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05/10/2021

CRÍTICA DA RAZÃO IMPURA



Impura razão a que sustenta os medos
e os torna enleantes e perversos
a invadirem o redil do sono
com as suas sobras bicéfalas
 
impura razão a que se usa o verso regular
para fingir-se operosa e criadora,
a que usa uma cortina negra
para dissimular-se e tomar-se de enganos

impura razão a que se perfuma
de crisântemo ou de jasmim
e se eterniza num livro ou numa lua
e mata de assombro os caminhantes.

José Jorge Letria
de Percurso e Método
arte Irina Kotova 

19/12/2013

CIÊNCIA DO TRAÇO




O riso de ontem não é o riso de hoje, um esgar
os separa, um tormento, um vazio, uma cicatriz de sal,
a pálpebra caída da duradoura, persistente insónia.
 
O riso de ontem era um festim sereno,
um cais iluminado, uma varanda virada ao sul
celebrando a mágica tranquilidade das tardes.
 
E eu dizia: filho, o desenho é perfeito
quando é capaz de decorar o sonho, de contornar
a sombra até ser luz; mas eu não sei desenhar.
A tremura da mão fere o fulgor do traço e eu
não quero desenhar. Pega tu nas tintas, 
nos lápis, nos pincéis e serve-te deles
até não poderes mais, até não saberes mais,
mas saberás sempre que o desenho, a página, o acrílico
têm uma sapiência mansa e horizontal
uma loucura cavalgando o fragor das ondas.
 
Eu já nem sei brincar. Leio livros de memórias
e debruço-me no parapeito das décadas
a ver a vida dos outros perfilar-se, a esgotar-se,
a tornar-se pólen, cinza, desespero.
 
Que nunca falte, filho, a ciência do traço
como hoje a mim me falta a substância do vocabulário,
a arte combinatória que o faz pujante e arrebatador.
 
Confino-me ao quarto das noites
e à parca quietude que nele ainda encontro.
Hei-de rever-me, eu sei, nos teus desenhos
assim como quem tira retratos antes da partida,
o azul em fundo no preto e branco
de um aceno ou de uma lágrima. Um mês sufocante
rouba-me o ar e deixa-me estonteado dentro de um ca-  
                                                                            [derno.
 
José Jorge Letria
In Percurso do Método
 tela Carla Moresca

15/12/2013

CRÍTICA DA RAZÃO IMPURA




Impura razão a que sustenta os medos
e os torna enleantes e perversos
a invadirem o redil do sono
com as suas sombras bicéfalas
 
impura razão a que usa o verso regular
para fingir-se operosa e criadora,
a que usa uma cortina negra
para dissimular-se e tomar-se de enganos
 
impura razão a que se perfuma
de crisântemo ou de jasmim
e se eterniza num livro ou numa lua
e mata de assombro os caminhantes.
 
José Jorge Letria
In Percurso do Método
tela Christian Schloe

06/08/2013

CORREM VELOZES OS VENTOS




Correm velozes os ventos
atrás da sombra dos homens, dos rebanhos
que atravessam os campos devassados
numa ordem silenciosa e peregrina
em busca de outras pastagens, outras paragens.
 
Ontem foi a tempestade. Amanhã será
a boda dos amantes. Um dia, em repente
de tragédia será a maré grave dos temores,
a prostração da febre que vem dos pântanos
e alucina os camponeses fazendo o que
nenhum vinho ou mágoa foi capaz de fazer.
 
A morte ronda a cama da velhice
derramando os odores de cera
das velas queimadas em imensas vigílias.
 
Voltam os ventos com o pólen, com o rumor
das bocas que pronunciaram só metade
dos segredos que o outono diz à terra.  
 
José Jorge Letria
In Percurso do Método
tela Dan Schultz  
 

UM BARCO NAS NUVENS



Vogavam os veleiros no mar de agosto
e os postais traziam notícias da serenidade,
do corpo distanciando-se da crise, do espírito
aquietando-se nos patamares do sossego das noites
e a brisa era um sopro, vago sopro
com aromas de parte nenhuma,
com saudades de toda a parte.
 
Nas gavetas da casa os bilhetes de comboio
das viagens esquecidas, uma fotografia de Veneza,
outra com um homem magro vestido à civil
a defender a República na Rotunda , outra
de um passeio de bicicleta para as bandas do Guincho
no tempo da guerra. O outono virá
com vagar de visita velha, num anseio de paz
amarelecido nas folhas dos plátanos,
impaciente, numa cadência de sinfonia incompleta,
acabrunhado à mingua de sol, moléstia na seiva
dos troncos arqueados e uma melancolia
que já levou poetas o suicídio.
 
