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16/07/2011

A JANELA


À minha mãe, Nair Rossetto

Da janela
Transcendentalmente saem olhos
Aos quatro cantos da imaginação.

Dos olhos
Saem lágrimas
– não sei se é
Por nada entender
Ou por entender tudo.

A vida passa defronte à janela
E os olhos veem o mundo
Nas asas da imaginação.
E as pessoas que passam
Não veem a janela
E muito menos os olhos.

Da janela,
Retangularmente, ela vê o mundo:
Um mundo sem emoção.
Sofrendo por dentro
Só lhe abro e fecho a janela.
Como me dói o coração!

E de noite
(quando o mundo descansa)
Eu fecho a janela
E, por que não dizer,
 
Os olhos de minha mãe.
 
Luís A.Rosseto de Oliveira
foto de Mary Cassatt

12/01/2011

FILHO DOS ASTROS



Não sou filho do homem
Em todos os planetas.

Sou filho do sol
De todas as constelações.

O germe do trigo
Florescendo sem medo.

Voo livre no horizonte
Sem o tempo.

Luís A.Rossetto de Oliveira
Blogger A Rosa do Fim do Mundo

11/12/2010

O AMOR



O amor...
Não nasce assim... De surpresa.
Ele é fruto de sinceridades
Mutuamente sentidas.

É todo um magnetismo
Na ofuscante descoberta
Em que a cada troca de olhar
Verifica-se o amor crescendo.

Não é apenas um tocar.
É também um eterno
Pensar e sentir.

É todo um ato de confiança:
Um entregar por inteiro,
Sem ter que temer o falso amor

Luís A.Rossetto de Oliveira
In  A Rosa do Fim  do Mundo
tela de Gustav Klimt

29/11/2010

EMBALA-ME NO TEU COLO COM TERNURA ...



Minha alma anda presa
Neste verso que lhe escrevo.
Este sortilégio passageiro,
Traz o universo num pedaço
Na palma das mãos, faz sentir por inteiro.
Embala-me neste teu colo cosmogênico
No frescor do sentir do eterno:
Em vão não são as palavras ditas aos ventos
Aquelas impregnadas por sentimentos,
Da razão do pensar e emana
O elemento essencial de que somos feitos.

Luís A.Rossetto de Oliveira
In A Rosa do Fim do Mundo
foto de  kaycatt*  no Flickr

15/11/2010

O INEXISTENTE



Nestes dias vindouros, onde o tempo
Ainda não ousou nos possuir.
Sendo a matéria apenas uma ilusão,
Teimosamente, tentando existir.
Tendo a vida não ainda concebida:
Como um singelo poema nunca lido.

A vida... Este mistério profundo.
Como o buquê de um vinho raro
Somente apreciado pelos deuses
(Guardado num canto esquecido),
Sabemos a existência do seu eterno aroma
Porém, nunca será intensamente sentido.

Posto como cálidas esperanças
Como num dia, preparando o futuro,
E que nunca serão possivelmente vividos,
Ou quem dera, nunca deveriam ter sido.
Restando somente a tola saudade:
O presente sem o agora não existe.

Luís A.Rossetto de Oliveira
foto de  doug88888 no Flickr

17/10/2010

O ACASO!



Esta efêmera paixão alada sem destino.
Corriqueiro andar dos desatinos olhares,
Nas sombras dos passar das horas sem motivos:
Ficando somente a vontade abrupta de apreciar
Momentos por outrora jamais vividos.

No balbuciar dos lábios que ensaiam
Eternamente um ligeiro sorriso...
Esta é a nossa descomunal sina:
Neste andar peregrino, com esta humana veste,
Desta mortal carne que perece a cada dia!

Oh! Paixões, olhares, lábios invisíveis:
Vem no passar das horas sem avisos,
Destroçar algoz, encantos de meninos,
Dilapidando sonhos impossíveis
Enchendo a alma de saudades:

De coisas, por fim, não vividas!

