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06/07/2014

SEM CONCEITO




Poesia, minha pele,
e eu nem sei quem tu és.
 
Sei lá
que instante é este
em que se transfigura
todo o jeito das coisas
e o seu jeito de ser?
 
Sei lá
que marcação me impõe o ritmo,
que sons fazem cantar
minha emoção?
 
Nem sei
quando a paixão
entoa um hino,
nem quando o amor
- de terno e doce -
faz a canção cantar...
 
Poesia, minha pele,
e eu nem sei o que és...
 
Mila Ramos
In Em Surdina
arte Kinuko Graft
 

08/10/2011

VIVER


Atravessar a vida
como a vida vem,
tão displicentemente
quanto nuvens soltas
que nem sabem que a chuva
é sangue
nas veias do chão,

não é viver de gente.
Viver é diferente.

É suar
e de suor nutrir a terra.
É sentir
e de sentidos preencher vazios.
É ouvir e dizer,
perguntar e responder,
brigar e desistir,

ansiar,sofrer,sorrir,
e sobre todos
e sobretudo,
amar.

Mila Ramos
In Em Surdina
tela Camille Pissarro 

TERNURA


Gosto de ti assim,
com o gostar da ternura
que adoça o abraço,
tempera o sorriso
embalado ao compasso do querer.

Gosto de ti, amigo
na transparência dos dizeres,
na infinitude dos sentires
a escorrer.
- Olhar abaixo -,
a espalhar no rosto
- riso acima -,
cheio cheio de gostares...
- Desde quando?

Mila Ramos
In Em Surdina
tela Willem Haenraets

25/05/2011

HOJE























Hoje, eu queria a altivez da onda,
o brilho do sol,
a imponência da montanha,
a vastidão do mar...
Tudo isso, e tu me notarias?

Hoje, eu queria a suavidade do regato,
a carícia do vento,
a maciez da nuvem,
a ternura da lua...
Tudo isso, e tu me sentirias?

Hoje, eu queria a doçura do mel,
a beleza da flor,
a meiguice do pássaro,
o calor do verão findando.
Tudo isso, e tu me aceitarias?

Hoje, eu me queria assim,
terna e romântica,
altiva e luminosa,
suave e morna...
Tudo isso, e tu me amarias?

Mila Ramos
In Pé de Vento
foto por  Ilikethenight

MULHER























Para a mulher que sou,
Quero o direito de ser!

Minha opção,
Minha escolha,
E não me tolha o ser gente.

Passo a passo,
Quero o espaço meu
Onde eu estiver:
Seja ser mulher de gente,
Seja ser gente mulher.
Minha opção,
minha escolha,
E não me tolha o ser gente!

Dia  a dia,
Quero as marias
Ao lado dos josés,
Sem guerra ou disputa,
Igualados na luta;
Seja homem ou mulher.

Para a mulher que sou,
Quero o direito de ser!
-----------------------

Mas é tanto preconceito...
- Onde está o respeito, Santo Deus,
Que és Homem?

Mila Ramos
In Pé de Vento
tela de Jack Vettriano

12/03/2011

ATALHOS




















Eu tropecei estradas,
Escorreguei ladeiras,
Encharquei caminhos sob a chuva fina,
Suei picadas nas febres do mormaço,
Sustentei de poeira meu cansaço.
Da vida, fiz andanças,
Mochilas, fiz mudanças,andei!
Como molhei de suor meu coração!
Quanto, à deriva, pisei-me no meu pranto...
E caminhava mais!
Estrepes e espinhos marcaram cicatrizes
Na paisagem parda e sem matizes,
Onde o querer andar, desgovernado e trôpego,
Perdia-me no perdido dos caminhos.
Cansei!
Parei à sombra de uma vida
E, delirando, sonhei que era minha.

- Vem!
Eu fui!
Era um caminho novo, verde e lindo!
Desvairada corri, liberta e nua,
Abrindo os braços,
Enlouquecida, solta, céu e lua,
Para abraçar tu'alma!

Eu te tocava,quase,
Quando o caminho
Rasgou-se em dois atalhos:
Tu seguias por um, suave e leve,
E me apontavas o outro, gelo,neve!

Minha alma esgazeou-se.
Meu coração, vestido de mendigo,
Despertou suado, morno, empoeirado,
Na brisa velha de um velho vento antigo...

Mila Ramos
In Pé de Vento
foto de publik_oberberg

29/08/2010

MUITO COMUM























Gosto das coisas comuns!
De mar, de sol, de lua,
De andar descalça pela rua,
De jogar paciência no tapete...
De olhar a chuva que respinga na vidraça
E decifrar a figura que a gotinha traça...

De toalha branca em mesa posta,
Quem  não gosta?

De música e poesia,
De ficar sozinha,
Pensar e ter saudade,
De estar com gente
Que é gente de verdade...
De remexer em aparelho enguiçado,
De resolver problema complicado...

Gosto da carta que logo tem resposta.
Quem não gosta?

Gosto das coisas comuns!
Gosto de margaridas no jardim,
Gosto de ipê florindo na janela,
De um papo gostoso à luz de vela,
De ouvir rádio, ler jornal,
De banda desfilando, carnaval...

Gosto de abraço que me enrosca,
Gosto do rosto que o meu rosto encosta.
Quem não gosta?

Gosto das coisas comuns...
De incomum, só gosto de você!

