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30/03/2011

EM SILÊNCIO













 


"Bien souvent le bonheur est fils de I'ignorance"
(Justin Lhérisson)


Quando fores de vez, entediado
Desse excesso de amor, quando, tentado,
Preferires a tua liberdade,

Não me digas adeus, com frases doces,
Não me peças perdão, como se fosses
Torturado de angústia e de saudade.

Ao contrário, eu te peço, vai silente,
Sai do meu coração tão levemente,
Que eu nem chegue a saber que te perdi.

Houve no meu amor tamanho encanto,
Falseei tua imagem tanto, tanto,
Que o homem que tu és, nem conheci.

Alba Saltiel Bianco
In Música ao Vento
foto por Nison Domingos

26/03/2011

AMOR E FILOSOFIA






















"... porque o amor procede de Deus e em Deus só
pode descansar, acima de todas as criaturas."
(Tomás de Kempis)


A dor somente existe.O mundo é sonho,
Pesadelo terrífico, medonho,
Que os bons assusta e aos maus parece breve,
Porque a alma imortal neles se atreve
A duvidar de Brama.

Se a dor existe, o meu amor é certo,
Como o pranto de Buda, no deserto.

***

A voz de Tao é a mesma voz da Esfera.
É ying, é yang, e um dia era
O caminho dos astros, a Harmonia,
A suprema beleza que existia,
O Deus de Lao-Tsé.

E o Inominável Tao reside inteiro
No meu amor, que é puro e verdadeiro

***

Foi Platão que sonhou: um dia justo,
O domínio do Bem, sereno e augusto,
Paraíso ideal que copiamos,
Na terra hostil e dura em que moramos,
Sendo o Mal nosso rei.

É o Toposnoétós é o amor profundo,
Que só por Ti criei dentro do mundo.

***

A Kaaba resiste. Allah é forte,
E a voz de Mahomet venceu a morte,
Falando, nas suratas do Korão,
De um futuro mais belo para o Islão
...Sr Kismet permitir.

E o meu amor, obstinado e crente,
É como os mafomanos do Oriente.

***

Mas a voz de Jesus, tão doce e grave,
Trouxe a revelação de um Deus suave,
De céus mais altos e ideais serenos,
Para os justos, os simples e os pequenos,
Que o mundo torturou.

E o meu amor, se sofre e se padece,
Não invoca Platão, nem Tao, nem Buda,
Curva a fronte de manso para a prece,
Porque dói mais uma agonia muda.

"Muktub" jamais meu pranto diz.
Suspira, cristãmente: "Deus o quis."

Alba Saltiel Bianco
In Música ao Vento
tela de Peter Paul Rubens

SE...



 











 

"Se quem confia em ti encontra mais que a conta"
(R.Kipling)

Se um dia me perderes, se algum dia,
Coração torturado, alma vazia,
Lamentares o pouco que vivi,

Se lembrares o amor que te ofertava,
Pendulária que fui, quando te dava
Muito mais do que sempre recebi,

Fica sabendo que, na eternidade,
Não me comoverá tua saudade,
Nem flores sobre a minha sepultura.

Se quiseres ser bom, eis o momento.
Depois de morta, quero esquecimento,
Que tardio remorso o mal não cura.

Alba Saltiel Bianco
In Música do Vento
foto de Francesco di Bellinzona (www.delprete.ch)

23/03/2011

OFERENDA
















"Guardaste nas tuas  mãos cada instante da minha vida"
 (Rabindranath Tagore)


Gostaria de oferecer-te algo
Que fosse grande e belo,
Esquisitamente  suave,
Absolutamente original.

Alguma coisa inútil
Como os meus pensamentos,
Imponderável como os meus desejos
E incompreensível como o meu amor.

Alguma coisa que te falasse de mim
Como uma fábula antiga,
Sem imagens sonoras,
Sem ideias brilhantes,
Mas cheia de moralidade.

Alguma coisa que te acompanhasse em silêncio,
Que vivesse contigo,
Sem deixar de ser minha.

E foi por isso que te ofereci,
Como uma dádiva suprema,
Como uma oferta imcomparável
- a minha ausência.

Alba Saltiel Bianco
In Música do Vento
foto de woolyboy

O TEMPO























"E o corvo disse: "Nunca mais."
 (Edgard Poe)

O tempo passou por mim,
Alterando os meus planos,
Modificando as minhas aspirações,
Fazendo da minha vida
E de todos os meus sonhos
E de todos os meus amores
Uma coisa medíocre.

Pingou banalidade e lugares-comuns,
Na minha inteligência,
Na minha alma
E no meu coração.
Alterou a forma do meu corpo,
A estrutura das minhas células,
As linhas do meu rosto,
As crenças da minha ingenuidade
E o meu próprio caráter.

E o tempo, que não respeitou nada,
Nem os meus defeitos
Nem as qualidades dos outros -
Esse tempo que deteriorou todas as alegrias
E tornou ridículos todos os martírios,
O tempo todo-poderoso
Não conseguiu ensinar-me
A arte de esquecer.

Alba Saltiel Bianco
In Música do Vento
foto de  woolyboy

LIÇÃO PROFUNDA

















'Lembra-te sempre que na noite escura,
Até a tua sombra te abandona."
(Humberto de Campos)


Ouve, menina, esta lição da vida,
E guarda para sempre o que ela encerra:
A mulher mais feliz é a mais fingida
E o amor mais belo é o que não há na terra.

Evita essa expressão tão comovida
E na tua vaidade o sonho enterra.
A quimera falaz é a mais querida
E aquele que mais sente é o que mais erra.

