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16/07/2011

AS ALEGRIAS


Sobre a corrente esvoaça
A libelinha inconstante;
Vejo-a,sigo-a e o tempo passa.
Ora escura,ora brilhante,
É como um camaleão:
Rubra,azul,verde, num instante
Perde as cor's e as recupera;
Essas cor's,ai! quem me dera
Vê-las bem, aqui na mão!
Zumbe e adeja, buliçosa,
Té que num salgueiro pousa.
Caço-a,mas das cor's que havia,
Vejo, ao vê-la atentamente,
Um tristonho azul somente...
É assim que tu te desiludes,
Tu que em demasia analisas
Tuas alegrias.

Johann Wolfgang Von Goethe
Trad. Eugênio de Castro

26/06/2011

LENDA DA FERRADURA




Quando ainda obscuro e desconhecido
Nosso Senhor andava na terra
e muitos discípulos o seguiam
que raras vezes o compreendiam,
amava doutrinar as massas
nas ruas amplas e nas praças,
pois à face dos céus a gente
fala melhor e mais livremente
Ali dos seus divinos lábios
fluíam os ensinamentos mais sábios;
pela parábola e pelo exemplo
faziam de cada mercado um templo.

Certa vez que, em paz e santidade,
com os seus chegava a uma cidade,
viu qualquer coisa luzir na estrada;
era um ferradura quebrada.
Disse a S.Pedro com brandura:
"Pedro, apanha essa ferradura!"
Porém S. Pedro no momento
Tinha ocupado o pensamento;
absorto em êxtase profundo,
sonhava-se o dominador do mundo,
rei, papa, ou tal que se pareça,
Aquilo enchia-lhe a cabeça!
E havia de dobrar a espinha
por uma coisa tão mesquinha!
Se fosse um cetro, uma coroa,
mas uma ferradura à-toa!...
E foi seguindo distraído ,
como se não tivesse ouvido.

Curvou-se Cristo com doçura
celeste, angélica,humilde;
ergueu do chão a ferradura.
E quando entraram na cidade
vendeu-a em casa de um ferreiro.
Comprou cerejas com o dinheiro,
guardando-as à sua maneira
na manga, à falta de algibeira.

Dali saíram por outra porta.
Fora a campanha estava morta;
nem  flor nem a sombra; ao longe, ao perto,
era o silêncio, era o deserto,
era a desolação; ardia,
torrava, o sol do meio dia.
Que não valia em tal secura
um simples gole de água pura!

Nosso Senhor caminha à frente.
Deixa cair discretamente .
Furtivamente, uma cereja
que Pedro apanha, salvo seja,
com cabriolas de maluco.
A frutinha era mesmo o suco.

Outra cereja no caminho
atira o mestre de mansinho,
que Pedro apanha vorazmente.
E assim por diante, não uma vez somente
fê-lo o Senhor dobrar a espinha
mas tantas vezes quantas cerejas tinha.

Durou a cena um bom pedaço.
Por fim, disse o Senhor com ar prazenteiro:
Pedro se fosses mais ligeiro
não tinhas tido este cansaço.
Quem cedo e a tempo ao pouco não se obriga,
tarde por muito menos se afadiga.

 Johann Wolfgang Von Goethe
 tradução de Alberto Ramos

25/06/2011

LIVRO DE LEITURA



O livro mais primoroso
É o livro do amor,
Eu o li com atenção:
Poucas folhas de alegrias,
Cadernos inteiros de dores;
Para a ausência, um parágrafo.
Reencontro! um curto capítulo,
Fragmentário.De mágoas, tomos inteiros
Repletos de explicações,
Sem término e sem medida.
Oh, Nisami! - Mas, no fim,
Achaste o caminho justo;
O insolúvel, quem o resolve?
Os que se amam e voltam a encontrar-se.

Johann Wolfgang Von Goethe
Tradução de Samuel Pfromm Netto

09/06/2011

À LUA























De novo enches o bosque e vale
De bruma luzente, calma,
Também libertas, afinal,
Toda a minh'alma;

Sobre os meus campos estendes,
Como um bálsamo, a vista,
Como amigo que com ternura olhasse
Meu fado que o contrista.