Assim será: aquele que chega,
camisa de ramagens aberta no peito
e um filho adormecido nos braços,
falará da inquietação até ser dia.
Um barco ancorado nas nuvens continua
a revelar que o sonho é matéria redentora.
 
José Jorge Letria
In Percurso do Método
tela Amanda Cass

28/04/2012

PARA ALÉM DOS AMANTES



Os amantes atravessam as dunas
e são sombras fortuitas, perfis de areia,
bocas de espuma na direcção do vento.
A tentação do abandono é que se torna
assim leves, precários como só
as ondas e as as aves podem ser.

Os amantes incorporam no que dizem
a sabedoria saliente da polpa dos dedos
descobrindo os sítios do encontro:
aqui o ventre, ali o púbis, além dos lábios.
Os amantes são o amparo das tardes ásperas,
quase exaustas de sol, de maresia entranhada
nas roupas, nos cabelos; quem queira saber o
sortilégio da lua e beijar as águas
terá deles uma única e definitiva resposta:
a luz, o infinito, a água.Para além dos amantes
um fingimento de felicidade a rondar
o círculo largo do voo das gaivotas.

José Jorge Letria
In Percurso do Método
tela Graeme stevenson  

03/02/2012

ESTAÇÕES



Aprendi os cheiros
Do alecrim e da hera
E ao azul do céu
Chamei Primavera.

Encontrei um fruto
Na concha da mão
E à sede da água
Dei um nome: Verão.

Descobri o sol com olhos de sono,
À tristeza das folhas dei o nome de Outono
Aprendi os modos do bico mais terno:
Um cão de peluche
Com o frio do Inverno.

Juntei as estações
Com pés de magia
E à soma das quatro
Chamei poesia.

José Jorge Letria
http://fellingsfellings.blogspot.com/
tela Ray Hendershot

02/10/2011

EIXO DE COISA NENHUMA



O essencial não está na pétala nem na pedra,
nem no néctar adocicado das corolas,
nem naquilo, Safo, a que cada um está preso
pelo coração. O essencial está no que liga
o olhar à água, à cratera aberta à boca
de uma língua de espuma ou de terra.
O essencial é a paz de uma casa atormentada
pela guerra das sombras e dos rumores.
O essencial é o branco desmaiado
de uma lua cheia de segredos,alucinada
pela rotação eterna em que se perde
o sonho e a viagem, a eternidade dos astros
em busca de um lugar em que se açoitem,
de um buraco negro em que o essencial seja
o eixo de coisa nenhuma que ampara o universo
e o abriga das tentações do infinito.

José Jorge Letria
In Percurso do Método
foto velaetxa 

19/07/2010

LIÇÃO DAS ONDAS

O  que viu a morte nas águas
aprendeu a lição das ondas:
todas as marés são breves
porque acompanham o desespero da lua
exaltando no branco da espuma
a tragédia de viver à sombra
de outra luz que não a sua.

José Jorge Letria
In Percurso do Método
Tela by Alexander Harrison

18/07/2010

QUEM DO AMOR SE APARTA


 
Quem do amor se aparta não tardará
a saborear o fruto inclemente da amargura.
Medirá as rugas e os passos
na solidão dos quartos e dos livros,
guardará as folhas das árvores
que crescem nas fábulas e nos sonhos.
Provará um gosto acre, um delírio vagaroso,
um desejo aflitivo de escapar
ao cativeiro da sombra em que se move.
Experimentará a secura da carne,
a magreza do corpo sobre as dunas,
a ansiedade tremenda de estar fora de si
onde quer que esteja, para onde quer que fuja.
A loucura, dirá, cinge com seus dedos
a garganta ferida pelo álcool.
Descerá ao inferno da noite minguada
pela avareza da luz sobre as veredas.

Quem do amor se aparta há-de perder-se
em todos os sentidos menos naquele
em que a campânula dos ventos se enche
com o eco do nome amado, impronunciável.

José Jorge Letria
In Percurso do Tempo 
Tela by Charles Edward Halle

06/04/2010

FELICIDADE ENTARDECIDA


Anjo branco da minha felicidade entardecida,
quem te deu asas que te dê agora
a paz plana e mansa da terra,
quem te deu fôlego de ave, que te dê agora
a respiração lenta e vegetal do musgo,
a sapiência agreste dos corais e dos limos.
Demorei-me tanto a esperar por ti
que já nem dou pela tua ausência,
pelo vazio de pétalas e rumores
que instalas em redor de mim.
Cobria-me os olhos uma renda desenhada
pelo engenho dos dedos,
tecida pela filigrana das agulhas
e o mundo que via através dela
tinha a palidez de uma doença mortal,
a beleza fragmentada de uma flor
sufocada pelo assédio das areias.
Tu prometias voltar se eu adormecesse cedo
e levavas contigo a felicidade num dardo de vento.

