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15/01/2012

***



AS  MANIAS SÃO VISTAS COMO DEFEITOS.
Depois, traços da personalidade.
Com a separação, transformadas em virtudes.

Calcificado, o ouro não derrete mais.
A aliança já é um osso no dedo.

Ter se acostumado um com outro
não significa que avançamos.

Somos residências germinadas
se correspondendo pelos muros.

Carpinejar
In Biografia de uma árvore.
tela John Jude Palencar 1999

***



As horas são amargas,
derradeiras,
os anjos perderam

a escala dos teus ouvidos,
O destino nos assemelha
mais que o nascimento.

Tuas passadas são curtas,
o perfil, enviesado.
Há uma parelha sendo

levada nas costas.
Fermentas o funcho,
o fungo e o estrume.

Carpinejar
In Um terno de pássaros ao sul
tela François Boucher

13/01/2012

***



A chuva é a única chama
que caminha contra o vento.
Refaço seu lastro
com a insônia dos sapatos.

Enlouqueço de ternura,
indeciso entre o furor e o fulgor.
Desperto amarrado em alguma estrela,
servindo de referência
para o alinhamento das esferas.

Carpinejar
In Biografia de uma árvore
tela Leonid Afremov 

***




Que cada um desenha
em seus pensamentos.
Como sarar as finanças,

conciliar a mulher,
os irmãos?
Caminhamos,

Submissos ao vento
que escolhe
as expressões pelo som,

fracassando nos amigos
e nas promessas.
Queimando as calorias


Carpinejar
In Um Terno de Pássaros Ao Sul
tela Anthonie Eleonore

***



Ocultemos-nos um pouco. Que separes lembranças
a confiar aos outros. Que reserves aos amigos
noites de bar. Que não me aborreças
com pormenores de relações passadas.
Que eu não mexa em tua correspondência.
não reviste na tua bolsa.
Que seja homem de uma única mulher,
como uma banda de um único sucesso.
como um poeta de uma único livro.
Que não me digam: a poesia é hereditária.
Os filhos não merecem nossa culpa.

Que segredo não seja amaldiçoado em degredo.
Que a confissão não apague a avidez dos pecados.
Que a reconciliação faça desabar crenças.
Que envelope do sereno feche nossa rua.
Que eu entenda ainda que tarde, agora sem ti.
Deus improvisa.

Carpinejar
In Terceira Sede
tela Jenny Villebasseyx

28/07/2010

***



























Fui menos que um homem,
não tive os gestos necessários
de uma mulher no parto,
a elegância de permitir a vida
sem exigir nada em troca.

Eu me levei muito a sério
e não me conduzi de volta.

Desde criança, desejei
legar uma marca e mordia
os colegas na creche.
Nenhum castigo amenizava
a gula. Os pais não repararam
que a ânsia de mastigar
era ambição adulta.

Chamei a atenção
para a pessoa errada,
demorei os olhos onde não cresciam olhos.
Careci de uma amizade fiel,
uma amizade de infância,
minha solidão de nascença
não se abriu com a convivência.

Sair de mim me alegraria,
tomar ar, encher-me da esperança
de que minha vida não é comigo,
que ela não me ofendeu e entendi errado,
como um sedado que não
completa seus pensamentos,
soma insuficiências e segue adiante.

Sair de mim adiantaria,
colher amoras  de árvores emprestadas
e assobiar sem mexer a boca.

Desprezei os conselhos da avó.
Não lavei as dores
e infeccionaram.

Deixo-me quieto na lista telefônica,
um vizinho que não incomoda.
Meu interesse é pelo sol das coisas ilegíveis,
um sol incompreensível,
que banha a matéria e não se insulta
em distribuir, de modo igual,
o facho às escadarias e aos pássaros
pequenos.
Será que ao mastigar uma folha de junco
não estarei mascando o azul do céu
daquela hora?

O tempo me devora enquanto respiro
e não há vantagem no livre-arbítrio
se estou terrivelmente preso
à pronúncia de um país.

Há quem esbarre em Deus,
desprevenido, no mais suave vento.
Há quem procure Deus,
obcecado, nas terríveis tempestades.
Não é o meu caso, pois amor
não é indigência.

Carpinejar
In Como no céu
tela by Vicky Montesinos

***




























O riacho é um cavalo líquido,
a pedra é um cavalo preso.
As borboletas são flores com abelhas dentro.
Liberdade é apenas mudar a forma,
o que não diminui a solidão
do nascimento.

