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12/05/2009


(DEMETER - Abdul Mati Klarwein)

LA LOBA

Se o calor me queima não afrouxo as vestes,
arranco-as.
Se o frio me congela, não me lanço ao fogo,
mas à pele


Helen Drumond

13/11/2008


by Karin Voelker

MATA-ME

Mata-me de amores
Não do amor comum
Mas mata-me de amores
Que alma compreende
Mata, o que não sou

Mata-me
Revela o que sou

Mata-me
De amores sons e cores

Ressuscita-me!

Helen Drumond

by Mary Cassatt

DOCES NOVEMBROS

Naquele tempo...era novembro...
O tempo não existia
É, houve um tempo em que não havia tempo
Porque tempo é medir
e eu ainda não havia aprendido os hábitos dos homens
A consciência das coisas entrava-me pelos sentidos
Possuía minha alma docemente

Eu fazia buracos na areia
Para enchê-los com água do mar
Corria, corria, ia e vinha
À sombra, minha mãe lia num livro vermelho:

“de que são feitos os meninos
De que são feitos os meninos?
Rãs, caracóis, rabinhos pequeninos
Disto são feitos os meninos!
De que são feitas as meninas
De que são feitas as meninas?
Doce, perfumes e outras coisas finas
Disto são feitas as meninas!”

Hoje... o tempo me diz que é novembro
Aprendi a medida das coisas
Corro, corro, vou e volto
A consciência das coisas está em meus sentidos
Busco a alma por trás do que vejo

Ao sol da vida, escrevo:
De que são feitos os meninos?
De que são feitas as mulheres?

Helen Drumond

05/11/2008


(Beco da Matriz - São João del Rei - MG)

beta de lágrimas

eu me derramo feito água
pelas pedras del Rei
choro, um choro de amor
tombado
Heliodora
eu mesma
de outros tempos
outras pedras
de hoje
sou lágrimas
águas pelas pedras del Rei
tombada
erguida
pelo pranto
que as pedras não detém
e escorrem
sugadas pelo seio da terra
que há de existir sempre
e guardadas
em labirintos de ouro
que foram lágrimas
betas de lágrimas
no seio subterrâneo
sob as pedras del Rei

Helen Drumond


a cada manhã
acorda comigo
uma esperança

Helen Drumond

Foto de fabianophoto

OLHOS NOTURNOS

A luz do cigarro no escuro não mostra o caminho
Mas denuncia o viajante solitário na noite.
A luz caminha na escuridão, janelas a espreita.
Acomodar o chapéu não aquece, mas dá ilusão de aconchego
É tudo ilusão...a luz do fumo, o pó da estrada.
É tudo ilusão de chegar.
Caminhar é a realidade. Ir em frente.
Janelas a espreita. Aonde irá o homem da estrada?
Seguir varando a solidão da noite, seu destino.
Sem um cão que o confortasse.
Sem estrelas, sem lua, sem amanhecer jamais.
Janelas a espreita. Não se vê mais a luz.
Olhos no escuro advinham as costas do caminhante.
Ele se foi, passos espremendo a terra batida do caminho.
Seguir. Ir em frente. Varar o vazio do negrume.
Janelas a espreita. Testemunha noturna do ir.
Ou do regresso.

Helen Drumond

03/11/2008


by Camille Jacob Pissarro

O poema nasce nu.
Tento vesti-lo com palavras.
O que escrevo nada mais é do que vestimenta rudimentar
que minhas mãos conseguem compor para o poema de minha alma.
Creio que nunca conseguirei mostrar a poesia em seu estado original.
Talvez porque não seja capaz de senti-la essencialmente.
Que versos escreverei que possa encantar,
se nada em minha alma rima com o que vejo?
Vejo? Sim, com olhos da alma, vejo.
É tudo tão novo e denso. Tão antigo e sutil. Tão vibrante e calmo.
Que poema surgirá de onde não há rimas,
de onde ainda não nasceram palavras?
Palavras são pedras que tateio a esculpir um poema.
Mas o poema não está nas pedras, que são poemas de Deus.
Poemas são colheitas da alma.
Colho a poesia na noite. A noite mata-me as horas.
O poema vive, nu.