Mila Ramos
In Pé de Vento
tela by Camille Soulayrol et Louis Gaillard

01/08/2010

NO FUNDO




Quando olhares no fundo
mais profundo
de uns olhos de mulher,
aprende esta verdade:
A porta que se abre
é a mais larga porteira
e por ali tu  a lerás inteira
com teu olho de lince.

- Não esqueças
que a mulher esconde,
no fundo desse olhar,
a emoção mais linda,
a tristeza curtida,
uma raiva contida,
a paixão,
a dor,
o medo do amor,
tudo lerás
quando olhares no fundo
- mais profundo -
de uns olhos de mulher.

Mila Ramos
In Na Grande Noite dos Girassóis
tela by Jochem


 

DESENCONTRO



























Meu Deus viaja
em todos os meus recantos
e responde
a todas as minhas emoções.
Só não responde
ao meus medos.
No mais, está aqui.
Fica de mal comigo
nos meus tantos orgulhos
e me alisa os cabelos
nas minhas raras humildades.
Fica zangado nas minhas invejas
e ri das minhas vergonhas.
Reza comigo,
emudece se blasfemo,
cochila se sorrio,
ama comigo
e entende os meus desejos.
Tudo em mim meu Deus conhece.
Só não conhece meus medos:
É que nunca estiveram juntos
dentro de mim.

Mila Ramos
In Na Grande Noite dos Girassóis
foto da Galeria de Santalux76 Flickr

27/07/2010

MARCAS



















Pés na areia,
coração no mar.
Minhas pisadas
vão marcando a praia.
Meu coração pisado
nem marcas
deixa
no mar.

Mila Ramos
In Na Grande Noite dos Girassóis
Tela by Peder Severin Kroyer

28/11/2009



SERENIDADE

Tu me ensinaste a amar mansamente,
Sem espera,sem pressa, sem angústia,
Amor que não exige,
Amor que não reclama,
Amor que nem se atreve mais
A repetir que ama,ama,ama...

Tu me ensinaste a amar mansamente,
Em silêncio, serena, imóvel,calma.
Como te chamarei,
Amor de quietude,
Amor que nem se atreve mais
A esperar,amor que não se ilude...

Mas é tão falsa essa serenidade,
Tão frágil,inútil,mascarada,
Que mal resiste a um riso teu
E já se sente amada!
De novo, um turbilhão me invade a alma,
A agitação me possui, viro tormenta,
Mar que te anseia e arrebenta
Em tua paz...

Depois, voltando à calma,
O meu amor se recolhe,
A mansidão perdura,
E serena,amando espero,
Teu novo gesto de ternura...

Mila Ramos
In Pé de Vento

04/07/2009


Foto de lucyinthesky

MÃOS

.... nem amar, eu sei amar sem elas.
Nem amar!
Nem sentir tua pele
e a maciez carregada de cheiro,
- que meus dedos arteiros-
absorvem de ti..

Nem amar, eu sei amar sem elas.
Nem amar!

Mãos de busca,
mãos de encontro...
- Mãos abrindo caminhos,
escaninho às escâncaras,
amores todos.
Ah! Mãos,
minhas mãos!
Como hei de amar sem elas?

Mila Ramos

Foto de Bahrbara And

CHUVA

Nem a chuva miúda me abate!
Nem o frio que enregela o nariz
me desarma o sorriso,
me faz débil.
Nem o cinza da tarde, o céu descorado,
a terra molhada, o humo encharcado,
me escurece o olhar,
me faz cega.

Nessa hora, aqui dentro do peito,
brota a vida,
tem sumo,
tempero,
quentura,
- mistura de mel e sal grosso-
tem abraço,
- feito laço de mãos e pescoço-
tem carinho,
-mistura de beijo e de ninho.

Nem a chuva lá fora resfria minh´alma...
Meu desejo de ver e viver e brotar
sem idade, sem medo, sem dor,
me dá asas:
sou sabiá da mata,
mata a saudade,
requenta o amor.

E quando o sol mandrião se levanta
febril e fanhoso,
e com lenço de nuvem
se assoa amuado,
o leite que espirra da teta da vaca
clareia o camargo,
desperta seu cheiro
e afina meu solo de amor pela vida
levada.

A chuva é a rega
que rega meu peito.

Mila Ramos

Foto de Chrismferrei...

MARIA-SEM-VERGONHA

Maria-sem-vergonha de nascer...

Maria-sem-vergonha de florir...

Maria-sem-vergonha de se dar...

em qualquer tempo,

em qualquer lugar,

Maria-sem-vergonha de murchar...

Mila Ramos

02/07/2009


Sermon on the Mount by Attributed to Fra Angelico

CAMINHADA

Deus fez meus pés
apontando
a direção
da caminhada.
Mas isto não me impede
de voltar atrás,
de tentar o retorno,
e de refazer,
- melhor e mais seguro -
qualquer dos meus caminhos
já pisados.

Mila Ramos
In na Grande Noite dos Girassóis

by Catherine Wiley

MARESIA

Dá-me os castelos de areia
que a maré desmancha
e eu refaço,
remonto,
levanto muralhas,
as torres,
os sonhos.
Dá-me a constância da onda,
o sal do mar,
o mar do sol,
queimando as fantasias.
Dá-me a noite, caindo,
o mar de lua,
o baixio,
a maresia,
o aguapé.
Dá-me os castelos,
meus sonhos de volta
antes que suba a maré.

Mila Ramos
In Na Garnde Noite dos Girassóis