José Jorge Letria
In O Dom Intranqüilo
tela 1893 by Peder Severin Kroyer

27/06/2009

QUANDO EU FOR PEQUENO


Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria
In  O meu Tempo é Quando...
tela  Pierre Auguste Renoir

14/06/2009

ODE AO GATO


Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria
In Animália Odes aos Bichos
tela Bénélux Press

02/02/2009


by Diane Romanello

AS VIDAS QUE EU SONHEI

Fico soturno a olhar para o mar
e a pensar num rei a traduzir Shakespeare
numa varanda embriagada pelo azul.
Deixei de ter tempo para espiritualidades,
para o engodo das tremendas interrogações,
para a altivez das perguntas sem resposta.
Fiquei temporariamente domesticado
para uma outra escrita, por um discurso
que não consente divagação ou fuga.
Normalizei-me, e contudo gosto de ver
a mão hesitante e trémula
à beira da consumação do poema
quando a maré assalta a muralha e traz,
misturados com a espuma,
os destroços das vidas que eu sonhei,
das vidas que, se calhar, eu já vivi.

José Jorge Letria

Foto de Marshmallow Sheep

OS LIVROS

Apetece chamar-lhes irmãos,
tê-los ao colo,
afagá-los com as mãos,
abri-los de par em par,
ver o Pinóquio a rir
e o D. Quixote a sonhar,
e a Alice do outro lado
do espelho a inventar
um mundo de assombros
que dá gosto visitar.
Apetece chamar-lhes irmãos
e deixar brilhar os olhos
nas páginas das suas mãos


José Jorge Letria

10/01/2009

O TEMPO É OUTRO RIO



Quase sempre o tempo é outro rio,
uma música larga e possessiva, uma forma
de avidez lunar, de apetite cósmico
que não nos poupa nem nos ama.
Prefigura este rio todo o assombro
que o século e o instante
semeiam à passagem, não passando.

A ruga é o leito de outra água,
da que rasga e avassala, da que arqueia
o dorso do que escreve e do que espera.
Um relógio de quadrante guarda-se
para a contabilidade de outras horas
que não as do sono, que não as do pasmo.

Demora-se o rosto a ver-se envelhecer,
reverbero de lua mansa na areia
onde o corpo ancora e se faz casa.

O tempo é outro rio que passa largo,
ao largo da boca que o chama e se consome.

José Jorge Letria
In Percurso do Método.
Foto de Claudio Marcon

26/12/2008

A SOFREGUIDÃO DE UM INSTANTE



Tudo renegarei menos o afecto,
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.

José Jorge Letria
In Variantes do Oiro
Foto de NaturalLight

O AMOR TUDO MATA QUANDO MORRE



Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o,
com a morte do amor em mim.
Esvaiu-se, ensandeceu, partiu,
espécie de sol sepultado por mãos ímpias,
numa cratera de lua, algures,
ou na tristeza de um retrato emudecido
pela ausência de vozes em redor.
Sem ele, a casa ficou deserta
de risos, acenos e afectos, de tudo,
as mãos ficaram ásperas, secas,
a pele do rosto gretada, fria,
e o sangue tornou-se lento e espesso,
incapaz de dar vida às pequenas folhas
orvalhadas da imaginação das noites.
A erva cresce em redor de mim,
os limões ficaram ressequidos sobre
a toalha bordada, num canto da mesa.
O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia.

José Jorge Letria
In Quem com Ferro Ama
Foto de NaturalLight

O DESERTO INOMINÁVEL


O deserto é um silêncio depois do mar,
É o êxtase da luz sobre o coração da areia.
Vai-se e volta-se e nada se esquece.
Tudo se oculta para depois se dar a ver
No ponto em que os ventos se cruzam
E as almas gritam no fundo dos poços.
Os cestos sobem e descem prometendo água,
Uma frescura que derrete a febre.
Não são as tâmaras que adoçam a boca,
É a beleza das mulheres dissimulando
O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.
As serpentes assobiam ou cantam
Conforme o veneno que lhes molda o sangue.
Enroscam-se sobre as pedras
como fragmentos de lua à espera da manhã.
E a sombra alonga-se nas dunas
Ondulando rente às palmeiras
Como a última cobra do medo das crianças.
Não há ruído maior que este silêncio
Que se serve com tâmaras e com chá
Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.
É no que não se nomeia que está o infinito.

José Jorge Letria
In Os Mares Interiores
Foto de NaturalLight