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15/08/2011

SOBRES OS CIMOS


Sobre os cimos passa a lua,
Leve agita o bosque as folhas,
Dentre os ramos de amieiro
Soa a trompa melancólica

Longe...cada vez mais longe...
Mais suave...mais suave -
Doce anseio de morrer
O meu espírito inundando.

Por que paras, se a minh'alma,
Encantada, te procuras?
Voltarei, ó doce trompa,
A ouvir-te alguma vez?...

Mihail Eminescu
In Poesias 
foto por  Nick. K.

ENSONADOS PASSARINHOS


Ensonados passarinhos
Nos seus ninhos se aconchegam
E se escondem entre os ramos -
Boa noite!

Só as fontes rumorejam
No silente e negro bosque;
No jardim dormem as flores -  
Dorme em paz!

Corta o cisne as calmas águas,
Entre as canas vai deitar-se -
Que te fiquem perto os anjos,
Sono suave!

Sobre a noite sumptuosa
Vai-se erguendo a lua bela...
Tudo é sonho e harmonia -
Boa noite!

Mihail Eminescu
In Poesias
foto por jessi.bryan

02/08/2011

A LAGOA


A lagoa azul do bosque,
Com nenúfares amarelos,
Ondulando em claros círculos
Faz tremer um frágil barco.

Deambulo pelas margens
Como à espreita, como à espera
Que Ela surja de entre as canas
E se aninhe no meu peito.

Para o barco saltaríamos
E, embalados pelas águas,
Ficaria solto o leme
E também os remos soltos;

A vogar, sob a magia
Do luar tão doce e calmo,
A ouvir do vento o afago
Na folhagem e nas águas.

Mas não vem...E, solitário,
Eu em vão suspiro e sofro
Junto ao lago azul, juncado
De florinhas de nenúfares.

Mihail Eminescu
In Poesias
Artists / Savrasov / Moonlight on the Edge of a Lake

01/08/2011

DE CENTENAS DE NAVIOS



De centenas de navios
Que os seus portos abandonaram,
Serão quantos destroçados
Pelos ventos, pelas vagas?

E das aves migradoras
Que atravessam esses mundos,
Serão quantas afogadas
Pelas vagas, pelos ventos?

Quer procures a ventura
Quer os próprios ideais,
Serás sempre perseguido
Pelos ventos, pelas vagas!

A ideia dos teus cantos,
Que ninguém entenderá,
Voa sempre, acompanhada
Pelas vagas, pelos ventos!

Mihail Eminescu
In Poesias
Tradução de Victor Buescu
Artists / Savrasov / Rye

28/07/2011

O AMANHÃ AUMENTA OS DIAS...


O amanhã aumenta os dias,
O ontem diminui a vida -
Perante nós temos, contudo,
O dia de hoje, para sempre.

Se morre um ser, logo vem outro
Para segui-lo neste mundo,
Tal como o sol, quando se põe,
Ressurge logo em qualquer parte.

Dir-se-ia que outras ondas passam
Descendo sempre o mesmo rio;
Dir-se-ia que é um outro outono -
Mas caem sempre as mesmas folhas.

A nossa noite é precedida
Pela suave madrugada;
A própria morte é ilusão,
Um mealheiro da existência:

De cada efémero momento
Eu depreendo que este oxioma
Sustenta toda a eternidade
E faz girar o mundo inteiro.

Pode voar, portanto, este ano
E no passado mergulhar,
Pois conservamos  o tesouro
Que desde sempre temos n'alma.

O amanhã aumenta os dias,
O ontem diminui a vida -
Contudo, temos ante nós
O dia de hoje, para sempre.

As cintilantes aparências,
Que velozmente se sucedem,
Repousam sob a irradiação
Do sempiterno pensamento.

Mihail Eminescu
In Poesias
Tradução de Victor Buescu 
foto por jaxxon  

SE OS RAMOS...


Se o ramos batem na vidraça
E os choupos estremecem,
É para que eu te idealize
Chegando devagar.

E se as estrelas sobre o lago
O seu fundo iluminam,
É para que eu não sofra tanto
E serene o meu espírito.

E se, vencendo as nuvens densas,
A lua resplandece,
É para que eu de ti me lembre,
Amor,eternamente.

Mihail Eminescu
Tradução Victor Buescu
foto por jaxxon



21/07/2010

Ó MÃE



























Mãe, doce Mãe, do fundo silencioso dos tempos,
entre o murmúrio das flores me chamas a ti.
Sobre a cripta negra do túmulo sagrado,
o vento do outono agita as acácias;
levemente, movem-se os ramos, imitando a tua voz...
Eles sempre se moverão, eternamente dormirás.

Quando eu morrer,da paz em que descansas, não chores
[por mim.
Quebra um galho da humilde e suave tília,
enterra-o, com zêlo, à minha cabeceira
e deixa sobre ele cair a tua lágrima.
Sentirei, imediatamente, a sua sombra sobre o
[meu túmulo...
Sua sombra crescerá constantemente e eu dormirei
eternamente,Mãe.

