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11/02/2013

POEMA



Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até o meu ouvido
 
Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido
 
Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido
 
Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo
 
Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido
 
Ele trepa de manso e logo  tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído
 
Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho
 
Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho
 
Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido
 
A medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo.
 
Maria Teresa Horta
In Palavras Secretas
tela Catrin Welz-Stein

26/07/2011

FEMININO


À Antónia

É quando o ar estremece levemente indo
em busca da transparência do azul-da-índia
onde dúplice e feminina
a placenta coa

Enquanto gera vibra
e no cristal se escoa

Difuso momento onde a flor hesita
se desfolha primeiro
E em seguida despida
pálida vacila desfalece e grita

Maria Teresa Horta
In Palavras Secretas
 foto por Earthy Delights 

16/10/2010

POST SCRIPTUM




















Afasto de ti com
raiva surda

o corpo
as mãos
o pensamento

e apago secreta
uma a uma
as velas acesas do teu vento

Liberta ponho o corpo
em seu lugar
visto a cidade
penteio um rio sedento

penso ganhar
e fujo
e não entendo

penso dormir
mas não consigo
o tempo
E cede-se o vazio
sobre o meu ventre

e segue-se a saudade
em seu sustento

E digo este meu vício
dos teus olhos
de um verde tão lento
muito lento

Se penso que te deixo
já te quero

Se penso que recuso
já te anseio

Se penso que te odeio
já te espero
e torno a oferecer-te
o que receio

Se penso que me calo
já te grito

Se penso que me escondo
já me ofereço

Se penso que não sinto
é porque minto

Se pensas que me olhas
já estremeço

Maria Teresa Horta
In Palavras Secretas
tela de Fabian Perez

03/10/2010

ENLEIO






















Não sei se volteio
Se rodopio
Se quebro

Se tombo nesta queda
em que passeio

Não sei se a vertigem
em que me afundo
é este precipício em que me enleio

Não sei se cair assim me quebra...
 Me esmago ou sobrevivo
em busca deste anseio

Maria Teresa Horta
tela de Tom Conway

28/09/2010

OS SILÊNCIOS



Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo
Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma

e continuo a querer
ficar contigo

Maria Teresa Horta
tela de Claude Monet

26/08/2010

OS SILÊNCIOS DA FALA





























São tantos
os silêncios da fala

De sede
de saliva
de suor

Silêncios de sílex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

Depois há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
o sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.

Maria Teresa Horta
In Palavras Secreta
tela by Fasani

DÚVIDA



















Não derretas a manteiga
sobre o pão
nem procures o pão
pela cozinha

Nem queiras saber
qual a razão
pela qual o amor
se aproxima

Não adormeças
deitado sobre a mão
nem faças com a mão
uma arma de esgrima

Pois logo cais em ti
e porque não?
Vais tropeçar na dúvida
que domina.

Maria Teresa Horta
In Palavras Secretas
tela by Demeurisse