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15/10/2013

SE NÃO PODES AMAR



Se não podes amar a pátria,
ama o exílio
porque algo se deve amar,
mesmo que finde o dia.
 
Porque algo há de durar
por entre alheia gente,
o chão prende-se ao pé
que ao chão se estende.
 
E o mais é igual:
o pó, a fome,
o sono, o medo.
 
Há que durar a fé.
 
Carlos Nejar
In Simón Vento Bolívar
tela Amanda Cass
 

COMPREENDES OS RIOS


Compreendes os rios
que te falam
ao ouvido, bruscamente,
porque algo quer
adormecer em ti e neles,
algo sobe à tona
entre peixes e palavras,
algo nos faz
da mesma natureza
de funduras
e de correntezas.
 
Compreendes os rios
porque compreendes
demasiado os homens,
mas antes compreendes
a ti mesmo no desamparo
humano, a dinastia lenta
de espumas, realezas.
E é puro desamparo 
de quem sofrendo, existe
ou a existir, protrai
a dor de haver o mundo.
 
Compreendes os ventos
desde garoto. Nascia
uma quase anuência,
um cochicho. Em livros
de aula vinha o vento
e entrava nas páginas
e ali se espreguiçava.
 
Mas dizias: -  "Ó vento,
toma cautela! Pode
desocultar-te  a noite
e por a nu teu corpo
entre as formigas letras."
 
Todavia, o conceito
de algum pensante vento
se estocava nas reses
de adjetivos e verbos.
 
E Bolívar sabia
que a palavra é universo.
Ou que os rios conduzia
junto ao vento do verso.
 
Carlos Nejar
In Simón Vento Bolívar
tela Joe Bergholm 

12/01/2012

OS DONS



Por entre os dons, não há no amor, o lume
que, de igualar, nos urde.Quem aclara
no inverno, o verão, o outono, a rara
primavera? Na soma se presume.

Por entre os dons, o deste o amor nos une.
Não há mais rugas, por romper o espelho?
Infante é o coração e, às vezes, velho.
Frouxos os olhos. O que a dor não pune,

não cabe a nós punir.Humanos, almos,
o avesso é um penedo recoberto
onde o navio naufraga. Transitórios,

afagamos o eterno - ledos, calmos.
O mundo não deságua sobre o verso,
se não me ajusto nele, quando choro.

Carlos Nejar
In Amar, a mais alta constelação
tela Pierre Auguste Renoir

HUMANO PESO



Os sonhos não os têm só que navega
ou tenta navegar no vento aceso,
mas quem por abismos fica ileso
como se flutuasse numa verga

e as âncoras baixassem na tristeza
ou tristes conduzíssemos o peso,
mais a desolução da carne, a intensa
gravidade das coisas, homem preso

ao mínimo das águas, desatento
aos astros, aos planetas e se alterna
mas é somente febre disparada.

O sonho, o frágil corpo, os elementos
navegam as mudanças subalternas
e os nadas de espuma, em puro nada.

Carlos Nejar
In Amar, a mais alta constelação

IMPRONUNCIADO



Calemo-nos. O amor
se alimenta  silêncio.
As nossas mãos, os corpos,
a alma e estes verdes,

que, pelo monte, manam
e do cristal o peso
que sustamos,nascendo.
E o que, planos,plantamos.

E o só calar é amor.
E nós nos depuramos
no ileso, no secreto,

no mais: aquele espesso,
onde não somos nós
mas somos o silêncio.

Carlos Nejar
In Sonetos

  

01/04/2010


foto by amoryluz

TALVEZ

Talvez o universo não exista.
Seja apenas a sombra fugitiva
da idéia de um universo; ou talvez
seja a perdida infância, o clarão
de alguma inteligência subitânea.
Sim, talvez não exista.Seja um medo
de haver mais testemunhos, relações
afetos exteriores ou temidos,
ou mero espectador de algum incêndio
havido e não sabido ou antecipado
para que reste cinza, cinza e vão.

Ou nada reste de um sistema,
uma harmonia cósmica, o pavor
de alguém nos assistir, estando ausente.
Não existe universo, nem o dia
ou a noite.Nós inventamos tudo,
inventamos a nós mesmos
e esquecemos a fórmula, o entrecho,
inventando o esquecimento.

Ou é invenção o pensamento,
uma argúcia engedrada pelos deuses
de se engedrarem juntos, nos pensando.
Ou o universo seja apenas quando
cessarmos de existir, desentocando
o mistério maior, aquele plasma
que rege a potestade, ou forma insone
de se viver, morrido, com o corpo
exilado num outro. O universo
se compõe, se dormimos.Ele existe.
Sobrevive tangível quando amamos
ou tontos despertamos. O universo
perturba, ferve nos corrói. E assoma.
Continuará depois que sepultarmos
essa comunicação, toda a vontade
e a matéria restrita ou desatenta.

E talvez o universo nos inventa.

Carlos Nejar
In Melhores Poemas

foto by kaycatt*

AQUI FICAM AS COISAS

I

Nossa sabedoria é a dos rios.
Não temos outra.
Persistir.Ir com os rios,
onda a onda.

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero.
Passaremos límpidos.

E nos moveremos,
rio dentro do rio,
corpo dentro do corpo,
como antigos veleiros

II

Aqui ficam as coisas.

Amar é a mais alta constelação.

Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.

As minhas mãos telhado
no teu rosto de pombas.

Os corpos
circulando
na varanda dos braços.

É a mais alta constelação.