Luís Antônio Rossetto de Oliveira
In Solitude
tela de  Odilon Redon

O SOL



 
Democraticamente... Aparece
Num céu anil, sem fronteiras,
Sem querer nada em troca.

No momento certo... Aparece
Como se soubesse
Que é indispensável na alma
E no metabolismo.

Transformou a noite em dia
E, como se não bastasse...
Fez de lambuja, depois da chuva,
Um arco-íris.

E a rosa
Que não queria abrir, abriu.
E o passarinho
Saiu do ninho cantarolando,
Partiu...
E o dia que era triste
Ficou alegre,
Apesar de tudo.

E o Sol
Ainda brilha,
Apesar de tudo.
 
Luís A.Rossetto de Oliveira
tela de Pablo Picasso

06/09/2010

TERRA



Nave astro terra.
Nave viva de luz.
Feito quimera,
Nos acolhe e conduz.

Nossa nau perdida
Debulha na ira,
Como despedida
Sem porto, sem mira.
Despertando ainda
Longe se vai, enfim:
O sonho não finda,
Apesar do seu fim.

Luís Antônio Rossetto de Oliveira
tela by Sir Edward Burne-Jones
Earth Mother, 1882

16/08/2010

METAMORFOSE


Tenho no olhar o passar de mil eras
Já fatigadas de tantas esperas.
E, apesar de tudo isso, tenho todos
Os sonhos de um mundo se eclodindo.

Não se apegar em nada?
Tudo é implacavelmente perecível,
Como num ranger de porta
E ver o abismo escondido.
Eras e eras se consomem
– eras que a vida tem.
Melhor coisa neste mundo
É não gostar de ninguém.

A caminhada que se faz só é injusta,
E abandonado não se apercebe foragido
De sua própria lucidez abstraída
Inventada por um Deus invisível.

Será que este destino é o fim?
Que o homem seja digno do cosmos,
Perpetuando-o e, nesse viajar,
Deixando rastros de estrelas.

Luís Antônio Rossetto de Oliveira
tela Leda by Gustave Moreau

14/08/2010

A VONTADE DE TER DEUS NO CORAÇÃO



Sinto Deus em todas as coisas
Que teimosamente vejo.
Em quase tudo que vejo, sinto Deus
Nas coisas que teimo ver.

E noutras apenas tento perceber
A sua preciosa ausência
Nas injustiças feitas pelos homens
E pela natureza, como num tufão
Fumegante de lavas num infinito
Armagedom de pesadelos,
Soando como trombetas enlouquecidas
Nos meus humanos tímpanos displicentes,
Parecendo o juízo final dos meus lamentos.
Sinto Deus em todas as coisas
Que teimosamente vejo.
Em quase tudo que vejo, sinto Deus
Nas coisas que teimo ver.

Vejo, noutras, as planícies à luz dos justos,
Daqueles que pregam a paz, e neles percebo:
Estão sendo coroados e ungidos de bons sentimentos.
E cultivam infinitas esperanças e carregam
Intuitivamente, constelações de bons pensamentos,
Como num inesperado batismo, no rio Jordão:
Onde encontramos o significado da palavra amor
Em sua plena manifestação universal
Da eterna esperança da humana convivência.

Luís Antônio Rossetto de Oliveira
tela  by Ferdinand Victor Eugene Delacroix

AO ENTARDECER



Éramos tantos, e infinitos
Sorríamos sempre ao poente
Esperando outro amanhecer
E íamos alegremente, destemidos,
Ao desconhecido, na razão de ser.

