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23/11/2008


by Peter Paul Rubens » Venus and Adonis

Tu Fénix, tu do amor doce traslado,
Companheiro em meus males peregrino,
Pois se em fogo te acaba o teu destino,
Em chamas me atormenta o meu cuidado

Tu te podes queixar de um triste fado,
Eu me queixarei de um deos mínimo,
Pois tu por desgraçado, e eu por fino
Acabas encendido, eu abrasado.

Mas oh, que as tuas ânsias são pequenas
À vista do martírio, em que discorro,
Porque renasces em morrendo apenas;

E servindo-te as penas de socorro.
Tu renasces do fogo em tendo penas,
Eu porque muito peno, em chamas morro..

Francisco de Vasconcelos Coutinho
In Fenix Renascida III

by Peter Paul Rubens » The Rape of Europe, after Titian

VIII

Fecham-se os Céus, os Anjos ensurdecem,
armam-se as nuvens, sopram-se as fornalhas
dos abismos, e em trémulas batalhas
gritam esferas, montes estremecem;

Os astros, que de sombras se guarnecem,
lutos dos orbes são, do horror mortalhas;
turvam-se os mares, armam-se as muralhas
dos Céus, sobem clamores, raios descem;

Grita o mar, brama o fogo, silva a fera,
chora Adão, geme o pranto, brada o rogo,
ensurdece-se Deus, o Império, a esfera;

Ó Adão infeliz! que desafogo
terás, se contra ti vês, que se altera
o abismo, a terra, o mar, o Céu e o fogo.

Francisco de Vasconcelos Coutinho
by Hecatombe Métrico, 1729

by Peter Paul Rubens

VENDO-SE ENTRE CONFUSÕES NASCIDAS DE SI MESMO


Vasto mar, triste Tróia, irado Noto,
Nasce o pranto, arde o amor, cresce o suspiro;
Pois Céus busco, astros sigo, a bens aspiro,
Etnas guardo, Euros rompo, Nilos broto.

Sem norte, sem discurso, e sem piloto,
Cego à luz, vivo ao raio, exposto ao tiro,
Luzes bebo, ares corto, escolhos giro,
Clície amanta, águia cega. e lenho roto.

Se Etnas verto, ares queimo, horrores toco,
Baste o ardor, pare o harpão, cesse o tormento,
Cego amor, doce agrado, incêndio louco,

Vê que na dita, na ânsia, e no lamento,
Leve o bem, viva a dor, o alívio pouco,
Morre flor, Fénix vive, acaba o vento.

Francisco de Vascencelos Coutinho
in Fénix Renascida, 1766)