Eu, a morrer de poesia.

Helen Drumond

30/10/2008


H. Matisse - Mulher lendo.

Lês,
Como se eu sussurrasse em teus ouvidos a poesia de minha alma.
O teu momento comigo é agora.
Podes sentir-me o hálito poético, advinhar-me, saber-me.
Porém eu digo,
muito mais poesia está oculta,
Absorvida no silêncio que adormece entre o
momento em que escrevo e o instante em que me lês.

Helen Drumond

29/10/2008



QUANTO?

Quanto há a falar?
a calar?
quanto a esperar?
a sonhar?

...................

Talvez não deva saber.
Apenas viver
o que me é dado ter.

Helen Drumond

As três fases da mulher - Edward Munch

FASES

Saí em busca de tua presença
Era manhã
O sol cintilava nas pedras
A relva se oferecia úmida
As flores sorriam
Me distraí ofuscada
Tudo era novo e belo
Esqueci minha busca
Contentei-me com o belo
Ao alcance da mão

Saí novamente em busca de ti
Era meio dia
O sol brincava
De inventar cores
Julguei tudo saber
Quis tudo sentir
Lancei-me intrépida
Tudo pude, tudo fiz
Era escrava
Brincando de dona
Perdi tua direção

Sinto falta da tua presença
A tarde se aproxima
O sol teima em partir
E não conheço estrelas
Ouvi dizer que são belas
A lua nunca toquei
Não ouvi sinos
A noite virá
E estou só
Não temo a noite
Temo não te encontrar
Para que me mostres
As estrelas
E a luz de tua sabedoria
Em vigília me ponho
Até que chegues
E eu não te perca

Helen Drumond

26/10/2008


(FRANCISCO REBOLO - MOÇA NA JANELA)

CANÇÃO PARA A MOÇA NA JANELA

Vejo a moça
na janela
toda bela

Bela moça
quem é ela
na janela?

Mandou embora
quem a queria
e está vazia

Quer de volta
quem não a quis
não é feliz

Não sabia
que liberdade
se faz saudade

Moça bela
o que perdeu
não era seu

Há um mundo
além da janela
moça bela

Sorria
vá devagar
e vai encontrar

Linda moça
alguém a espera
além da janela...

(Helen Drumond)

23/10/2008


Foto de Curlgirl1

Gosto de estar, como se não pensasse, naquele estágio que antecede a idéia
Onde não há tempo, só o infinito aguardar pelo poema.
É o momento em que a poesia habita o que em mim é vivo.
Desperto, as letras caem das mãos em busca da forma, do poema.
Morro, cada vez que escrevo e mais nada é meu.
Espero pelo momento de viver de novo a poesia e morrer em versos.

Helen Drumond

17/10/2008


Foto de Arielbinkinhas

Amar, ao som de violinos
Amar a terra na sinfonia do vento
Pisar a epiderme da terra na dança leve,
Pele, terra
Tocar o veludo das flores, ao som de violinos...
O luar dança com vento, ao som dos violinos
Estrelas, atentas ao solo do amor...
Entre violinos.

Helen Drumond

10/10/2008


Caravaggio

No matiz das horas adormeço.
Passo a habitar onde posso ser eu.
Por que estou só, onde sou o melhor de mim?
Onde estão os homens?
Onde estão aqueles que deveriam ver o que sou?
Não há ninguém.
Neste espaço onde sou nada habita a não ser eu e a consciência de que Deus é.

