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04/10/2021

A PRIMAVERA



   Aproveita o ar que se inicia 
  - limpo, claro, colorido -
   e faz convites de mel ao meu ouvido
   que eu finjo descaso e me preparo.
   Quero-te   a indecorosa insensatez
    a escorrer botões de rosas a meus pés
    e às tuas mãos espalmadas como taças
    servir a textura de meus seios;
    quero ter teus olhos cheios
    das leves transparências deste dia.
     Aproveita o ar que se inicia 
     e ouve aquilo que teu peito quer.
     Como num ato de concupiscência,
      eu me reparto em quatro
       e te entrego o pólen da Estação Mulher.

        Flora Figueiredo
        de Estações 
         arte Rudolf  L.


COM EFEITO

     

Do parapeito
eu espreito
teu preconceito
teu lado direito
teu ângulo estreito
teu ar contrafeito.
Tento mudar-te o conceito
de insatisfeito perfeito
pra reparar o defeito,
me desajeito,
pois há que mudar o sujeito
mas esse não muda, está feito.

Flora Figueiredo
de Florescência
arte Irina Kotova


07/03/2020

CÂNTICO OUTONAL




Ausente por um ano, ele chega macio,
passos de camurça sobre chão quente.
Veste de dourado a terra ainda suada
do ardor inclemente da estação passada.
Traz o azul das telas de Ticiano
como pano de fundo para a hora da prece.
Pálpebras de sono,
a tarde se aquieta, a lua cresce.
Adormece o dia no colo de outono.

Flora Figueiredo
de Páginas viradas de um abril qualquer

20/10/2019

FAROLETE


Voa vaga-lume
tua valsa branda,
que eu te ofereço como de costume
o lampião, a varanda e a margarida.
Em contrapartida,
dá-me a inocência e a leveza.
Quero essa ciência de manter a vida acesa.

Flora Figueiredo
In Limão Rosa
arte desconheço autoria

QUANDO


Quando te amei,
as gaivotas desenhavam guirlandas
sobre velas brancas de alto mar.

Quando te amei,
os sonetos pingavam adocicados,
pelas velhas fendas do sobrado.

Quando te amei,
a melodia deixava o microfone
para adentrar macia pela noite insone.

Quando te amei,
o tempo desenhava crisálidas
na cadeira vazia de uma tarde pálida.

Quando te amei,
meus olhos molhavam-se nos seus
e as vozes de sopro do vento não pronunciavam adeus.

Flora Figueiredo
In Limão Rosa
arte Dorina Costras

12/11/2014

PARCERIA


 
Ficamos assim:
você joga as queixas no telhado,
eu ponho as manias de lado;
você lava a escadaria,
eu rego o jardim
Podemos varrer juntos
as nódoas secas aderentes ao passado.
Se você se habilita, eu me disponho,
num desafio à desdita.
Você acende a luz,
eu desempeno o sonho;
eu troco a fita.
Na mesa torta, a toalha colorida.
O resto é fácil:
basta mandar flores ao futuro,
derrubar o muro e acreditar na vida.
 
Flora Figueiredo
In O Trem que traz a noite  
arte PARIS LOVE by Leonid Afremov

15/07/2014

DELÍRIO


 

Tem um cacho de flor
se balançando às minhas costas,
que se diverte abertamente às minhas custas .
Oscila lasso, tão flacidamente,
que não sei se é vermelho perfumoso,
ou se é cheiroso vermelhosamente.  
 
Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto
arte  Emile Vernon 

ROYAL FLUSH




Reverências à Dama de Copas,
que ousa andar de coração à mostra,
leva flores nas mãos em vez de espadas,
em vez de paus e pedras  enfeitadas,
que ostenta rubra uma paixão exposta.
Transita arfante pelos naipes
à procura de seu rei vermelho;
ao encontrá-lo, se queda de joelhos
férvida, túrgida, convulsa,
invade o castelo, tomba a pilastra,
pinta os quatro ases de amarelo.
Rainha absoluta, expulsa da canastra.
 
Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto  
arte Daniel     

16/06/2014

VÉRTICE



Abrir as portas
uma a uma,
galgar a coluna,
fechar o fosso.
Dissolver a resina,
limar a ferrugem,
cuspir o caroço.
Tomar o caminho morro acima.
 
Enlaçar o sol
para não deixar que o frio entranhe,
inalar a chuva antes que a febre assanhe,
lubrificar o vento.
 
No terceiro movimento,
chegar ao cume.
Afofar nuvem,
flutuar estrela,
adotar depressa uma vagalume,
é preciso iluminar a vertente
o suficiente, pra nunca mais descê-la.
 
Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto
arte Oleg tchoubakov

ROTATIVO




Hoje a lua vai embora;
o chorão chora,
o caldo entorna.
Amanhã, a rosa é branca,
o céu é limpo,
o beijo é largo.
Amanhã de manhã, a terra é morna.
 
