperados
ou para evocar a fuga de leões marinhos.
Mãos que buscam anjos,
atraem sonhos de jovens cortesãs
no largo leito de núpcias.
Mãos que levam naves  pelo espaço,
que trazem estrelas
e as espalham  nos lagos e cisternas.
Mãos que apenas querem,
desvendar vias  por praias desertas,
pondo o mar no caminho das ondas.
Maior que nossos sonhos, 
todos os dias sentimos o rosto
preso entre as mãos,
Sentimos o corpo queimar,
arder em busca do sol,
onde repousam nossas mãos.
Onévio A.Zabot
In Jornal da Poesia

21/08/2011

SERRA DO MAR


A serra inteira
cavalo verde de crinas douradas,
a passos largos
entre a geologia e velhos trens.

Jacatirões perfilam
por desfiladeiros.
Tropas gregas em linha de combate,
serra abaixo.

Há um tear verde no ar,
rosa branco,lilás,
apanágio de deuses
em acordes orientais.

Velhos colonos avançam
com carroças barulhentas.
Crianças e cães baldios
semeiam a primavera.

A serra prova em favos
a doçura do vento,
desliza suavemente
rumo às canhadas  e vertentes.

Infindáveis rios
deságuam murmúrios
entre plumagens de araquãs,
a levar pedras no bico.

Ao longo do horizonte
o astro da sabedoria,
rastro visível do que um dia
foi a presença dos deuses.

Onévio Zabot 
In Arco de Pedra