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31/05/2011

NO CENTRO DA APARÊNCIA























Repousa ao espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos.As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.

Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro.Quando será o início?

Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar
tela Tamara de Lempicka

20/10/2010
























Creio em teu silêncio, na tua pele de luz,
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.

O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.

De obstáculo em obstáculo, procuro o teu talento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.

Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar
tela de Ralph Steele

AS PALAVRAS



















Há palavras que são sombras de árvores
ou um bálsamo da terra,
um pressentimento de espuma,
um incêndio do tacto,
uma reverência ao deconhecido.
Amo as palavras que são às vezes sonâmbulos cavalos,
satélites de granito,
raparigas cegas no fundo das casas,
veias de uma estrela submarina.
Como não amá-las pela brisa
se são pétalas de um clamor silencioso
ou anjos sossegados dormindo sobre a terra
ou lúcidas e ébrias, majestosas e puras,
magníficas como um dorso recamado de estrelas,
intacta revelação de invioladas luas?
Desconfio das palavras, mas às vezes são leves, musi-
cais,
aves que planam sobre uma cidade branca,
ilhas mágicas, selados vasos, cordeiros recém-nascidos,
caravanas vermelhas, armadilhas de cristal,
amoroso tremor da matéria terrestre.
Como um boi nocturno das águas eu procuro
essas guitarras plantadas nas plantas
que através de eclipses e de distância
erguem uma árvore de música ou uma pirâmede
ou as lianas vivas que me defendem dos abismos.
Como estátuas de ar as palavras levantam-se
na harmonia delirante do nómada do deserto.
Quer sejam suspiros entre arbustos ou sonâmbulas
melodias
estão sempre à altura dos seus próprios desejos.
Quer o cérebro sangre ou a terra estremeça
o seu cerimonial é inesgotável, as suas relíquias vivas.
São abelhas ou astros que buscam alimento
nos ninhos de amêndoa ou nos espelhos da lua?
Amo as palavras, acredito nos seus cristais secretos,
nos seus cavalos subterrâneos, nos seus densos dia-
mantes.
Escrevo-as com minucioso ardor entre nascentes e som-
bras,
sei que são anjos de argila, antiquíssimos arqueiros
que disparam as flechas de erva sobre estrelas vivas.

António Ramos Rosa
In Antologia Poética
tela de L. Lombardo

NO SILÊNCIO DA TERRA



















No silêncio da terra.Onde ser e estar.
A sombra se inclina.
Habito
dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber , respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha  sobre folha abrindo-se ,
respirando-me, flectindo-me
no intervalo aberto.
Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um  sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumido em ar.

Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido, unido,silencioso umbigo
do ar.

o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar
tela de Adriano Galasso

30/01/2010

AMPLITUDE


















Num sossego azul, a azul eternidade.
O ouro e o sal do corpo. A ferida de água
que o vento vai lavrando.Uma ave branca.
Rumor de ser e de não ser. Ilha ou onda
que adormece e respira num rutilante sono.
Um silêncio de espuma sobre sonoras ondas.
Estou no centro de mim? Ébrio de sal,
sinto a adolescência do mundo, a infinita delicadeza
de mil estrelas ou mil palavras por abrir.
Ventos descalços desenham diademas sobre a areia.
Tudo o que vive quer viver comigo nesta pausa.
Molho os meus cabelos, os meus lábios, os meus olhos
entre peixes de luz em águas nupciais.
Onde a infinita mudez era, está a flor aberta
da amplitude.Água água luz
e mar sem nome mar com nome,
consciência que arde na serena densidade
e anelante e tranquila é a rosa azul do espaço.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar
foto Foto de Diyana AR no Flickr

29/01/2010


The Greatest Race by Montague Dawson

DE CADA VEZ QUE ESCREVO OU FALO
afasto-me do que digo
distancio-me das coisas do mundo
e do meu corpo
me escrevo
para a evidência irredutível
do mundo
o real é o absoluto
fora de mim e em mim
inalienável
inviolável
intraduzível
por toda a parte para onde vou
ou onde estou
desde que o sinto ou o pressinto
num vislumbre
é então que começa o começo
num incessante pulso

Que notícia posso eu dar
do que se passa comigo
no mundo?