Éramos tão confiantes
Que enamorávamos ao entardecer.
Mas findou o sopro da aurora
Trouxe a abrupta escuridão
Espantando nosso bem querer

Luís A.Rossetto de Oliveira,
Tela by by Florene M. Welebny

24/07/2010

CANTO DA TERRA VIAJANDO



As flores do mal não brotarão
Sob os teus olhos inocentes,
Nem os sacerdotes do medo
Abafarão com seus cânticos
Os hinos de liberdade.
Nem as profundezas da escuridão
Conterão as luzes dos teus olhos:
Plantadores de quimeras.
Seguiremos impassivelmente,
Apesar das inesperadas tormentas
Nesta nave celestial, errante
- Singrando este divino oceano,
Indo de encontro ao porto seguro
Do seu coração de eterna criança
 
Luis A.Rossetto de Oliveira
Tela by Bartolome Esteban Murillo

21/07/2010

NASCEMOS CASULOS MORREMOS BORBOLETAS



"Sombra convertida em lúmen.Palavra-carvão que, do longo sono da terra,
Acorda de repente diamante.”
Fernando José Karl

Não estarei no comboio dos suicidas,
Dos desvalidos: os sem-esperança...
Minha causa se faz como uma busca
Incansável dos sonhos impossíveis.

Neles estão contidos todos os segredos
Eternamente escondidos, como desatinos.
E nem por isso me renderei ao acaso,
Não sendo refém do meu destino.

Estarei muito além do encontro súbito
Dos fenômenos, incompreensíveis,
Sendo que ocultam nossos pensamentos,
Deixando-os em lugares indefinidos.

Fomos, senão, apenas como lírios
ao relento... sendo meros sobreviventes
Postos inesperadamente aos ventos,
Sem nos perceber, à mercê da sorte.

Sendo o que fica realmente...
Apenas os polens a flutuar:
E viramos sementes, em busca
Do solo fértil novamente.

Luís A.Rosseto de Oliveira
In Solitude
tela Ana Luisa Kamiski

20/07/2010

ARGONAUTA DE MIM



Minha alma é um lago
Que nenhuma nau singra
E a intenção de onda
Dispersou-se antes da vinga.

Tantas vezes fingi sentir
Fugir dos próprios sentimentos:
Os pensamentos que vem
Sem sentir pena de mim.

Queria eu ser uma nau
A singrar mares sem fim.
Argonauta solitário, a esperar:
Retardando a esmo o meu fim.

Luis A.Rossetto de Oliveira
In A Rosa do Fim do Mundo
Tela by Guy Fontdeville

ACÁCIA DOURADA




"Minas é uma palavra montanhosa"
Drummond

A Antônio e Emília Rossetto, meus avós, in memorian.

Extasiante acácia dourada do brejo mineiro,
No chão de minha terra goteja
O suor do povo moreno...
Oh! Imensidão, transbordante do céu,
Enchente, num Big Ben de estrelas.
No barulho do grilo, no mato, cantante traz
O cheiro da terra, num balbuciar de contentamento.
E deitar sob a lua, trazendo pontos distantes
Confundidos como vagalumes da roça
Entre o frescor das ervas, feitos lampejos.
Rememorando os cantos da minha infância,
Tão perto e distante ao mesmo tempo,
Pouco a pouco se esvai e se apaga
Na memória do meu silêncio.

Luis A.Rossetto de Oliveira,
In A Rosa do Fim do Mundo
foto da Galeria de Fernando Campanella no Flickr

POUSAM OS ASTROS EM MINHAS MÃOS




“Morre-se pra durar.”
Vicente Cechelero

Ó constelar sensação do efêmero,
Vem meteoricamente do infinito:
Quero beber todas suas estrelas!
Numa bodega com Rimbaud e Pessoa.

Num trago áspero e mortal
Na esquina do mundo, na beira do Zênite
Contemplando o passar dos astros
E nossas eternas musas.

No final dos tempos, ainda não vividos,
Embriagar-nos-emos da lucidez absurda
Sem ter pena deste pobre corpo,
Desta matéria vã e finita.

E depois sairemos caminhando pela areia,
Nesta plenitude, na comunhão do êxtase,
A seguir passos já marcados pelo relógio
Previsível e irreversível do tempo...

Sentindo o frescor das espumas das ondas
Espraiando-se ao redor deste mundo,
Do mar que banha este véu intergaláctico
A que nós humanos, chamamos de imensidão.

Luis A.Rossetto de Oliveira
In A Rosa do Fim do Mundo
foto da Galeria de Ilikethenight