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18/11/2014
06/05/2012
CANÇÃO DA PROFECIA
Quando a alvorada anunciar:
luminosidade nas entranhas da terra,
liberdade na criação dos sonhos,
eternidade na vivência do amor,
os riachos cantarão a canção dos anjos,
os pássaros afinados farão coro,
as crianças alegres dançarão.
Os homens em sintonia,
envoltos em fluidos coloridos
de uma energia maior,
elevarão seus pensamentos e,
num clima de fertilidade,
plantarão mudas de esperanças,
acenderão archotes
e vigiarão... em oração.
Vestidos de luz,
num abraço universal,
irradiarão amor
e uma grande paz envolverá o mundo.
Então será Natal!
Dúnia de Freitas
In Danada
02/06/2011
CAVERNA DE FLORES

Faço nascer tua boca.
Aquela que minha mão
desenha em tua face
na liberdade indormida da escolha.
Vejo surgir,
na boca que contorno,
teu sorriso.
Nossas cavernas guerreiam
com um perfume antigo
e grande silêncio
como se tivéssemos
a boca cheia de flores.
Campo naval
na evolução dos desejos.
Por alguns instantes
sentimo-nos exaurir:
morte instantânea.
Ressuscitas em mim:
visão de lua no rio.
Dúnia de Freitas
In A Beira de Mim na Madrugada Azul
foto ZCallas
29/05/2011
ECOS DE POTESTADES

Sou feita de barro e sonhos.
Sinto em mim o turbilhonar
de todas as forças do universo.
Vim de um lugar obscuro: o útero.
Percorrerei longas veredas
até meu retorno ao barro.
Dessa lama humana
jorram canções, amores ávidos,
impulsos rútilos, insanos propósitos.
Escamo-me para extirpar o azinhavre.
Chego às vísceras, empalideço o todo
até surgir o branco da essência.
Acomodo medos e angústias
no rubi incrustado: cerne
do meu corpo que devora enigmas.
Adereço da noite, o silêncio,
exacerba-se com o passar das horas:
igual ao dos pátios na madrugada.
Sussuros noturnos avolumam-se
sem peias no limbo da solidão:
suplicam clemência às potestades.
Pressinto a presença de Deus:
incitamento que faz irreversível
minha atitude diante da vida.
Frente a frente de mim
transcendência me arrebata:
jeito meu de romper o exílio.
Dúnia de Freitas
In À Beira de mim na madrugada azul
foto por Ricardo Carreon
REDE DE ARRASTÃO

Nas mãos,
o retrato da vida:
aspereza.
São hábeis
ao manusear a naveta
entrelaçamdo fios.
A cada laçada
seus sonhos reverdecem.
Nos losangos trançados
o vazio da vida
se imensa.
Só vento carrega
o pescador para o alto mar.
Cativo viaja.
Dúnia de Freitas
In À Beira de mim na Madrugada Azul
foto de Ricardo Carreon
11/08/2010
SOLIDÃO DAS HORAS
Na praia, águas cantam
chiados-sopros, bolhas,riso-fluxo.
Silêncio de areia se movendo.
Me vivi amando em tempos diáfanos,
sápidos frutos de gostos tão diversos,
aromas densos e maduros.
Solidão das horas se fazendo vento.
No céu não havia cardumes
nem solidão tangível,
mas tão-somente o azul
para as asas de quem soubesse tê-las.
Dúnia de freitas
In A beira de mim na madrugada azul
tela by Ruth Burke
ABISMOS NOS INTERSTÍCIOS DA ALMA
A anteface se mascara.
Vivo de esboços inacabados
de um Eterno que me habita
e desconheço.
Sou vacilante na idéia do não existir.
Inábil na do existir.
Equilibro-me:
entre mim e eu
entre mim e os homens
entre mim e o Incriado.
O silêncio invade
os interstícios de minha alma.
Abismo-me
aos algibes de minha essência.
Nesses pulsares
trago à tona uma escuridez.
Arremesso-me ao alto da colina
segura pelas mãos do vento.
Faísca de sol veste-me
de serenidade e certezas.
Preciso ficar só de mim:
à espera de minha candidez.
Dúnia de Freitas
In A beira de mim na madrugada azul
tela by Lord Frederick Leighton
28/11/2009

