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06/06/2009


Foto de kaycatt*

SOBRETUDO

Quero te amar
Nas palavras que tu vais,
Pacientemente, me revelando,
Mas, sobretudo, na surdez
Com que interrompes minha fala.

Quero te amar
Na presença com a qual
Vais me consumindo,
Mas, sobretudo, na ausência
Que me dilacera.

Quero te amar
No amor que tu me devotas,
Com solicitude,
Mas, sobretudo, na indiferença
Que me vilipendia.

Quero te amar
Nas verdades que,
Maliciosamente, me escondes,
Mas, sobretudo, nas mentiras
Que me deixam nu.

Quero te amar
Nas cheganças inesperadas
Que me aquecem,
Mas, sobretudo, nas esperas
Que me torturam.

Quero te amar
Sempre que quiseres
Que eu te ame,
Mas, sobretudo,
Quando não quiseres.

Quero te amar
Sempre que eu puder
Te amar,
Mas, sobretudo,
Quando eu não puder.

21/05/2009


Foto de Henri Bonell

VIDÊNCIA

Vejo que tua chaga já não sangra
Enquanto a minha verte sangue.

Pois é, dizem que a vida é assim mesmo:
Uns choram, outros riem e alguns morrem.

Mas há o futuro que ninguém conhece;
Quem chora, dizem que rirá
E quem ri, dizem que chorará.
Pois bem, mas o que dizem dos que morrem?

Renascerão das cinzas e dos escombros
Como uma paisagem colorida de esperanças,
Sem limites, sem horizontes, sem sombras,
Vagando leve, sem o peso do presente?

Oswaldo Antônio Begiato

27/01/2009


Foto de Rodrigo Moraes

BARRO E SOPRO

As pessoas
intensas
imensas
e densas
são feitas
de barro,
de sopro...

De barro
para que as
sementes
germinem.

De sopro
para que as
sementes
se espalhem.

Tudo mais
é pedra,
é vácuo.

Oswaldo Antônio Begiato

07/01/2009


Foto de * Nina *

RONDEL A MEU AMOR

Eu te amo com a alma cheia de esplendores
Nos cantos mais obscuros do infinito;
Eu te amo com a intensidade das dores
Que me deixam inconsequente e aflito.

E dos sonhos que tive de amores
Tu és a que vens cumprir o escrito,
Como o orvalho rouba frescor das flores
E a eternidade tudo que é finito.

Como não sei fazer um verso bonito,
Para aliviar teus doidos temores
Apenas repito o que tenho dito:
Eu te amo com a alma cheia de esplendores
Nos cantos mais obscuros do infinito.

Oswaldo Antônio Begiato

16/11/2008


foto de Foto de zenera

MEUS DIAS

No dia em que a Felicidade bater
À porta da frente de minhas constâncias
Eu já não estarei mais dentro:
Terei saído de mudança
Pela porta dos fundos.

Mas Ela encontrará tudo arranjado:
O chão limpo e encerado,
A louça lavada e guardada,
As camas perfumadas e estendidas,
As coisas alinhadas e sem pó,
A alma livre e serenada.

Esquecerei então que um dia fui
Pedra selvagem e estrela cadente,
Carvão e diamante,
Esterco e pétala,
Corcunda e asas.

Serei uma gota de orvalho cristalizada
Que o destino quis como pingente
Adornando a garganta da eternidade.

Oswaldo Antônio Begiato

14/10/2008



BAILARINO

Minha mãe tinha uma caixinha de música
onde uma pequenina bailarina cor-de-rosa
feita de porcelana frágil,
cabelos presos na cabeça
e usando sapatilhas transparentes,
enquanto tocava Brahms Lullaby,
dançava,
dançava,
dançava...
...diante de um espelho que a multiplicava.

Eu menino,
com olhos de bailarino
feito com uma alma frágil,
com a cabeça na lua
e os pés nas nuvens,
olhava,
olhava,
olhava ...
...aquela ternura encantadora que me dividia.

Embriagado por sonhos apaixonantes
não percebia o tempo passar
por entre o bailar da bailarina que não crescia
e o bater de meu coração inocente que amadurecia.

Encantado, fiquei cronicamente doente de amor;
e até hoje tentam me curar essa doença,
essa doce e meiga doença.

Mas eu não quero ficar curado.

Oswaldo Antônio Begiato

04/10/2008


Foto de Luigi

IMORTAL

Imortal
É quem saber ler os lábios,
Obedecer aos olhos,
Ouvir o silêncio interior
E arrepiar a pele sem tocá-la.

Imortal
É quem sabe beijar sem boca
Nas horas mais agônicas da vida,
Inebriar-se com paisagens alheias
Mesmo com vendas escuras nos olhos,
Abandonar o sono letárgico
Sem a ajuda cruel do despertador,
Deixar-se penetrar sem fendas
Como óvulo à mercê do espermatozóide.

Imortal
É quem sabe amar sem coração.
É quem sabe perdoar sem penitências.
Escrever sem palavras.
Perdoar sem crença.
Rezar sem fé.
Ensinar sem nunca ter aprendido.

Imortal
É quem morre à noite
Como um anão derrotado
E ressuscita na manhã seguinte
Como um gigante indomável,
Todos os dias,
O tempo todo.

Oswaldo Antônio Begiato

30/09/2008


by Leonardo da Vinci

MINH’ALMA

Minh'alma
de tão enclausurada
carrega aldravas em suas portas;

não permite a entrada de minhas queixas!

Por mais que eu queira libertá-la
não posso destrancar seus cadeados.
Está tão blindada
Que mesmo os teus apelos lhe são apenas sussurros;

e eu queria tanto te amar!