Carpinejar
In Como no Céu
tela by Frederick Morgan

06/03/2010


Come with me by Gunda Jastorff

Não há castigo infinito. Não há dor infinita.
Um dia a gente termina para começar,
começa para terminar,
refaz o percurso como se nada tivesse acontecido antes.
Deixe-me apenas uma cadeira de palha,
amarela,
para olhar com piedade o que fui
e me deslumbrar com as ruínas

Fabricio Carpinejar

03/03/2010

´
by Marc Chagall

Peço um favor
no testamento.
Não admito passar frio
depois de morto.
Se não há teu corpo,
que seja a terra.
Se não há terra,
podes me cobrir com pedras.

Fabrício Carpinejar
In Como no céu

28/02/2010


Purple allium flower, close-up by Assaf Frank

DÉCIMA ELEGIA

Só na velhice o vento não ressuscita.
A água dos olhos entra na surdez da neve
e escuta a oração do estômago, dos rins, do pulmão.
O sono desce com a marcha dos ratos no assoalho.
Tudo foi julgado e devemos durar nas escolhas.
Só na velhice os grilos denunciam o meio-dia.
O exílio é na carne.
Esmorece o esforço de conciliar a verdade
com a realidade.
A neblina nos enterra vivos.
Só na velhice o pó atravessa a parede da brasa,
o riso atravessa o osso.
Deciframos a descendência do vinho.
Os segredos não são contados
porque ninguém quer ouvi-los.
O lume raso do aposento é apanhado pela ave
a pousar o bule das penas na estante do mar.
Só na velhice acomodo a bagagem nos bolsos do casaco.
O suspiro é mais audível que o clamor.
Recusamos o excesso, basta uma escova e uma toalha.
Só na velhice os músculos são armas engatilhadas.
O nome passa a me carregar.
É penoso subir os andares da voz,
nos abrigamos no térreo de um assobio.
Pedimos desculpa às cadeiras e licença ao pão.
O ódio esquece sua vingança.
Amamos o que não temos.
Só na velhice digo bom-dia e recebo
a resposta de noite.
Convém dispor da cautela e se despedir aos poucos.
Só na velhice quantos sofrem à toa
para narrar em detalhes seu sofrimento.
O pesadelo impõe dois turnos de trabalho.
Investigo-me a ponto de ser meu inimigo.
Sustentamos o atrito com o céu, plagiando
com as pálpebras o vôo anzolado, céreo, das borboletas.
Só na velhice há o receio em folhear edições raras
e rasgar uma página gasta do manuseio.
Embalo a espuma como um neto.
Confundimos a ordem do sinal da cruz.
O luto não é trégua e descanso, mas a pior luta.
Só na velhice a forma está na força do sopro.
Respeito Lázaro, que a custo de um milagre
faleceu duas vezes.
O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto
com minha dor e discreto com minha alegria.
Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.
Envelheci,
tenho muita infância pela frente.

Fabrício Carpinejar
In Terceira Sede

Two Golden Daisies by Jo Parry

Adaptei-me.
Não consegui ser motivo
de escândalo,vítima
do ódio e da vingança,
não sofri nenhuma doença séria,
o atestado médico não passou de um dia,
não me cuspiram no rosto,
não me deserdaram,
não me apedrejaram,
não tive nome estranho.
Adaptei-me,
incopetente
até para a desgraça.

Fabrício Carpinejar
In Como no Céu

Study of Mimosa in Blue by Jo Parry


Um pouco de raiva não me fará mau
Há frutos que apodrecem
por excesso de doçura

*****

Minha caridade tolerava
teus amantes
como reencarnações atrasadas.

******

Harmonia é mais penosa do que o equilíbrio
Não posso ser pesado demais,
nem muito leve,
senão o vento não carrega.


Fabricio Carpinejar
In Como no Céu

09/09/2009


Foto de Monarcaxx no Flickr

Mal leio os jornais de manhã.
Fui me desinformando por completo,
eliminando a noção das enchentes, das calamidades,
dos crimes, o que me alojava no mundo.

Não tenho nada para conversar
que não seja escrito.

Prefiro comer em silêncio, como se estivesse pescando.