Raika...por Hana Lidia ...
CANÇÃO DO MEU OLHAR
Se meu olhar
te disser além, muito além
do que queres saber,
desvia.
Se meu olhar
me trair
e deixar transparecer
toda a ternura,
que tenho por ti,
disfarça.
Se meu olhar
tentar ainda assim
te conquistar e seduzir
e o brilho ardente
te incomodar,
dissimula.
Se meu olhar,
em teu olhar, encontrar
a mesma sintonia,
por favor, sorria.
Dúnia de Freitas
In Danada
27/11/2009

The Scream by Edward Munch
O GRITO
Toda a insatisfação
o homem demonstrou
no grito angustiado
que a situação gerou.
Chega de desumanidades,
de ironias, de chacotas.
Chega de tiranias,
de tensões e de revoltas.
Chega de capitalismo
onde a exploração
enriquece a minoria
e o resto...tem que pastar.
Dúnia de Freitas
In Rastos
20/11/2009

by Willem Haenraets
QUINTAL DAS MEMÓRIAS
Entre o bocejo e o sonho
penetro em meu quintal.
As árvores, testemunhas de minha infância,
sempre de pé, sem mudar de posição,
estão lá...vestidas de silêncio.
O flamboyant.O ipê. A sibipiruna.
O marmeleiro e suas varas flexíveis
cheio de ais arrancados pelo vento.
A jabuticabeira enfeitada de festa
com colares de ônix volteados no tronco.
A pitangueira mostra visão
de um candelabro de jóias vermelhas
ardendo em pleno dia.
Rosas circundam os beirais dos canteiros.
Entre tudo, jardins circulares
guardam amores-perfeitos.
Este era o lugar sagrado, o recanto do monólogo:
eu comigo, solidão acompanhada.
Chão lavado de chuva
recende no ar o cheiro da terra molhada.
O silêncio me interroga.
Espio as árvores vivas,
as raízes enlaçadas, os ramos estretecidos.
Minha memória aspira largamente o ar
carregado de cheiro de infância.
Dúnia de Freitas
07/09/2009

Foto de algo no Flickr
RIO DA SAUDADE
Pequenina, com medo de ti,
Espreitei teu curso
Leve, suave, às vezes ondeado.
Espreitei tuas encostas
Cheias de curvas.
Espreitei teu leito.
Algumas pedras brincavam contigo
Como a tentar impedir que fosses
Embora tão ligeiro.
Ouvi teu canto de felicidade.
Mergulhei em tuas águas.
Saboreei teu frescor.
Pouco entendia de ti.
Só te gostava.
Hoje, volto a te procurar
E não me acho.
Teu caminhar é pesado.
Tuas encostas exalam o odor do rejeitado
Tento lavar-te em minhas lágrimas,
Mas é tarde.
Estás morto.
Dúnia de Freitas
In Abracadabra
22/08/2009

by Gustav Klimt
MULHER-MULHER
A força mulher
Explode no espaço.
Rompendo as amarras,
Nasce para a identidade
De si mesma.
Um novo caminhar:
Tarefas são divididas,
Encargos são distribuídos,
Postos são ocupados.
Emparelhada ao homem-sujeito,
Destrói a mulher-objeto,
Para fazer surgir
Plena e majestosa
A MULHER-MULHER!
Dúnia de Freitas
In Abracadabra
15/09/2008

Claude Monet
ARRASTÃO
Barco em alto mar.
Homens de olhares perspicazes
vasculham cardumes.
Lançam rede.
Pescadores varam a noite
com olhos de anzol.
Quando o sol espia o mar
eles já estão na praia.
Mãos cerradas, força incontida.
Pés maceram areias que pulsam
na fé do arrastão.
Rondam os corpos.
Arrastam-se almas.
Seu mundo agora
é povoado de criaturas dançantes
no esterto da morte.
Dúnia de Freitas
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