Ecos de dias alegres e sombrios
Ferem-me o coração.
Vagueio assim entre alegria e dor
Por esta solidão.

Corre,corre,amado rio!
Minha alegria acabou;
Como tu, passaram beijos e gracejos,
E a lealdade passou.

Pois não tive outrora eu já
A preciosa graça?!
Oh! o martírio de não poder 'squecer,
Saber que tudo passa!

Corre, o rio, sussurrante pelo vale,
Sem parar, noites e dias!
Corre o múrmuro, ensina ao meu cantar
Secretas melodias.

Quando em noites de inverno
Bravejante desbordas,
Ou quando o esplendor da primavera
Com teu murmúrio acordas!

Feliz aquele que do mundo vão
Sem ódio deixa a luta,
E aperta um amigo ao coração
E com ele desfruta

O que, sem que o homem sequer saiba
Ou nisso atente,
Através do labirinto da alma
Erra à noite, silente.

Johann Wolfgang Von Goethe
Tradução de Paulo Quintela
Poesias Escolhidas
foto de  javier.fazouro

07/06/2011

REVER
























Ele - Por que estás hoje esquiva, ó minha doce amiga?
Concede um beijo mais  a estes lábios famintos...
A árvore hoje, como ontem, tem os ramos retintos
de flores que alimenta, sustém, renova e abriga.
Comparavas meu beijo às abelhas inquietas
que buscam sem cessar a flor dos seus amores,
sussurando, a zumbir, nas moitas prediletas
o seu canto de gozo, hino ao perfume e às cores...
Ébrio de azul, de luz, perfume que bebeu,
o enxame sem descanso a faina continua...
Não há flores no chão nenhuma planta nua...
Será que a Primavera só para nós morreu?

Ela - Aperta-me ao teu peito! Ontem nos separamos!
E a saudade é mais suave do que todo o desejo.
Sonha, querido amigo! A lembrança de um beijo
é mais doce que todos os beijos que trocamos...
A noite sem piedade veio nos separar.
Foi tão triste, à tardinha, o nosso adeus de ontem!
Que as Primaveras sempre para nós dois repontem
nas árvores, nas flores, nos frutos do pomar...

Johann Wolfgang Von Goethe
Tradução de Edgard Roquette Pinto
In Poesias Escolhidas
tela Pablo Picasso

RECOMENDAÇÃO


















Ai, que deve o homem esperar?
É melhor ficar inerte?
É melhor viver sem leme?
A algum amor se aferrar?
Deve em tenda residir?
Ou uma casa edificar?
Deve fiar em rocha,
Tão sujeita a vacilar?
A cada um o seu tanto...
Cada qual rume. com fé,
Pense onde se fixar
E não caia estando em pé.

Johann Wolfgang Von  Goethe
Tradução de Amélia de Rezende Martins
In Poesias Escolhidas
tela Bruno Morandi

MEDITAÇÃO NOTURNA
























Desditosas estrelas, como eu vos lamento!
Que belas sois e assim brilhais,
Esplendorosamente!

Luzes que refulgis ao nauta em noite escura,
Esquecidas de Deus e dos homens, estrelas!
Porque amor não tendes,
Nem do amor, jamais, a flor colhestes.
E assim viveis, ininterruptamente,
Carpindo a marcha das eternas horas
Pelos caminhos mil da imensidade.

Que viagem, porventura, que esquisita viagem
Não tereis vós concluído,
Enquanto, no doce enlevo,
Entre os braços daquela que eu adoro,
De vós, estrelas, e da noite escura,
Há muito me esquecera!

Johann Wolfgang Von Goethe
In Poesias Escolhidas 
tela Vincent Van Gogh

15/06/2009


by John Singer Sargent » The Misses Vickers

Todos os dias deveríamos ler um
bom poema, ouvir uma linda canção,
contemplar um belo quadro
e dizer algumas bonitas palavras.

Pensar é mais interessante
que saber, mas é menos
interessante que olhar.

Goethe