Mas se, no entanto, ainda estivesses viva,
e se tivessemos, querida,
de morrer juntos,
que não nos transportassem
por entre os muros do cemitério.
Que cavassem a nossa sepultura
na orla fresca de um rio
e que nos colocassem, no mesmo esquife.
Assim estarias sempre deitada perto de mim...
Sempre choraria a água, passando...
e sempre,sempre, dormiríamos...
Sempre.

Mihail Erminesco
In Antologia da Poesia Romena
Tela by Cassat

18/07/2010

SONETO





Quando a própria voz dos pensamentos se cala,
e em mim ressoa um canto doce e piedoso
então, te invoco; ouvirás o meu apelo?
Das brumas frias em que nadas, irás libertar-te?

Irão iluminar a noite profunda
os teus olhos grandes, portadores de paz?
Ressurges da sombra dos tempos idos,
para ver-te voltar - como em sonho, assim, viva!

Desces devagar...perto, mais perto,
aconchegas-te novamente sorrindo à minha face,
oh, teu amor com um suspiro mostra-o,

com tuas pestanas tocas as minhas pálpebras,
que eu sinta a vibração do teu abraço
perdida para sempre, eterna adorada.

Mihail Eminesco
In Antologia da Poesia Romena
Tela by Franz Xavier Winterhalter


DE VELAS DESFRALDADAS























De velas desfraldadas, no silêncio,
e ao vento,
o barco vai singrando lentamente as águas,
para chegar à terra...

Mas bandos de andorinhas atravessam
o céu e o mar...
Ó estrelas, estrelas imortais,
por que não ides atrás delas,
seguindo o seu caminho?

Por que entristeço
se as ondas morrem
e outras aparecem,
rolando entre espumas?
Por que a queda das flores
e das folhas me dói?

Ó nuvens, nuvens,
acaso vós sabeis
por que viveis interminavelmente
e só os homens morrem?

Sempre, sempre no céu,
seguimos um caminho,
tal como o sol e a lua,
que giram no universo.
Uma crença infinita
a triste humanidade ingênuamente
agita e anima.

Nosso destino é como as névoas.

Alhures,
existe a felicidade,
e todos correm para alcançá-la,
porém ninguém a encontra.


Mihail Eminesco
In Antologia da Poesia Romena
Tela by Francis Swaine

ENTARDECER NA COLINA



























À tarde, na colina, triste soa a trompa
sobem os rebanhos, caminho é luz de estrelas,
as águas murmuram jorrando das fontes;
sob uma acácia, querida, tu me esperas.

A lua navega o céu, límpida e santa,
teus olhos contemplam a rara folhagem,
nascem no azul sereno as estrelas úmidas,
são frutos das saudades, teus pensamentos.

Correm as nuvens e seus raios, pelo espaço,
à luz da lua se elevam as velhas casas,
no poço o gastelho range, à ventania,
no vale a névoa; no aprisco as flautas cantam.

Homens fatigados levam a foice aos ombros,
voltam do campo; forte ressoa a "toaca" (1),
o canto do velho sino inunda a tarde,
minh'alma arde em amor, como se em chamas.

Oh! breve a aldeia no vale silencia;
Oh! breve, os meus passos levam-me a teu lado.
Junto da acácia, passaremos a noite,
e eu te direi todo o tempo, quanto te amo.

Nossas cabeças unidas, uma à outra,
sorrindo adormeceremos sob a altiva
velha acácia: - Por tão venturosa noite
quem, toda vida, não entregaria?


(1) toaca é uma espécie de instrumento de percussão, de metal
ou de madeira,usado nas igrejas, no qual se toca com martelo,
para chamar à prece.

Mihail Eminesco
In Antologia da Poesia Romena
Tela by Sir Thomas Lawrence

13/07/2010

QUE ALMA TRISTE



























Que alma triste me legaram
Os pais dos pais dos meus pais,
E como souberam,nela
Imprimir seus muitos ais?

Alma triste e sem razão
De ser, mas que argila inerte
Ela é, pois no amargor
Ainda vibra e subverte?

Como não sente a  desgraça
De carregar tantos ais
Ó vagas dos santos mares,
Vou convosco, me levais!

Mihail Eminesco
In Antologia da Poesia Romena
tela by Dante Gabriel Rossetti

SONOLENTOS PASSARINHOS




























Sonolentos passarinhos
aconchegam-se nos ninhos,
se escondem por entre os ramos.
Boa noite!

Só os córregos murmuram,
negro bosque atravessando;
no jardim, as flores dormem.
Dorme em paz!

Desce o cisne pelas águas,
vai dormir em meio aos juncos;
que os anjos velem por ti
Suave sono!

Sobre a noite deslumbrante,
altiva desponta a lua;
tudo é sonho e harmonia.
Boa noite!

Mihail Eminesco
In Antologia da Poesia Romena
tela  by Franz Dvorak