Flora Figueiredo
In Amor a Céu  Aberto
Oleg tchoubakov

DESPEDIDA




Se tiver que ir,
vai.
O que fica para trás,
não sendo mentira,
não racha,
nem rompe,
não cai.
Ninguém tira.
Já que vai,
segue se depurando pelo trajeto,
para desembarcar passado a limpo,
sem máscara,
sem nada,
sem nenhum desafeto.
Quando chegar,
sobe ao ponto mais alto do lugar
 onde a encosta do mundo
faz a curva mais pendente.
E então acena.
De onde eu estiver, quero enxergar
esse momento em que você vai constatar
que a vida vale grandemente  a pena
 
Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto
arte Oleg Tchoubakov

08/06/2014

PÉ-DE-VENTO


 

passou.
Sei que era ele
porque transformou
minha integridade
em pó de estrela.
E assoprou tanto,
que me fez perdê-la
completamente.
Se ele regressar num repente,
vou tentar detê-lo
para recuperar um fragmento
de claridade.
Pé-de-vento.
Há de voltar.
Levou meu brilho,
mas deixou saudade.
 
Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto

29/01/2014

BOM-SENSO



Hoje não vou,
que é dia ruim de decisão:
o ninho apareceu cheio de ovos,
o vaso me presenteou com botões novos,
a lua fez alongamentos verdes  sobre o mar.
Dia de emoção não é dia de ir.
Quem sabe amanhã amanhece chovendo
e eu fico matemática.
 
Flora Figueiredo
In Chão de Vento
arte René Magritte 

LEVA-E-TRAZ




Quando a palmeira balança segredos,
vale a pena escutá-la.
O vento lhe traz notícias frescas todo dia.
Quem foi que disse que vento não fala?
 
Flora Figueiredo
In Chão de Vento
arte Colorful Tropical Wind by Maz

27/05/2013

ADOLESCÊNCIA



Era uma alameda branca,
atapetada de papel de seda.
Não tinha sombras,
cantos escuros,
não tinha muros.
Permanecia.
Até que um dia,
um anjo descuidado
deixou pingar-lhe
uma gota de carmim.
Calou-se o branco
que fora imaculado,
numa aquiescência casta e comovida.
Recolheu-se manso.
... e foi assim que começou a vida.

Flora Figueiredo
In Calçada de Verão
tela Mónica Fernández 

16/05/2013

FORÇA



Desmancha o nó,
tira a ferrugem,
espana o pó.
Empurra o pesado,
cola o quebrado,
abre o dobrado,
cerze o rompido,
coça a coceira,
gruda o trincado,
pensa o ardido
e faz brincadeira do verso chorado,
que a vida é rendeira
de sedas e trapos,
de rendas, farrapos
ou fios de algodão;
que a fibra é comprida e o mundo, artesão.

Flora Figueiredo
In Florescência
tela Mônica Fernández

04/04/2013

ALTERAÇÃO



Andam sobrando xícaras à minha mesa.
Copos, guardanapos, pratos e tudo.
Andam faltando sons à minha mesa.
Até o lustre de cristal oscila mudo.
Um sabiá explora imune a grama do quintal.
Armários organizados desacatam a poesia
onde tênis e cuecas
dormiam junto ao trenzinho
que há muito tempo já levou a breca.
Hoje em dia, o despertador fica calado;
o tempo se aninhou no cobertor.
Agora faz mais frio do que calor.
Da vela acesa, só pires e pavio.
Já de saída,
chave na mão, olho pra trás.
A cortina principal está caída.
Tanto faz.  
 
Flora Figueiredo
In O Trem que traz a noite
tela Leon De  Smet

28/03/2013

ALÇAPÃO


 

Não era nada disso.
Queria para o nosso cortiço
um teto vedado,
composto,
completo.
Sem buraco no zinco
a pingar tristeza
ao nosso lado.
Com piso,
com trinco,
com toalha na mesa.
Mas o lar destelhado
me faz companheira
das sombras da rua.
A contragosto me reparo inteira:
uma parte é dela,
outra parte é sua.
 
Flora Figueiredo
In Calçada de Verão
tela  Margarita Sikorskaia

LÍQUIDO



Teu beijo é tanto,
é tamanho,
que nele me dispo,
me banho,
me adoço.
Deixo no pescoço
uma gota ativa
pra te manter molhado
enquanto posso.
Essa umidade me conserva viva.
 
Flora Figueiredo
In Calçada de Verão 
tela  Andrei Protsouk

RESTAURO



 
Acho que posso lhe ajudar.
Sei exatamente
onde foi que se perdeu o seu sorriso.
Vi-o tombar desamparado
e se aquietar no irreversível.
Juntou-se ao lamento.
Se você quiser recuperá-lo,
eu tento.
É preciso escovar-lhe a poeira,
reconduzi-lo
reconquistá-lo
e jurar amá-lo até a estrela derradeira.
Quando estiver devidamente
em seu lugar,
eu me dou pra você em garantia:
se um dia
esse sorriso se quebrar,
você me  manda embora
e joga fora minha serventia.
 
Flora Figueiredo
In Calçada de Verão
tela Dipak Kundu