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31/07/2014

A NEGAÇÃO E SUAS PAREDES ÚMIDAS



Há um remendo novo
nas presas da aranha.

Seus sensores
estranham insetos,

habitando almas.

Sucos digestivos
amargam a teia desfeita:
Aracne vence a deusa Atena,

mas o amor tece a morte.

Ficam as articulações feridas,
e da pele surgem cutículos
desprotegendo a visão:

oito olhos sangram.

Aracnídeos brincam de sonhar nos vãos da porta,

cegos para o enamoramento.

Rita de Cássia Alves
In Fios de Agora
arte Jacopo Robusti,called Tintoretto
Athena  and Arachne

27/07/2014

O BAILADO E SUAS RENDAS




Músicas
fiam passos
 
em corpos que bailam.
 
Sabem-se artesanais,
entrelaçando
 
mãos e pés.
 
Na seda dos sentidos,
dançarinos tecem
 
o movimento.
 
Rita de Cássia Alves
In Fios de Agora  
arte Lui Yi

ANTES DOS DIAS




Guardiã do que desejo,
apenas trago especiarias:
 
rendas, brocados, um bocado
de saudade cosida,
 
descozida
 
em fogo lento.
 
Assim, frente aos desassossegos,
a Lua oculta vênus.
 
Satélites namoram nas pequenas
pontas das estrelas acidentais.
 
Sinalizo os guardados,
mas nada de pertences
veste a saudade de mim.
 
Peles e contato
olham a seda escondida.
 
Pelo céu dos teus enquanto,
cinzam o amor e seus naufrágios.
 
Rita de Cássia Alves
In Fios de Agora


29/05/2012

SOMBRAS




Espera tamanha:
esta, de remover a montanha
que impede meu afeto de fluir...

Aguardo a outra metade
sentindo que pode florir muito tarde,
e que germinou e implodiu.

A noite transpira o hálito da saudade
e visualizo na sombra do passado,
aquela vontade de acreditar:
crer no amor correspondido,
antever tua chegada no pedido,
que, nunca perdido, espera...

Retempera o coração,
e emoção de sonhar este desconhecido,
que um dia virá e conquistará
estes espaços (meus braços),
porto seguro em que te abrigarás.

Rita de Cássia Alves
In Um Toque de Poesia - Grupo Poemarte
tela Mark Demsteader

MEU CIRCO INTERIOR




Não se recarrega só a bateria...
mas, a alma vazia,
impregnada pelo cot idiano de mil atos
nos assaltos da consciência.

No picadeiro, o palhaço ri e dá cambalhotas,
finge que nas palmas estão as trocas,
remenda a lona e vê que o circo é outro:
eis o personagem do sorriso que a alma não vê.

Com o impacto da melancolia
teces sonhos de mar, do contato da terra.
Impera no vazio,  a  certeza da recuperação:
pressente-se que a emoção virá...

Não se recarrega só a bateria,
mas, o ânimo interrompido (gota tardia),
no grito camuflado dado nas manhãs
em esperanças vãs, de entendimento.

É este o momento.
Pés descalços, espírito refeito,
serás menino na paisagem sem defeito,
pois lá tu chegarás: no país da VIDA.

Rita de Cássia Alves
In Um Toque de Poesia - Grupo Poemarte
tela Oleg Tchoubkov

06/05/2012

A FLOR DO INSTANTE

   
 
 
Tecer com fios de agora o recebido
é intensificar o afeto conquistado.

Agradecer pelo verde das manhãs,
pelo sol que descortina sonhos luminosos,
espanta o saudosismo:

vivemos no ontem
e o hoje se reveste de primaveras.

Acalentamos um desejo que não chega,
prevendo que a flor nasça
revestida de possibilidades.

Em que parte do caminho
esquecemos o botão?
Por onde quer que andemos,
as experiências se vestem de pétalas
porque o néctar do presente nos brinda com asas.

Para que possamos voar,
manter a alma com os pés no chão,
sentir que entre mares e vales desponta a esperança,
é preciso o toque da flor do instante.

Regar o aprendizado do momento nos impulsiona.
O que brota da terra-relacionamento
conduz o humano ao amor fértil.

Feliz quem não se poupa do espontâneo,
pois o instantâneo fotografa vontades.
Pular sem redes é descruzar braços: o carinho entreabre portas.

