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18/12/2012

QUINTAIS DO CORAÇÃO




Aquilo que em mim um dia
é aço, pedra e sentença,
no outro é Deus ou descrença.

E o que às vezes me crava
a febre de mergulhar,
outras vezes me flutua.

Aquilo que em mim um dia
é norte, grito e certeza
no outro, é não-sei-mais-nada.

E o que às vezes me situa
na fome de achar destino
outras vezes nega a estrada.

Nesse palco de estar vivo
abre o pano e sou aquele 
que não foge nem atua.

Sem roteiro e itinerário
sou uma estátua de carne,
e o avesso do contrário.

Quantas metades me cabem 
quantas verdades me sobram
quanto meu corpo me cobra
por tudo quanto não sabe...

Na casa da minha pele
me hospedei, sereno e mudo
no meio da rebelião.

Mas entre o medo e coração
há uma fresta onde escapo
da viagem, desde cedo.

Por isso entendo e aceito:
cada sentido é um menino
que rindo , brinca de roda

nesse pátio de brinquedo
que virou meu coração.

Jaime Vaz Brasil
In Moradas de Orfeu 
tela Irina Kotova

AMIGA




Amiga:
coração aberto em ave na distância.
Estou perto, bem mais perto que imagino:
sol na clave que bem sabe seu destino
de menino viajante em tua pauta.

Amiga:
sou pra sempre a memória dos teus passos
e o espaço onde não cabe o que mais sinto.
Já não minto o que, por medo, deixei cedo
mal dormido sobre a noite dos meus lábios.

Não importa o calendário e as leis humanas
nem horários que mal cabem na semana.
Meu tempo é um maestro surdo e cego,
e não nego: hoje sei o que é eterno.

Amiga:
onde o livro dos poemas que eu não lia
se a palavra adormecida na criança
vem  e dança sobre o palco em que devia
ter gritado nos meus olhos para sempre?

Amiga:
quando um dia for eco de outro dia
e a saudade não buscar o seu oposto
mesmo assim, eu estarei na tua pele.
Nem que o que o tempo roube a forma do teu rosto.

Jaime Vaz Brasil
In Moradas de Orfeu
tela Kelvin Lei

A CONCHA DAS HORAS



Leva o teu sorriso, por favor leva pra longe.
Leva o que puderes, leva as minhas dores todas.
Leva o teu olhar e leva o que mais achares
e eu acolherei, desta vez, o teu silêncio.

Guarda o teu amor, num lugar que não existe.
Deixa, eu mesma lavo o que nos sobrou de triste.
Pelo nosso quarto, pela cama no deserto
eu vou sacudir o que dizem ser adeus.

Leva teu rancor, teu espelho mais antigo.
Leva o que couber no teu corpo tão vazio.
Deixa meus escudos. Deixa, eu fugirei do frio
mesmo que viaje à neve das cordilheiras.

Mas a noite é longa, nas malas e nas tristezas.
Leva tudo agora, que a manhã não se demora.
Deixa, eu mesma espanto o que tanto ainda me cala e o teu desamor me dói
 mais quando nem falas.

Mas quem sabe amigo...
um dia eu te lembre
no beijo esquecido
na palma do tempo
na concha das horas.


Jaime Vaz Brasil
tela Guclielmo Siega