Helen Drumond

27/09/2008


by Thomas Baker

Ao abrir a caixa dos segredos, revelou-se a mim um mundo desconhecido.
Não, não os segredos...as coisas secretas beijaram a luz do meu entendimento, mas ao possuí-las deram-me um novo sentido, que não era exatamente a paz que eu buscava.
Desvendar segredos pode ser como expor a nudez de um amigo. O amigo despe-se em confiança e sorri. No entanto é nossa, a vergonha que cala. Sabemos o que desejamos saber e descobrimos que não há utilidade nem nova caixa que comporte nosso pecado em desvendar mistérios que não construímos.
Ah, as caixas de segredos, os compartimentos secretos do nosso coração...Deixemos onde fazem sentido, sob cadeados da alma. As coisas secretas são o alimento, o suporte das manifestações humanas. Desvendá-las pode fazer ruir toda beleza que vemos num sorriso.

Nunca sabemos qual dos nossos segredos passados sustentam nossa forma de ser.
Quem sabe, o que te encanta em mim seja, exatamente, o que fui antes de teus olhos me fitarem?

Helen Drumond
.

John Willian Waterhouse

Eu quero o amor das manhãs frescas de orvalho
O amor original, inigualável, único
Sentimento vivo que não tem precedentes,
Não ocupa espaços vazios nem promete companhia ao solitário
Quero o amor incomparavelmente novo, essencial
Amor sem matizes ou nuances, amor puro
Quero amor de sol nascente, de água brotando da terra
De sons de pássaros despertos e cheiro de relva orvalhada
Quero amor a escorrer nas mãos colorindo flores, plantando jardins
Amor que canta anunciando a manhã e assopra nuvens ao meio dia
Amor, translúcido, pleno, que vibra na tarde colorida e se aquieta ao crepúsculo
Amor que se recolhe às notas cintilantes das estrelas
E guarda-se em noturnos sussurros enluarados
Vibrando ao movimento dos astros em segredos de mágicas sombras
Amor que não adormece, descansa e veste-se de luz para cada alvorecer

Helen Drumond

26/09/2008



embebedei-me na luz do luar
cheirei o pó das estrelas
vi caudas cintilantes de cometas
senti o azul da terra
o som, do movimento dos astros
pela imensidão do desconhecido,
tornou-se música a embalar-me
no mágico destino de deslizar
em plena sintonia com a matéria celestial
na direção que me atrai

o universo é suficientemente pequeno para caber em mim
e suficientemente grande para conter-me com ele
sentir-me parte do todo é
a lição de humildade que vem da estrela mais brilhante
e da menor de todas, que não desiste de brilhar.


Helen Drumond

25/09/2008


A lua assombra meus dias,
Porque tenho medo da noite.
Medo do olho redondo da lua
a espreitar meus sentidos.
Porque ela brinca de me ler a alma,
Por isso ela assombra meus dias
Quando penetra minhas noites
Com sua luz de pálida prata
Não posso negar-me a ela
Ela me sabe, conhece meu medo
Que nada mais é que desejo
Em tornar-me lua, em poesia.

Helen Drumond

TheSorceress(a feiticeira) by W.Waterhouse

A eterna busca do homem
no mundo exterior nunca o completará
somos metade, é certo
metade de nós mesmos
insatisfação
a outra metade, o nosso oposto
está naquilo que dormimos
na outra face
se és matéria
procura onde não és
e somando o que és ao que não vês
estarás inteiro

Helen Drumond
.

Foto de Gracia Lee

TENHO MEDO!
E quando tenho medo, o que me assusta não é o que me amedronta.
Assusta-me o gosto pelo medo. Assusta-me, a coragem que nasce do medo.
O desafio, o escuro, o desconhecido exercem em mim o fascínio do brilho das estrelas em noites sem lua.
Não há vida fora do medo. Não há vida fora do desconhecido.
Não quero morrer envolta na segurança daquilo que não me move.
Quero buscar o outro lado da noite, ir onde está o sol.
Perseguir rastros de estrelas e beber do luar.
Embriagar-me de brisa e conhecer o que nunca vi.
Quero tocar a pele da noite, envolver-me em doces melodias
E suavemente amar o medo que me atrai.

Helen Drumond