Na ponta dos pés, o desânimo tenta sentar-se à mesa.
Cadeiras ocupadas pela emoção preenchem o tédio.
Corpos de cristal exigem mãos habilidosas.
Agarre as oportunidades!

Rita de Cássia Alves
tela Marc Chagall

18/04/2012

O ESPÍRITO ANDA VAGAROSAMENTE



A paixão pelas flores, plantas e animais nos devolvem à delicadeza.
Instigam o homem com seu silêncio, frescor e companhia.
Aromas e lealdade transitam pela alma inconstante.
Remetem-nos para os confins do sempre.
Objetos justificam recordações.
Mantêm os que se afastam.
Olhares não correspondidos, lágrimas choradas sem aviso,
dias e noites oferecidos pelo amor e suas implosões,
arrastam o espírito.
O coração é lento quando se apaixona.
Queremos o amanhã atropelado.
O homem se encanta pelo imediato.
A longevidade é o agora para quem arrisca.
As tartarugas sabem da constância.
Escondem a ousadia do caminho.
Possuem a tristeza dos que estão sozinhos.
A sabedoria lhes confere a timidez exposta.
Guardam o tesouro da demora.
Esperam o afago enquanto a carcaça se expõe ao sol.
Sonham no mar o que desovam na terra.
Quelônios sobrevivem porque tardam.

Rita de Cássia Alves
tela Bill Inman...

02/08/2011

DESPEITO


Violetas brancas
coroavam
plantas rasteiras.

Do cetro,
musgavam
flores perdidas.

Vítimas indefesas,
esgoelavam
folhas de primavera.

Ornadas de relva,
cobriam
isabel-entre-sonhos,
no indelicado
fruto verde.

Na passarela
dos sentidos jasmineiros,
o desencanto
fez do preterido,
o preferido
entre as ramagens.

Até as raízes
disputam
a estação,
na pele do orvalho.

Rita de Cássia Alves
In Pele Submersa
foto por CatChanel

DESABRIGO


Há um pássaro

que não
possui pés.

Suas longas
asas sustentam

o sono

junto ao vento.

Incapacitado de pousar,

águas e paisagens

lhe vetam o descanso.

Homem e espírito:
voos rasantes.

Rita de Cássia Alves
In Pele Submersa

07/01/2011

GANGORRA HUMANA



















Girassóis
brincam com a réstia
de luz.

Volúvel
em seus ramos,
o amarelo bolina
o centro escuro
do olho.

Para cada volteio,
há galanteios da sombra.

As espécies vivas
enamoram-se
do que é sustentável.

Mas os fios dourados
do efêmero lhes devolvem
à terra e sangram esquecidas.

Enquanto gira o sol,
a alma é vítima
de seus desmatamentos.

Rita de Cássia Alves
In Pele Submersa
foto de peter fee fee jjc

REENTRÂNCIAS























Distâncias
obstruem afagos.

Da corrente e seus minérios,
a argila ata-se ao lodo,
mas o acúmulo lhes parte.

No liame de sonhos,
a areia é mera expectadora.
Ferem-lhe os pés
escorregadios de duna.

Uma a uma, as gotas
querem amar o rio,

e a margem seca.

Pequenas ternuras
ultraviolentam raios,

enquanto enferruja

a saudade.

Rita de Cássia Alves
In Pele Submersa
foto de a jakeof

RECORTES























O verde,

que recorta
a terra.

enraíza
atalhos.

Florescem
begônias
entre
a clorofila
humana.

No ritual
de passagem,

a chuva

desvia
a poça

dos pés
em botão.

Rita de Cássia Alves
In Pele Submersa
foto de  Henryr10

INVÓLUCRO NO BRANCO























Molham-se
as palavras

no pleno de vazios
da concha.

Quantas
 pérolas

passam despercebidas

em seu
sonho nacarado?

Rita de Cássia Alves
In Pele Submersa
imagem http://www.reklamyonetmeni.com/

16/12/2010

CISÃO DAS ASAS
























O fio
no poste:
arapuca
de passarinhos.

No voo
da infância.
a pipa
mergulha
e dança
na mão dos meninos.

Pandorgas
partidas.

Rita de Cássia Alves
In Pele Submersa
foto de Mike Hewson

BORDADOS DO RELÁMPAGO NO CÉU




















É tão breve tudo, a estrela risca o céu de escuro
 a escuro e findou-se a vida
Adélia Prado

A correnteza
traga os raios
que as nuvem atritaram:
vozes aquáticas.