Ninguém o sabe ao certo
mas o poema atravessa a noite da ignorância
sem esclarecer
como se iniciasse
obscuramente
irrecusavelmente
o que no mundo sem o antecipar
é o que não era ainda
no mundo
a impossibilidade genética
do poema.

Se escrevesse que a mão aberta
era uma estrela de cinco dedos
seria uma imagem ainda aleatória
mas determinada pela convergência de um sentido
em que a liberdade livre da poesia
quase se reduzia
a um semantema
como se num barco à vela
o leme dirigisse a vela
como um leme
numa direção unívoca
e a vela não se enchesse com o vento
como uma rosa redonda
no fluir do barco
na ondulação da maré
numa vivacidade elemental
liberto da estrutura rígida de um sentido
imposto como um sinal
de trânsito.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar

A Paris Kiss by Migdalia Arellano

Sei de beijos mais nocturnos do que a terra
Animais submersos entre violentas árvores
vem no cimo das bocas convulsivos oleosos
Sei da grandeza fulgurante ondulada e elétrica
das bocas ávidas e do sangue que vem do fundo
como um incêndio que floresce em lábios espumosos
Sei de uma estranha suavidade e de um pensativo ardor
que modula o beijo numa demora fascinada
Quem poderia dizer a glória fluida e ardentíssima
destes líquidos músculos que desembocam em estuários de espuma?
Sei de beijos como abelhas do sol e como uma agonia
de uma longa glória Conheço as matérias salgadas
e agridoces a argila a seiva do vinho
e o grés das axilas a lua negra do púbis
Conheço o sabor negro e espesso do intacto
que imediato se entrega na violência silenciosa.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar

21/12/2009


1894 by Emile Munier

NÃO POSSO ADIAR O AMOR PARA OUTRO SÉCULO
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem meu amor
nem meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa
In Viagem Através Duma Nebulosa1960

01/08/2009

NÓS SOMOS







Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra.

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar
Foto de orxeira

11/06/2009


Claude Oscar Monet » Haystack at Giverny

Creio em teu silêncio, na tua pele de luz,
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.

O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.

De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.

Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.

Antonio Ramos Rosa
In Ciclo do Cavalo,1975

by Pierre-Auguste Renoir » Garden Scene in Brittany

O JARDIM

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus,pétalas,folhas,dedos,línguas,sementes.
Sequencia de convergências e divergências,
ordem e dispersões ,transparência de estruturas,
pausas de areia e de água,fábulas minúsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes,direções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas,pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto,sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.

Antonio Ramos Rosa
In Volante Verde,1986

02/04/2009

O QUE É O AMOR?





















Será apenas uma estrela de areia
oferenda mínima ínfima casual
mas será a ingênua tipografia de um acaso
um nada que cintila uma insignificância que inaugura
Apenas lhe podemos oferecer uma gota de chuva uma gota de sangue
para que o seu fulgor seja menos que um nome
ou a frágil minúcia de uma leve atenção
que não conserva nem dilui nem explica nem conduz
E assim amaremos a pureza do ser insignificante
absoluto no mínino inteiramente novo.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar
tela Tamara de Lempicka

23/12/2008

O MAR




















Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!


António Ramos Rosa
In Facilidade do Ar
Foto de Mónica F

30/09/2008


Foto de Jose Ferreira Jr.

NASCIMENTO ÚLTIMO

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa
No Calcanhar do Vento - 1987

16/09/2008


Magestic Beauty by Oleg Zhivetin

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na coincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

Antonio Ramos Rosa
in O Teu Rosto

White Roses by Richard Osbourne

AMO O TEU TÚMIDO CONDOR DE ASTRO

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.

António Ramos Rosa
In O Teu Rosto