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13/01/2011

É PERIGOSO DEBRUÇAR-SE


















É perigoso debruçar-se
na janela dos fantasmas !
Podes encontrar o lobisomem
ou Erzsébet a sangrenta
podes também encontrar-me
e o meu sumptuoso cortejo de carícias
ou posso eu encontrar-te
(serás então de âmbar e nevoeiro).
Qual de nós
saberá então
reconhecer os fantasmas?
 
Isabel Meyrelles
Blogger Sons da Escrita
foto de lakewentworth

NÃO, MEU AMIGO


















Não meu amigo, a realidade
partiu a corda,
e de forma alguma agradece
ser a nossa espada quotidiana
o bife mal passado
sobre a bomba aux champignons.
Fatigada fatigada
tão fatigada de nós todos!
Mesmo tu meu amor,
a roda do universo,
tu que eu fiz de plumas e silêncio,
tu minha noite cintilante,
a realidade fatigou-se de ti.
 
Isabel Meyrelles
Blogger Sons da Escrita
foto de lakewentworth

13/12/2009


Foto de PP - Hoai Ph... no Flickr

Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
sonhar os meandros
mais secretos
do teu corpo
floresta e armadilha,
fonte e bramido

Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
entrelaçadas, adormecidas,
recriando o peito,
as espáduas, o ventre,
as coxas, o sexo,
amazônia interior

Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
por vezes um único dedo
desenha no ar
os olhos, a boca,o cabelo,
estrela negra
que só eu conheço

Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
sonhar esta travessia do espelho
de reflexos infindos
que é a minha recordação de ti.
Aliás, que outra coisa
podem elas fazer?

Isabel Meyrelles
In Palavras Noturnas e Outros Poemas

27/01/2009


Foto de Bahman Farzad

Todos os dias vivemos
os nossos pequenos apocalipses
como se nada fosse,
carregamos
a indiferença como um lenço de seda
à volta do pescoço,
a morte faz-nos sinal
em cada folha primaveril
da árvore-noite,
aquela que nos chama
com uivos de lobo
quando a olhamos,
barricados atrás das nossas janelas
de presos à residência
sobre este planeta que corre
na negra água cósmica.

Isabel Meyrelles
In Palavras Noturnas & outros Poemas

27/09/2008


Foto de guy with a cam

Dias há,
em que o teu sorriso
é uma ilha perdida dentro de mim
e o teu nome
o vento que muda as estrelas
para o dorso das andorinhas.
Dias há,
em que procuro os teus olhos
e silenciosamente te digo"meu amor",
como se eles fossem peixes
e as palavras animais estranhos
capazes de turvar a paz
das grandes profundidades.

Isabel Meyrelles
In Palavras Noturnas & Outros Poemas

17/09/2008


Foto de Jose Ferreira Jr

Chega ao fim do dia
a hora mais lenta, quando o céu
é vago e as luzes se acendem
no prédio da frente.

Vemo-los por vezes
dentro das janelas, vultos
delicados como miniaturas
ou meros reflexos que passam
nos vidros.

Alguns prosseguem encargos
de sombra, outros detêm-se
a olhar a rua, no gesto
a expressão do seu puro
enigma.

E são como provas
de coisa nenhuma. Se acaso
nos fitam, parecem dizer:
a morte não será decerto
mais estranha que a vida.

Isabel Meyrelles