Pinta a boca e sorri. Tudo se acaba,
O mais nobre ideal por fim desaba
E o bem que mais se quer vive um segundo.

Ilude a todos. Ama a ti  somente,
Pois ocultar aquilo que se sente
É demonstrar que se conhece o mundo.

Alba Saltiel Bianco
In Música do Vento

20/03/2011

DEUS




















'Bem-aventurado, Senhor, os que habitam em tua casa."
( Davi - 'Salmos')


Um estrela, talvez, o odor suave
De uma rosa em botão.Um canto de ave,
Refulgência de sol, nágua parada.

Oceano em tormenta.Um riso claro
Ou gesto de bondade, estranho e raro,
Iluminando as trevas da jornada.

As notas de um piano, em rua morta,
Plenilúnio estival que se transporta
Entre nuvens de prata iridescente.

"Guernica" de Picasso. Poesia.
De Beethoven a Quinta Sinfonia
- Para mim isso é Deus Onipotente.

Alba Saltiel Bianco
In Música do Vento
tela de Anders Gisson

19/03/2011

SABEDORIA
























"É a alma que torna ricos os homens"
(Seneca)


Aprendi a viver. Sei finalmente
Chorar sozinha, rir intimamente,
Guardar para mim mesma o que me importa.

Adquiri a força dos que esperam
O mal somente pelo bem que deram,
E sabem que o direito é letra morta.

Adquiri também sabedoria
Para encontrar em Deus minha alegria,
Para Nele buscar socorro e exemplo.

Sei distinguir os fariseus e os crentes,
Justiça e leis, resíduos e sementes,
O ritual e a solidez do templo.

Sei que a alma da planta, do minério
Alma humana serão, nesse mistério
Que liga céu e inferno - a Evolução.

Sei também que algum dia nós seremos
Anjos - pura energia! e esqueceremos
O desespero da transmigração.

Esqueceremos formas evasivas
De granito ou hiena, e as redivivas
Almas de cardos, homens e chacais.

Energia seremos, força pura,
Movidos pelo anseio que se apura
No ímpeto de alçar-se sempre mais.

Liberdade infinita! Suma glória.
Por superar a angústia transitória
De ser matéria bruta, em dor perdida.

Eis tudo o que concebe - o sonho casto
De pureza maior, poder mais vasto,
Para servir a Deus, além da vida.

Alba Saltiel Bianco
In Música do Vento
tela John Singer Sargent

É SÓ POR ISSO




















"No deserto a cantar a canção mais sonora
 Muda-se em paraíso o deserto de outrora."
 (Omar Khayyam)


Claro que sei por quê. Se existe cor,
Perfume, ressonâncias, luz e flor,
É só porque te amo. É só por isso.

Refulgências de estrelas, sinfonias,
Clarões de raios sobre penedias
Não os percebe um coração omisso.

Arco-íris no céu, luar de prata,
Serenatas de pássaros na mata,
Tremulinas, em mar encapelado,

Leves sons de balada, o sol poente,
Um riso de criança, e o envolvente
Perfume de uma rosa, enfeitiçado,

Tudo isso, bem sei, não existira,
Se o mortal coração jamais sentira
A vibração do amor, maior que a morte.

O que existe de bom, de belo e puro,
No deserto da vida, amargo e duro,
É milagre do amor, domando a sorte.

Se inspiração existe, se há beleza,
Se em destinos humildes há grandeza,
Amor, por certo, opera essa magia.

Foi ele que criou céu, terra, inferno,
O espaço infinito, o tempo eterno...
- antes de haver amor, nem Deus havia.

Alba Saltiel Bianco,
In Música ao Vento
tela de Maurice Prendergast

DELÍRIO AZUL
























 " E flores verdes no ar brandamente se movem:
   Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
   Em esmeralda flui a água verde do rio,
   E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem..."
   (Olavo Bilac)


   Azul a tarde, azul o céu e o mar,
   Azul o tempo, que não vai passar,
   Enredado na trama opalescente.

   Azul o teu olhar, meu sonho louco,
   Essa ventura que durou tão pouco,
   Esta saudade que me torna ausente.

   Lividez de turquesa e água-marinha,
   Na visão de berilo, que é só minha,
   Em nuanças de índigo delira.

   Heráldico pavés, em blau tingido,
   O mundo se desfaz em colorido,
   Lápis-Lazuli, em campo de safira.

    Alba Saltiel Bianco
    In Música do Vento
    tela de Pierre Billet

EM SURDINA
























"Chacun de nous a sa blessure; j'ai la mienne.
 Toujours vive elle est là, cette blessure ancienne."
 (Rostand)


Ouve. É tão tarde! A música do vento
Embalou-me, de leve, o pensamento
E fez-me, sem querer, pensar em ti.

Lembras? Reinava em torno a primavera
Tu foste bom e crente, eu fui sincera,
Áureo sonho de amor, que não revi.

Depois... Que importa? O mundo permanece,
A vida segue e um dia, a gente esquece
Aquilo que supôs nunca ter fim.

As estações variam, correm anos,
Multiplicam-se os nossos desenganos,
Que a lei universal ordena assim.

Mas, se tudo morreu, por que agora
Eu, que desprezo o coração que chora,
A uma saudade inútil sucumbi?

Ouve e perdoa. É a música do vento,
Que me embala de leve o pensamento
E faz-me, sem querer, pensar em ti.


Alba Saltiel Bianco
In Música do Vento
Tela de Claude Monet