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24/05/2011

POEMA DA IDADE PERDIDA



















E pensar que já tive dezoito anos,
que já vivi de sonhos,
que já teci ilusões...
E pensar que já suspirei de amores,
que já sorri despreocupada e feliz
que vibrei com o primeiro beijo...
E pensar que os meus cabelos
já foram fartos e negros;
que no meu rosto havia reflexos de luz,
e no meu corpo, juventude e pujança...
E pensar que a minha boca
era fresca e sadia,
e a minha voz cristalina e pura...
E pensar que possí um coração
que se alvoroça à-toa
e batia descompassado só em avistar um vulto querido...
.....................................................................................

Ah, pensar em tudo isto,
e descobrir agora estes cabelos brancos,
estas rugas morando no meu rosto,
este cansaço me alquebrando o corpo,
esta voz que já nem reconheço mais,
e este coração cansado e sofrido!
Ah, pensar em tudo isto
e não poder voltar atrás!...

Anilda Leão
In Chão de Pedra
tela de Frederick Childe Hassam/Blossoms  c.1880

08/05/2011

POEMAS DAS HORAS MORTAS

















Esta noite eu conversei tristezas
e ouvi as horas mortas pisando de leve,
para não perturbar meu pranto.
Senti minh'alma desgarrar-se
e seguir outros rumos,
palmilhar caminhos estranhos,
em busca do meu sorriso
que se perdera no abismo da noite.
Esta noite eu conversei tristezas,
e teci saudades,
e magoei meus olhos,
lembrando coisas que já estavam mortas!

Anilda Leão
In Chão de Pedra
foto por  Muddasir Hussain

POEMA DA HORA EXATA


















Há de soar para nós, uma hora exata
uma hora feita de silêncios,
onde jamais serão permitidas
as interrogações e os porquês.
Há de cair, numa hora que há de vir,
sobre as nossas almas fatigadas,
esta paz interior, esta calmaria suave,
que não encontraremos nunca dentro do mundo.
Por entre as brumas do desconhecido,
nós abriremos os olhos extáticos,
como se saíssemos de um sonho
e entrássemos na realidade,
numa vida onde todos se entendam,
onde sejamos verdadeiramente irmãos.
Dentro do silêncio da Morte,
é que encontraremos a paz desejada,
numa hora para nós imprevisível,
quando as sombras da noite
cairem sobre as nossas figuras inúteis.

Anilda Leão
In Chão de Pedras
foto por  mikE~510

01/05/2011

PROMESSA























Eu farei do meu corpo
o arrimo suave para a tua canseira.
Eu darei um pouco da minha tranquilidade,
para amenizar as asperezas da tua vida.
Eu te embalarei nos meus braços
e reclinarei tua fronte cansada
de encontro ao meu peito.
As minhas mãos serão feitas de carícias
e repousarão de leve sobre tua cabeça.
Eu serei para ti, aquela que custou a chegar,
mas que surgiu no momento preciso,
em que procuravas uma sombra amiga,
para repousar o corpo cansado.
Dar-te-ei tudo quanto te foi negado na vida,
se me deres em troca o teu amor,
e as lições que aprendestes do mundo.

Anilda Leão
In Chão de Pedras
tela de Alma-Tadema / Promise of Spring

"RÊVE D'AMOUR"























Há pouco eu ouvi num piano qualquer
os acordes suaves do "Rêver d'amour".
Não sei que mãos os dedilharam:
se brancas, se pretas,
se pobres ou ricas.
Foram porém os tons suaves do "Rêve d'amour"
que ouvi assim num soluço, num lamento,
como se tivesse impregnado nas próprias teclas
toda a dor de uma alma apaixonada.
E o piano gemia,
e o piano chorava,
como se escapasse daqueles dedos desconhecidos,
esparramados num piano qualquer,
a alma suave de Listz.
Sim, eu ouvi há pouco o "Rêve d'amour"
muito suave, muito triste, muito vago,
assim como todo sonho de amor...

Anilda Leão
In Chão de Pedras
tela de Adolphe William Bouguereau


DEIXA A NOITE DESCER
















Para Guedes de Miranda


Deixa, meu amigo, que a noite desça.
Se já houve tanto sol
nos dias já vividos,
se há esteiras de luz cobrindo o teu itinerário.
Deixa que a noite venha.
Haverá sempre um astro
para alumiar a tua vida,

haverá sempre um clarão,
para guiar o teu destino.
Sim, afrodite vai ressurgir do fundo dos mares,
e Apolo vai renovar suas flechas de ouro.
A noite pode descer,
mas as sombras não te envolverão
com seu manto sinistro.

