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02/05/2010


foto by Mateus Rosada(Bisnaga)

PEDRINHAS NA JANELA

De vez em quando a alegria
atira pedrinhas em minha janela
quer avisar-me que está lá esperando
mas hoje me sinto calmo
quase diria equânime
vou guardar a angústia em seu esconderijo
e logo estender-me de cara ao teto
que é uma posição galharda e cômoda
para filtrar notícias e acreditar nelas

quem sabe onde ficam minhas próximas pegadas
nem quando minha história vai ser computada
quem sabe que conselhos vou inventar ainda
e que atalho acharei para não segui-los

está certo não brincarei de despejo
não tatuarei a recordação com esquecimentos
muito fica por dizer e calar
e também ficam uvas para encher a boca

está bem me dou por persuadido
que a alegria não atire mais pedrinhas
abrirei a janela
abrirei a janela.

Mario Benedetti

14/12/2009


by Dan Campanelli

PEDRINHAS NA JANELA

De vez em quando a alegria
atira pedrinhas em minha janela
quer avisar-me que está lá esperando
mas hoje me sinto calmo
quase diria equânime
vou guardar a angústia em seu esconderijo
e logo estender-me de cara ao teto
que é uma posição galharda e cômoda
para filtrar notícias e acreditar nelas

quem sabe onde ficam minhas próximas pegadas
nem quando minha história vai ser computada
quem sabe que conselhos vou inventar ainda
e que atalho acharei para não segui-los

está certo não brincarei de despejo
não tatuarei a recordação com esquecimentos
muito fica por dizer e calar
e também ficam uvas para encher a boca

está bem me dou por persuadido
que a alegria não atire mais pedrinhas
abrirei a janela
abrirei a janela

Mario Benedetti
In Antologia Poética

by Myles Sullivan

INTIMIDADE

Sonhamos juntos
juntos despertamos
o tempo faz ou desfaz
enquanto isso

nada importam teu sonho
nem o meu sonho
somos torpes
ou muito cautelosos

pensamos que não cai
a gaivota
acreditamos que é eterno
o pacto
que a batalha é nossa
ou de ninguém

juntos vivemos
sucumbimos juntos
mas essa destruição
é piada
detalhe ventania
vestígio
um abrir e fechar
do paraíso

já nossa intimidade
é tão imensa
que a morte a acolhe
em seu vazio
quero que me conte
o luto que não falas
de minha parte ofereço
minha última confiança

você só
eu só
porém às vezes
pode a solidão
ser
uma chama.

Mario Benedetti
In Antologia Poética

12/12/2009


Foto de b_lenharo no Flickr

A VIDA ESSE PARÊNTESE

Quando o não-ser fica em suspense
abre-se a vida esse parêntese
com um gemido universal de fome

somos famintos desde o vamos
e o seremos até o vamo-nos
depois de muito descobrir
e brevemente amar e acostumar-nos
à falida eternidade

a vida se encerra em vida
a vida esse parêntese
também se fecha incorre
em um gemido universal
o último

e então somente então
o não-ser segue para sempre

Mario Benedetti
In Antologia Poética

Foto de b_lenharo no Flickr

SOU MEU HÓSPEDE

Sou meu hóspede noturno
em doses mínimas
e uso a noite
para despojar-me
da modéstia
e outras vaidades

procuro ser tratado
sem os prejuízos
das boas-vindas
e com as cortesias
do silêncio

não colecioso padeceres
nem os sarcasmos
que deixam marca

sou tão-só
meu hóspede
e trago uma pomba
que não é sinal de paz
mas sim pomba

como hóspede
estritamente meu
no quadro-negro da noite
traço uma linha
branca

depois assopro minha brisa
e os postigos e os ramos
tremem

como hóspede de mim
sei de mim o que penso
não é grande coisa

armo minhas barricadas
contra o sono
muito embora o sono
as derrube

sou meu hóspede
por que negá-lo
mas
às vezes também sou
um estranho de mim

quando meu rústico
anfitrião
me olha
sinto que estou
sobrando
e saio fora.

Mario Benedetti
In Antologia Poética