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19/02/2010


by Sir Alfred Munnings

LEMBRANÇAS

Teus retratos — figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas — palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutávela projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.
Sou a urna funerária de tua beleza
que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro
só então, mais do que eu,
tu morrerás
em mim.

Gilka Machado

18/09/2008


Foto de Francisco-PortoNortePortugal

LUZ

Luz — concepção primeira e cósmica da Treva!
por esse teu fulgor lançares, dispenderes,
a beleza da Forma o olhar atrai e enleva,
goza a vista os da Cor emotivos prazeres.

Por ti flutua no ar dos perfumes a leva
és o verbo de Deus, o poder dos poderes,
o alimento vital que as cousas todas ceva,
o calor que impulsiona a máquina dos seres.

És o semen do Sol, que a Mãe-Terra fecunda,
que na treva germina e várias formas toma,
de cuja produção a humanidade é oriunda.

Possa eu sempre te ver por tudo distribuída,
luz que és som, luz que és cor, que és sangue força e aroma
que és a idéia a medrar no cérebro da vida.

Gilka Machado
In Cristais Partidos

13/09/2008


by Glynis Barnes

ESBOÇO

Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos,
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrêlas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos.

Gilka Machado

04/09/2008


Foto de Dominic

FELICIDADE

Felicidade
de não ter nada meu
e escancarar, com as mãos vazias,
as janelas aos dias,
agradecendo aos céus esta riqueza
da minha super-sensibilidade
para a beleza
para a bondade.

Felicidade
ridícula talvez, talvez insana,
de recalcar tudo que me consome,
de distrair minha própria fome
com a fome de matar a fome humana.

Felicidade
(que é meu orgulho certamente vão),
de, em versos, me haver dado inteira à humanidade,
na impossibilidade
de ser pão.

Felicidade
de vir chegando à maturescência,
nesta paz absoluta de consciência
sem amargura e sem saudade

Felicidade
deste sereno adeus ao sonho que se evade,
desta renúncia àquilo que mais quís.

Felicidade
de sem remorso olhar a dor que infelicita
a humanidade aflita...

Felicidade
de ter sabido ser sempre tão infeliz.

Gilka Machado

Foto de Dominic

AZUL

De azul, de suave azul coloriram as rotas
do céu azul é sempre expressão de bondade;
há na visão do azul um carinho de promessa
e uma promessa
de felicidade.

O azul nos sugestiona e nos persuade;
mesmo quando tenhamos a alma opressa,
qual de nós a sonhar não recomeça
ante um tranqüilo céu, de azúlea claridade?

Sempre em rumo do azul
a alma errante dos poetas segue, êxul.

Azul, é perfeição, é sonho, é ideal;
azul é o brilho do mais límpido cristal;
azul é o jorro da água mais pura,
mais torturada, mais batida.

No azul se fez o pouso destinado
às almas que se vão da vida
sem pecado.
Azul diviso esta tortura,
este desejo de subida
que sinto pelas
distâncias ermas da azul altura.

Azul bendito de belezas tantas!
- azul nas flores mais delicadas;
- azul nos olhos místicos das santas;
- azul nos olhos mágicos das fadas
- azul nos olhos vagos das estrelas.

Sonhemos sob o azul que tudo nos permite,
o azul que nos promete e nunca dissuade.
Bem haja o azul da Imensidade,
esse azul sem limite,
esse azul liberdade!

Gilka Machado

Foto de Rord

REFLEXÃO

Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detêm-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

Elas, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...

Gilka Machado