Ainda não é tempo de dares adeus à vida,
nem é justo que acenes para a Morte,
assim, como se convidasse uma mulher
para compartilhar do teu leito.
A noite pode descer, amigo,
pois haverá sempre estrelas
para alumiar os teus caminhos...

Anilda Leão
In Chão de Pedras
tela de Sandro Botticelli

SÚPLICA
























Deixe que eu passe as minhas mãos
pelo teu rosto fatigado,
afugentando para longe
tuas longas noites de vigília.
Deixa que eu mergulhe os meus olhos
dentro dos teus olhos tristes,
para que fique dentro deles,
um pouco de luz, um pouco de alegria.
Deixa que eu acaricie os teus cabelos,
trazendo novamente para eles
o negrume das noites que se perderam.
Deixa que eu beije enternecida
as rugas prematuras do teu rosto,
para que esqueças o que sofreste na vida,
Deixa que eu te ame querido,
para que não sofras nunca mais!

Anilda Leão
In Chão de Pedra
tela de Marc Chagall

POEMA DA METAMORFOSE


















Eu já me transformei em sol,
e em raios de luz iluminei teu quarto.
Eu já me transformei em estátua,
e deslumbrei os teus olhos
com a suavidade das minhas formas.
Eu já me transformei em Amor
e de amor já enchi tua vida.
Hoje, com este silêncio,
com este ar de distância que há entre nós dois,
eu nem sei o que sou, nem o que fui.
Hoje,para reviver os instantes vividos,
eu me transformei em Sonho!

Anilda Leão
In Chão de Pedras
tela de Raymond Poulet

28/04/2011

PIEDADE























Eu tenho pena desses infelizes
que vivem de mãos vazias,
a esmolar carinhos.
Eu tenho pena desses desgraçados
que não sabem sentir a beleza das coisas.
Eu tenho pena desses corações estéreis de amor,
que não sentem, que não vibram, que não amam.
Eu que tenho as mãos repletas de carícias,
eu que tenho os olhos abertos para as belezas da vida,
eu que tenho no coração, mananciais de amor!...

Anilda Leão
In Chão de Pedras
foto por marc50

POEMA DA MINHA IDADE























Eu carrego dentro de mim,
o peso de uma idade morta,
de uma idade sem definições e sem porquês.
Na minha face extinta,
marcada pelo tempo,
eu trago impressos os instantes envelhecidos,
os momentos mortos,
das coisas belas que me deslumbraram na vida.
Eu trago no meu corpo já sem formas,
vestígios da minha adolescência perdida,
Quando eu era dona dos caminhos,
soberana do tempo e dos astros.
Nos meus olhos já sem brilho,
se reflete o cansaço das viagens longas,
de roteiros intermináveis
e sem pouso certo.
E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho,
vão marcando os dias, as horas, os minutos,
dos momentos que vivi no meu passado,
dentro da minha infância longínqua,
quando eu sabia conversar com as estrelas...

Anilda Leão
In Chão de Pedras
foto por marc50

26/04/2011

A PROCURA DA INFÂNCIA























Procuro ouvir na voz do vento
o eco perdido da minha infância.
E no riso franco das criancinhas
eu vislumbro o meu riso antigo.
Procuro nas ruas desertas e silenciosas,
o canto alegre das cirandas
e as minhas correrias do tempo recuado.
Dentro daquela avenida asfaltada,
onde rolam automóveis de luxo,
eu busco a minha ruazinha feia e pobre.
Procuro ver nas bonecas de hoje,
tão lindas, de tranças sedosas,
a bonequinha de trapo que eu embalei no meus braços.
Procuro encontrar no rosto das neocomungantes
traços de minha inocência
e a primeira emoção daquela que ficou no tempo.
Procuro descobrir, desesperada,
na face ingênua das crianças
a minha pureza perdida.
Procuro em vão, pois não encontrarei jamais
vestígios da minha infância feliz,
que os anos guardaram no seu abismo.

Anilda Leão
In Chão de Pedra
tela de  June Dudley

ORIGEM

















Quando a noite desce sobre a terra,
as sombras do mundo inteiro se procuram,
e se encontram e se amam.
Mais tarde, ventres pejados
despejam luzes sobre o corpo do céu.
(Luzes que foram geradas num instante de amor)
........................................................................
........................................................................
E assim nascem as estrelas.

Anilda Leão
In Chão de Pedras
foto por Don Briggs