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26/01/2010


Cast Away Island by Rick Novak

OUVINDO O MAR

A coma dos coqueiros se balança!
O mar se estorce num suspiro infindo,
A onda cresce, soluça, para e cansa,
Na apoteose desse drama lindo!

A brisa passa preguiçosa e mansa,´
Pelo palco da praia se exibindo,
Exalando perfumes de bonança
E queixumes de amores sacudindo...

O marulhar das águas silencia.
Passa o rumor da brisa fugidia,
Deixando em tudo a dor de recordar...

Mas, quando desce a paz das horas francas,
A gaivota sacode as asas brancas
Na moldura vastíssima do mar!

Jansen Filho
In Poesias Escolhidas

21/01/2010


foto by Willem Haenraets

SONHOS DESFEITOS

Sonhos, palpitações,ânsias,desejos,
Tudo tivemos nos primeiros dias...
Hoje nem mais a sombra dos teus beijos
No silêncio mortal das noites frias!...

No funeral das nossas alegrias
Emudeceram todos os harpejos
E rolaram,nas águas correntias,
Promessas,juras,emoções,festejos...

Nunca mais te encontrei...Nossos caminhos
Cobriram-se de relvas e de espinhos
E nossa alma tombou desfalecida...

Há no amor estes vórtices medonhos!...
Tu que foste a alvorada dos meus sonhos
És hoje o pôr-do-sol de minha vida.

Jansem Filho
In Poesias Escolhidas

02/12/2009


by Richard S. Johnson/Lunaroza Galeria



É melhor silenciar...Esquecer o passado,
Esperar o porvir e viver o presente,
Foi sempre este o dever de um coração magoado
Que não sabe o que quer e não diz o que sente!

Pela seara sem fim das carícias ditosas,
Nosso idílio foi bom como as águas que correm...
Cresceu! Viçou! Floriu e viveu entre rosas
Para morrer depois como os pássaros morrem.

Sob a abóbada azul do sonho que eu sonhava,
Foste a luz da manhã dos meus límpidos dias!...
Afastaste de mim o terror que eu guardava
Da indolência brutal das longas travessias!...

Palmilhaste comigo a estrada florescente,
Salpicada de arminho, aljofrada de beijos...
E comigo plantaste a radiosa semente
Que faz brotar o amor e florescer desejos!...

Vivemos muito tempo à sombra apetecida
Das flores do vergel do nosso amor profundo!
Eu - pensando no mundo, esquecido da vida!
Tu - pensando na vida, esquecida do mundo!...

Hoje o triste tufão das negras derrocadas
Nos tentou separar e o fez perversamente...
-Malditas sejam, pois, as ilusões passadas
Que me fazem lembrar de um ser que vive ausente!...

Na enseada desta vida eu de tudo me escuso,
Conduzindo no peito um coração sem dono...
Um nefando batel pobre, escabroso e rudo,
Que o tempo espátifou nas rochas do abandono!

É melhor olvidar!... A solidão discreta
Incutiu no meu todo a paciência de Job!
Quero agora cumprir o meu fado de poeta:
Viver só! Sempre só! Eternamente só!

Jansen Filho
In Poesias Escolhidas

22/08/2009


Foto de dorothy mae

CREPÚSCULO COM CHUVA

Lá fora a chuva cai! A natureza
Veste a sotaina branca da tristeza
E soluça ao morrer da tarde fria!

Sobem da terra as notas mais sentidas
E nas festivas torres das ermidas,
Os sinos vão cantando AVE MARIA!

Há na copa das árvores frondosas,
Uma festa de sombras majestosas
A desenhar o funeral do dia!

Numa alvorada de fraternidade,
DEUS parece dizer da imensidade:
SILÊNCIO! MORRE A TARDE! AVE MARIA!

O crepúsculo tomba e lá no poente
A tristeza se estampa de repente
E a noite rola gélida e macia...

A terra exala um cheiro de perdão
E a criatura, espreitando a imensidão,
Diz,com os olhos no céu: AVE MARIA!

A chuva impertinente continua
A banhar de cristal a alma da rua
Que é mais triste! Mais úmida! Mais fria!...

E sob um véu cinzento de segredo,
No teclado das folhas do arvoredo
Executa uma nota: AVE MARIA!

Há também na minha alma o mesmo inverno.
Sublime,puro,idolatrado e terno,
Numa imortal e triste sinfonia!

Na igreja do meu mundo inteiro
Escuto o bronze secular do amor
Dizendo ao coração: AVE MARIA!!

Jansen Filho
In Poesias Escolhidas

Foto de Carlos A. Ma...

ENTARDECER

O crepúsculo desce! A tarde finda...
Que drama ante os meus olhos se descerra!
O sol, cansado da batalha infinda,
As pálpebras de luz no acaso,cerra...

Silente a tarde a imensidade brinda!
Infinita saudade me soterra!...
Ante esta quadra misteriosa e linda,
Recordo-me dos céus de minha terra!

Olho o poente que aos poucos se avermelha!
Nesta contemplação a alma se ajoelha,
Deslumbrada ao calor das grandes ânsias

E sequiosa do sol de outra paragem
Integra-se à beleza da paisagem
E mergulha na bruma das distâncias!...

Jansen Filho
In Poesias Escolhidas