Finda a claridade,
o escuro toma posse
das cercanias do céu.
No pasto das estrelas,
enamorados a acasalam
a metade dos astros.

Os corpos
são cheios
na lua minguante,
desejosos
do quarto que cresce.

Bebem
o hiato da seiva:

línguas
bordam o amor
no véu da boca.

Rita de Cássia Alves
In Pele Submersa
foto de Philip Schexnayder 

12/09/2010

CIRANDA DA FÉ























Esperar poder um dia,
brincar de roda com os sentimentos.
Aventurar as horas de nossa vida perdida,
sem datar encontros
nem medir palavras.

Fazer parte da ciranda de fé
que desnuda o superficial
e aceita o imediato.
Cantarolar melodias de paz
que invadem o medo
e o substituam por merecimento.

Chorar pela vinda da ansiedade
e sorrir pelo tempo que recupera,
exigindo renovação.
Amar o pouco que eterniza,
a saudade que constrói pontes,
o desejo que impulsiona o toque.

Desfazer elos com o passado.
Reformar o presente com as exigências.

São objetivos
que a alma vai traçando,
como quem planeja
a todo momento,
as circunstâncias para ser feliz.

Rita de Cássia Alves
In Espaços do Coração
tela de E. Sardano

ATITUDES



















Pise em seus anseios,
mas não sente no impossível.

Quebre o vidro do inconformismo,
mas não espalhe os cacos
pelo chão de estrelas.

Amasse o fermento vivo
de seu pensamento,
mas não tempere a realidade
com fantasia.

Engula o preparado
que lhe serve
na mesa da fatalidade,
mas não ignore
os farelos da motivação.

Adoce o refresco do desejo,
mas queira tomá-lo açucarado:
pode restar o azedo da decepção.

Rita de Cássia Alves
In Espaços do Coração
tela de  Catherine Beyler

A GRANDE ESPERA























Caminhei sozinha
mesmo estando ao teu lado.
Amarguei minhas palavras
com teu silêncio encoberto.
Amei nossos momentos
como quem assiste um monólogo,
num palco vazio.

Quis recordar depois dos gestos,
a sinceridade do que chamávamos
sentimento,
e me desdobrei inutilmente.

Consolei teus dias
com meu coração descrente.
Salguei tuas doces mentiras
com sabor da antecipação.
Guardei de mim
o que muito sentia,
e fiz da minha luz,
a escuridão da aceitação.

Qual dos erros foi maior:
ter ferido a fantasia
ou ter esperado demais?

Rita de Cássia Alves
In Espaços do Coração
tela de E. Lopez

LUZES ESCONDIDAS























Tua aparência pode refletir
as carências,
obrigações
e certezas
que queiras aparentar.
Só não esconderá
a imagem que tens,
do que verdadeiramente és.

Teu mundo pode carecer de cores,
se não buscas as tintas
ou te esquivas,
de segurar os pincéis.
Só não enganará a forma diversa
de outros idealizadores,
que não cansam
quando doloridos ficam  em seus pés.

Tua paixão pode almejar impulso,
reciprocidade
ou retratar teu novo ser.
Só não apagará a luz que habita escondida,
trêmula
no íntimo de teus desejos
(desejos de recalques antigos).

Teu recomeçar pode ativar medos
que intimidem relações de troca,
e fazer troça,
com sentimentos que estão por nascer.
Só não matará o pulsar constante,
que te acompanha adiante,
na morada dos sonhos.

Rita de Cássia Alves
In Espaços do Coração
tela de  Catherine Beyler

04/09/2010

PÉTALAS DE MIM



















Ela demonstrou AMOR
como quem expõe um quadro.
Ele aceitou o SENTIMENTO
como quem mancha uma tela branca,
com o pincel negro da traição.

Muitas vezes
as mesmas mãos que oferecem carinhos,
são capazes de tatuar cicatrizes.

Sangrou em mim
uma ferida do passado,
que a saudade machucou.

Vivo serenamente
a minha condição de ser humana:
sujeita a riscos,
sem perder a fé.

O pássaro abre suas asas
e corta o infinito.
O homem fecha suas mãos
e recorta sua personalidade,
nas conviniências.

Mergulho batalha,
a inflação não falha,
não ter você me atrapalha
e espalha, meu coração...


Rita de Cássia Alves
In Espaços do Coração
tela by  Wendy Caro