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05/08/2012

EM SILÊNCIO CONVERSEMOS



Que fazer deste ser
sem prumo
despencado do extremo de um dia e
que o sono não recolheu?

Não não indaguemos
Para que indagar matéria de silêncio
Procurar a nenhuma razão que nos explique
e suavemente nos envolva
em suas turvas paredes protetoras

Nada de perguntas
A campânula rompeu-se
O instante nos ofusca

A quem sobra olhos resta ver
um ser nu a vida pouca
Só dentes e sapatos
de volta para casa

Nem um passo à frente
ou atrás
De pés firmes
o corpo oscilante
neste suave embalo da mágoa
descansemos

Francisco Alvim
In  Sol dos Cegos

01/08/2012

ABERTO

 
 
Para Cacaso

Às vezes o olhar caminha
na trama da luz
sem curiosidade alguma
qualquer devaneio
vai em busca do tempo
e o tempo, como o sempre,
vazio de tudo
não está longe
está aqui, agora
o olhar sem memória
sem destino
se detém
no ar do ar
na luz da luz -
lugar?

Francisco Alvim
In Elefante
tela Marco Ortolan

ELEFANTE



O ar de tua carne, ar escuro
anoitece pedra e  vento.
Corre o enorme dentro de teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora - rui por dentro.
Reverbera no escudo o brilho baço
do túrgido ariéte
com que distância e tempo enfureces.

Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventres frios,
femininos.

A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.

Francisco Alvim
In Elefante
tela Lauri Blank

MENTE



Quase além da sensação
do estar vivo
pura luminosidade dentro
de retina inexistente -
a que tudo enxerga
tudo sente
(o tudo que é vida
e será morte) -
a palavra (palavra?)  amor

amor

Francisco Alvim
In Elefante
tela Lauri Blank

09/09/2009

VARANDA DE UM VÔO


Um tempo de neve-
volta
por dentro do sol
e da água

Olho de um lago
que olha dentro de si
para se ver
não se ver

Olhar de fora
luz tamanha
névoa na neve-
montanha

Francisco Alvim
in Festas, 1981
Foto de Sevastopol no Flickr

25/09/2008

MANHÃ DE SOL COM AZULEJOS



Tudo se veste da cor de teu vestido azul
Tudo - menos a dona do vestido:
meus olhos te passeiam nua
pela grama do campo de golfe

Uma curva e eis-nos diante de meu coração

Não amiga não temas
meu coração;
é apenas um chapéu surrado
que humildemente estendo
para colher um pouco de tua alegria
de tua graça distraída
de teu dia

Francisco Alvim
1968 - Sol dos cegos