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25/02/2012

SONETO DOS MUITOS EUS


Um eu ficou no mar aprisionado
E deixou-me por pés as nadadeiras;
Outro ficou nas nuvens caminheiras,
Por isso bato os braços no ar parado.


Um eu partiu menino ensimesmado
E ofertou-me palavras verdadeiras,
Outro amou suas sombras companheiras,
Outro foi só, e um outro de cansado


Caminhou pelos becos. Há também
Aqueles que ficaram na poesia,
Nos bares, na rotina, o eu do bem,


Do mal, o herói, o trágico, o esquecido.
Eu gerado por mim na liturgia
De um todo para tantos dividido!


Paulo Bomfim
In Veredas da Língua Blogspot
tela Duy huyhn

SONETO V



Alquimia do verbo. Em minha mente
Recriam-se palavras na hora vária,
A poesia se torna necessária
E as flores rememoram a semente.

É preciso que exista novamente
A aventura distante e temerária
De em ouro transformar a dor precária
E em nós deixar correr a lava ardente.

Que uma emoção profunda e mineral
Corra nos veios desta carne astral
E encontre em mim aquilo que procura.

Na paisagem que for, já sou nascido:
Nas formas criarei o elo perdido,
E, em lucidez, serei minha loucura.

Paulo Bomfim
In Veredas da Língua  Blogspot
tela  Duy Huynh

23/02/2012

POEMA DO SILÊNCIO



Silenciai, ventos da noite.
Os anjos tornam opacas
As lentes dos telescópios,
E pousam dedos de pluma
Na insônia dos homens e dos mares!
Silenciai, ventos da noite!
Há outras sinfonias
Chegando dos mundos perdidos
Para o ouvido verde dos campos
E para os nervos líquidos dos rios inquietos...
Silenciai, ventos da noite:
As folhas regressam aos galhos
E o pastor encontra seu rebanho de nuvens selvagens
vagueando no mistério dos vales azuis...
Silenciai, ventos da noite
Para que meu amor adormeça
Longe dos presságios e das tempestades,
Enquanto seu corpo de espuma se transforma em sonho
e desliza mansamente
Entre as lentes opacas e os anjos pensativos...

Paulo Bomfim
tela de Duy Huynh

03/04/2011

OUTRO SEREI AMANHÃ



Outro serei amanhã
Quando o silêncio pousar
Na rosa branca dos ventos
Rosa de espuma e luar.
Outro serei, quando as aves
Voltarem da tempestade,
Trazendo a luzir na treva
Sementes de eternidade.
Outro serei, quando a noite,
Como nunca, de mansinho,
Vier espreitar-me os passos,
Junto à incerteza e ao caminho.
Outro serei amanhã
E entre dois esquecimentos
Levarei meu sorriso
E a rosa dos ventos.

Paulo Bomfim
foto por Hanny Patmos