Carlos Nejar
In Melhores Poemas

28/03/2010


foto by marcia.piva

A IDADE

Falou e disse um pássaro
dois sóis, uma pequena estrela.
Falou para que calássemos
e disse amor, penúria,brevidade.
E disse disse disse
a idade da eternidade.

Carlos Nejar
In Melhores Poemas

by CaptPiper

XIV

É preciso partir da manhã
para o escuro de Deus.
Das coisas
para as coisas.

Pisar na dor
para o equilíbrio
da terra e os frutos.

É preciso amar sempre
e de novo.
Que os pensamentos voam raso,
embaixo das estrelas.
Não há religião ou ambição
nas profundezas.

Quem ama
corre o risco.

Carlos Nejar
In Melhores Poemas

17/01/2010


À la plage by Bénélux Press

TRAJETO

Onde existir o humano,
irão meus ossos.
Insígnias não pretendo
por servir ou abdicar.
Vivo o que não desvendo
mas sou de muito amar.

Onde existir o humano,
irão meus vínculos.
Posso o que não compreendo
e por isso estou vivo.
Crescendo nos remendos
mas nunca absorvido.

Onde existir o humano
aí vão meus parentes
e todos os pertences.
Eu disposto a perdê-los
e a perder-me comigo.

Onde existir o humano,
irão meus ossos
e os últimos anos,
o que fui e prossigo.

Onde existir o humano,
irá meu reino vivo.

Carlos Nejar
In Casa dos Arreios

Close Encounter by Talantbek Chekirov

VÓRTICE

Pensei em moldar no desejo
as fórmulas, os temperos,
as brisas e as cancelas,
o fuso dos vincos.

Pensei que o desejo, saciado,
saciasse nos subúrbio da carne,
no sexo.
Todavia,
nada nos sacia.

É uma sede no âmbito da alma
e mesmo calma,
excede o caminho de meu corpo,
as suas montanhas,preceitos.

Bato na pedra ancestral,
na delegacia civil,
no Livro de Nostradamus,
no clavicórdio,
no ódio.

Mas esta ânsia não para
na amada,
na morte,
no juízo universal.

Continuará para qualquer instância,
sem a podermos segurar
ao palanque, nos braços,
aos lábios.

Continuará pelos séculos
sem remédio ou tédio.

Carlos Nejar
In Casa dos Arreios

14/01/2010


Landschaft mit sinkender Sonne by Paul Klee

SALVO-CONDUTO

Forcei os símbolos,
cansei os atributos.
A condição humana
não me dá salvo-conduto;
nem a dor dos limites
ou qualquer produto.

A condição humana
é uma fresta da janela.
Aceitá-la é vivê-la:
que se abram portas
ou o espaço das estrelas.

Viver é descobrir
a fronteira dos corpos.
Amar o que se toca
e tudo o que reclama
passagem
entre nós
e o que se ama.

A condição humana
é a alucinada chama,
o último reduto.

Carlos Nejar
In A Casa dos Arreios

22/03/2009


Girl At Ironing Board by Edgar Degas

PURIFICAÇÃO

Coarar as emoções,
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.

Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.

Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu,inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.

A alma! Que ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!

Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!

O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.

Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!

Carlos Nejar
In Melhores Poemas

14/02/2009


Foto de Tony Maciell

MONJOLO

Acreditei no amor, este monjolo
esta sequência pertinaz, isenta
que foi história e como na cinzenta
trituração. No amor não há consolo

a quem ama. Constringe o espesso joio
para cevar o evento que rebenta
do próprio acaso e deste amar de rojo.
O monjolo da infância mais sedenta

que a maleita maleva. Tenho sede.
O monjolo do corpo noutro, dentro;
monjolo da paixão e das calendas.

Monjolo, Deus. Monjolo, onde me esqueço.
Fração nenhuma apraz nesta moenda.
Fração alguma. Amor na morte aumenta.

Carlos Nejar
In Amar, A mais alta constelação

Foto de TELPortfolio

SINTAXE

Eu me acrescento aos rios e aos rios me descem.
E me acrescento aos peixes. Nele deito
e com os musgos preparo alguns projetos.
Nos liquens boto andaimes que florescem.

E me caso com as pedras , conchas e ecos,
onde as lesmas pernaltas se intumescem.
E me acrescento a todos os espécimes
que se aleitam na orla, entre os insetos.

Ovos de larvas, vespas renitentes
e os mais jovens orvalhos em resíduos
se acendem. Borboletas se acrescentam

à sentaxe de um sol intermitente.
E eu vento, vento algas e libidos.
E em rios me acrescento, onde não venta.

Carlos Nejar
In Amar, A mais alta constelação

13/02/2009


by Jupiter Images

ABANDONEI-ME AO VENTO

Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o seu despojo vão. Em toda a parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.

Carlos Nejar
In Amar, A mais alta constelação

by Zhaoming Wu

AMAR NA LUZ

Amar na luz ou à sombra de um cometa,
com o tempo fugível, fugitivo.
O barulho das ondas afugenta
o que restou de mim sob o rochedo.

Amar com as horas todas, aturdindo
os corpo nus, as almas, os sentidos.
E perceber que a amada está fluindo
até o som, e aos peixes perseguindo.

E é por isso que neles vou descendo
e não sei se é amor, que já me invade,
ou por ele que morro em toda a parte.

Ou terei de morrer, se já me fogem
as vagas de um viver, que à vida solvem,
apenas por estar com oo amor fluindo.

Carlos Nejar
In Amar,A mais alta constelação