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21/06/2014

OS INSTANTES SUPERIORES DA ALMA




Os instantes Superiores da Alma
Acontecem-lhe - na solidão -
Quando o amigo - e a ocasião Terrena
Se retiram para muito longe -

Ou quando - Ela Própria - subiu
A um plano tão alto
Para Reconhecer menos
Do que a sua Omnipotência -

Essa Abolição Mortal
É rara - mas tão bela
Como Aparição - sujeita
A um Ar Absoluto -

Revelação da Eternidade
Aos seus favoritos - bem poucos -
A Gigantesca substância
Da Imortalidade


Emily Dickinson,
 in "Poemas e Cartas"
arte Aleni Josephine

09/03/2012



A manhã se dá a todos,
A noite, para alguns poucos;
A raros afortunados,
A luz da madrugada.

Emily Dickinson
In Poemas  Escolhidos
tela Carolyn Blish

"Manhã" significa "ordenha" para o granjeiro -
Alvorecer, para o Tenerife -
Picar verdura, para a criada -
Manhã significa tão-só perigo para o amante -
E apenas revelação para a bem-amada -

Os epicuristas têm, na manhã, o desejum -
As noivas, um apocalipse -
Os mundos, uma inundação -
Vidas frágeis, o alívio de seus ais -
A fé, a prova de Deus Pai.

Emily Dickinson
In Poemas Escolhidos 
telas Aleksey Timoshenko

28/09/2010

ALGO EXISTE



Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.

Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.

Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -

E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trémulo
E subtil, de mim se escape.

Emily Dickinson

12/11/2009



Ergueu-se o arco-íris, após longa tormenta -
Nesta manhã tardia,o sol;
Como indolentes elefantes, as nuvens
Andam dispersas pelo horizonte.

Alegres despertam, nos ninhos, os pássaros -
O vento, é certo,amainou;
Mas - ai! - quão desatentos os olhos
Em que o verão rebrilhou!

A calma indiferença da morte
Por nenhuma aurora se abala -
Sílabas do lento arcanjo
É que devem despertá-la.

Emily Dickinson
In Poemas Escolhidos

08/09/2009

O SOLITÁRIO APAIXONADO


Esta poeira silenciosa de cavalheiros e damas,
E meninos e meninas;
De gargalhada, talento e lástima,
E clausura e união.
Este lugar passivo era uma ensolarada mansão,
Onde flores e abelhas
Percorriam seu circuito oriental,
E morriam, como estes.
Emily Dickinson
(1830-1886)

01/09/2009


A alma escolhe sua companhia
E fecha a porta, depois.
Em sua augusta suficiência,
Cessam as intromissões.

Indiferente,vê as carruagens
Parando junto ao portão;
Indiferente, um rei de joelhos
Sobre suas alfombras.

Sei que, dentre uma vasta multidão,
Ela escolheu um ser apenas;
Depois, cerrou as aldravas de sua atenção,
Feito pedra.

Emily Dickinson
In Poemas Escolhidos
Tradução de Ivo Bender
Peder Severin Kroyer

17/06/2009


 
Uma palavra morre
Quando é dita -
Dir-se-ia -
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.
Emily Dickinson
tela  Camille Jacob Pissarro » The Siesta, Eragny

16/06/2009



Comeu e bebeu as palavras preciosas,
Seu espírito cresceu robusto;
Não soube que era pobre,
nem que seu alimento era poesia.
Dançou ao longo dos dias,
E este legado de asas
Era mas um livro.Que liberdade
Um espírito das palavras traz!

Emily Dickinson
tela by Vincent van Gogh » Roses

13/06/2009

OS INSTANTES SUPERIORES DA ALMA



Os instantes Superiores da Alma
Acontecem-lhe - na solidão -
Quando o amigo - e a ocasião Terrena
Se retiram para muito longe -

Ou quando - Ela Própria - subiu
A um plano tão alto
Para Reconhecer menos
Do que a sua Omnipotência -

Essa Abolição Mortal
É rara - mas tão bela
Como Aparição - sujeita
A um Ar Absoluto -

Revelação da Eternidade
Aos seus favoritos - bem poucos -
A Gigantesca substância
Da Imortalidade

Emily Dickinson
In Poemas e Cartas
Tradução de Nuno Júdice
tela Pandora, by Dante Gabriel Rossetti

01/10/2008



Invejo os mares, onde ele navega -
Invejo as rodas e os aros
Das carruagens, que o levam -
Invejo as colinas encurvadas

De sua jornada, testemunhas -
Todas as coisas podem mirar
O que me é proibido
Como o céu,que me é fechado!

Invejo os ninhos das corruíras,
Que pontuam seus distantes beirais -
Em sua vidraça, a opulenta mosca -
As tão felizes ramagens,

Que frente à sua janela
Têm permissão do estio para brincar -
O que nem os brincos de Pizarro
Poderiam me proporcionar.

Emily Dickinson
In Poemas Escolhidos
Foto de envisionpublicidad

18/09/2008


É mais fácil encontrar
Um amigo que é sombra para dias quentes,
Do que algum outro caloroso,
Para as horas frias da mente.

Voltado um tanto para o leste, o catavento
Põe em fuga as almas de musselina;
E se mais firmes são os corações de seda
Do que os feitos de organdi,

A quem culpar? Ao tecelão?
Ó os enganadores fios!

Emily Dickinson
In Poemas Escolhidos
Tradução de Ivo Bender
tela Peder Severin Kroyer

27/08/2008



À noite como deve sentir-se solitário o vento
Quando todos apagam a luz
E quem possui um abrigo
Fecha a janela e vai dormir.

Ao meio-dia, como deve sentir-se imponente o vento
Ao pisar em incorpórea música,
Corrigindo erros do firmamento
E limpando a cena.

Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao deter-se em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.

Emily Dickinson
In Poemas Escolhidos
by Starry Night over the Rhone, c.1888
Artist: Vincent van Gogh