Ergo os joelhos na cama para acordar e volto a dormir.
O quarto já tem o cheiro de meu corpo.
Com o cinza fúnebre das tumbas,
as pombas arrulham nas telhas e não me dão paz.

Fracasso para poder contar aos filhos.
Pouco resta de minha intuição.
Aqui estou, como tu, cavando
uma posição para não morrer à toa.

Não há regresso possível sem que alguém fique.

Toco o sexo, toco, movido pelo tédio,
esperando uma explosão áspera,
o dobrar da seiva, toco, conferindo se respiro.

Quem não chegou a uma estação tarde de si
a pressentir que o último ônibus já passou?

Fabrício Carpinejar
In Como no céu/Livro de Visitas

08/09/2009


Foto de gwashley no Flickr

A DOR DO OUTRO

A minha dor, eu sei resolver. Ainda que seja a custo alto, sei resolver. Pode ser com um calmante, um trabalho físico, um desabafo. Pode ser mexendo na horta, organizando as roupas no armário, limpando a casa, xingando Deus, sei resolver. Ainda que demore, mas resolvo. O que não sei resolver é a dor do outro. Fico mudo, meu braço sobra, minha mão falta, minha boca treme algum vento sem força. A dor do outro não se comunica.(...)A dor do outro é neblina com a roupa presa nos galhos. A dor do outro é uma escada sem mureta, sem apoio. Uma escada desigual como a cintura ao dormir. A dor do outro me esconde, me segrega, me empurra com os cotovelos para onde não desejava voltar. A dor do outro me pede ajuda para não ajudar. É severa como uma verdade antes da morte, severa como uma mentira depois da morte. A dor do outro é banal, irrisória e tola para os que não mergulharam em dor. A dor do outro é hipocondríaca e carente aos que não enterraram seus pés ao correr.


Fabrício Carpinejar

20/09/2008



Foto de Renata Stoduto

SEGUNDA ELEGIA

Ser inteiro custa caro.
Endividei-me por não me dividir.
Atrás da aparência, há uma reserva de indigência,
a volúpia dos restos.

Parto em expedição às provas de que vivi.
E escavo boletins, cartas e álbuns
- o retrocesso da minha letra ao garrancho.

O passado tem sentido se permanecer desorganizado.
A verdade ordenada é uma mentira.

O musgo envaidece as relíquias. Os dedos retiram as teias,
assisto à revoada de insetos das ciladas.
Fujo da claridade, refulge a poeira.
O par de joelhos na imobilidade de um rochedo.

Reviso o testamento, alisando a textura
como um gramático da seda.
Desvendo o que presta pelo som do corte.

O que ansiava achar não acho
e esbarro em objetos despossuídos de lógica
que me encontram antes de qualquer pretensão.

O que fiz cabe numa caixa de sapatos.

Colecionava talhos de madeira, bonecos
adornados com a ponta miúda do canivete.
Lá estava um dos sobreviventes, desfocado,
vizinho das medalhas escolares
e dos parafusos condoídos de ferrugem.

Um auto-retrato não seria tão fidedigno.
Eu era aquela frincha de chão florido, casca e húmus.

Quantas foram as miudezas que não combinavam
com o conjunto e, na falta de harmonia,
abandonei no depósito da infância?

E se faltou confiança para restaurá-las ao convívio,
faltou coragem para excluí-las em definitivo.

Somos o desperdício do que estocamos.
Não aprendemos a desaprender.
Não doamos nada, nem a palavra passamos adiante.

O porão tem vida própria e respira
o que jogamos fora.
O que refugamos na ceia volta a nos mastigar.

Tudo pode fermentar: o forro, os passos, o odor do braço.
Tudo pode nascer sem o mérito do grito,
como um murmúrio ou estalar de um abraço.

Tudo pode nascer, ainda que abafado.

Fabrício Carpinejar
In Terceira Sede

19/09/2008


Foto de q8 girl

Não te compreender
Não me fez te amar menos.

Completo as palavras cruzadas
com a ajuda dos resultados.
Leio um livro
que não é lançamento.
Roubo a cerveja separada
para a visita.
Assisto a um filme no escuro.
Telefono sem pretexto.
Os bolsos do meu casaco
formam meu diário.
Não sofro de pudor
e desfalco minha pobreza.
Esforço-me agora
para desaprender.

Fabrício Carpinejar
In: Como no Céu

Foto de Márcia_Marton

Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo.

Fabrício Carpinejar