Oswaldo Antonio Begiato

Foto de k8_russell

LINDA ROSA AMÉLIA

lenda rasa Amélia,
lenda e rasa,
Amélia e rasa,
Amélia e linda;
amelindo,
amelindas,
amá-la sempre...
Amélia ou lenda?

linda rosa amarela,
linda e rosa,
amarela e rosa,
amarela e linda;
amar é lindo,
amarelindas,
amarelinda...
rosa ou amarela?

Ai, que vontade de voltar a ser garoto
e escrever versos rotos e marotos!

Oswaldo Antônio Begiato

26/09/2008


DIREÇÕES OPOSTAS

E pensar que quando arrumei a mesa
Com pratos de porcelana japonesa
(rasos e fundos),
Toalha fina de linho branco
(que eu mesma fiei),
Talheres de prata polidos
(com arabescos entalhados),
Taças artesanais de cristal
(presente de minha mãe),
Guardanapos de fio raro
(com nossas iniciais bordadas),
Velas acesas e incensadas
(luz única a nos separar),
Vinho tinto envelhecido
(“in vino veritas”),
A mais requintada comida
(que eu mesma semeei),
E muitos olhares enternecidos
(que meu coração disponibilizou)
Eu só queria fundir teu abraço
a meu peito ofegante.

Mas tu...
(tu só querias
mudar minhas direções
e perpetuar nossa distância.)

Oswaldo Antônio Begiato

Madonna and Child by Sandro Botticelli

PEDIDO INSTANTE

Todos os dias, logo pela manhã,
Quando me ponho a caminhar
Em silêncio e em contemplações
Peço a Deus pelas pessoas que amo.

Peço a Ele que, como Deus, conceda a elas saúde.
Saúde do corpo. Saúde da mente. Saúde da alma.
Mas se for necessária a doença, por questões d’Ele,
Que dê a meus amigos forças para suportá-la.

Agora, se as forças se esgotarem por falta de músculos
Peço que coloque ao lado delas os músculos rígidos
De corações disponíveis e corajosos
Para lhes servir de sustentáculo. De tabernáculo, talvez...

Se mesmo assim, a dor for invencível,
Que permita a elas, o mais breve,
Irem descansar serenas e eternas,
Com suas almas puras, ao lado d’Ele.

Se a vida terrena, prelúdio da vida eterna,
É um vórtice de sofrimentos, que a morte não o seja.
É isso que peço todas as manhãs.

Não peço essas coisas
Ao deus fraco que as religiões inventaram para si
Nem ao deus fácil que eu inventei para mim;
Peço sim, humildemente,
Ao Deus intrigante e irrequieto,
Que teve a audácia de me inventar.

Oswaldo Antônio Begiato

25/09/2008


Liebende in Vence by Marc Chagall

ESPALHADA

Hoje não temos frases
Para dizer o quanto nos amamos.
Mudos, espalhamos palavras
Que outrora nos habitaram.

Hoje não temos imagens
Para mostrar o quanto nos desnudamos.
Cegos, espalhamos espelhos
Que outrora nos refletiram.

Hoje não temos espantos
Para provar o quanto nos surpreendemos.
Estáticos, espalhamos espantalhos
Que outrora nos esconderam.

Somos todos
estranhos, ridículos,
mal feitos e desajeitados,
mas imensamente belos,
espalhando palavras
espelhos e espantalhos.

Oswaldo Antônio Begiato

24/09/2008


Pals by Alexander Millar

POUQUIDÃO

Dar-te-ia pétalas d´uma avenca preta
E a mais preguiçosa estrela do universo
E dar-te-ia a magia d´um cometa
E o maior diamante na terra imerso.

Dar-te-ia o perfume de nossa gaveta.
Dar-te-ia tudo, mas ando tão inverso:
Sobra-me só o exprimir da caneta
Que me faz poeta sem muito verso.

Sou pobre, pobre... Sequer tenho alegria.
Quase nada sou. Quase sou indigente.
Mas nos meus trapos eu te amo todo dia.

E por nada ter pra te deixar contente
Dou-te então o arroubo de minha poesia:
- É só o que tenho pra te dar de presente.

Oswaldo Antônio Begiato

18/09/2008


Ophelia by Arthur Hughes

FLORES

Devolvo-te as flores
que, escondido
enquanto a noite
enchia-se de estrelas
e tu de sonhos,
roubei de ti
para me perfumar,
Jardim Perfumado
que és.

E agora,
já perfumado de deusas,
devolvo-as
com o néctar
que emprestei
das abelhas rainhas
e com os beijos meus,
cuja fórmula doce
aprendi com o beija-flor.

Devolvo-as sem mais nada.

Apenas
espero que o silêncio
acomode-se entre os vácuos das palavras
e os sentidos as transparentem.

Oswaldo Antônio Begiato

17/09/2008



DENTRO DOS OLHOS

De onde será
Invento os sonhos que não tenho?

De palavras bem ditas e mal ditas
Ao passar da leveza e da brisa
E por elas levadas?

De olhares intrigantes e deixados
Escondidos atrás da porta
Que o vento fechou?

De gestos ímpios e invisíveis
Gravados no deserto da alma
Que as tempestades apagaram?

De onde será vêm
Os sonhos que não consigo ter?

De mim mesmo
desenganado e fragmentado
Ou de minhas imagens
refletidas nos cacos do espelho
Que se quebrou de tantos desencantos?

Oswaldo Antônio Begiato

16/09/2008


by Raymond Leech

VANÍSSIMAS

É diante de vãs promessas
Que perco a minha fé.

É nas horas das vãs esperas
Que perco as minhas certezas.

É por conta das vãs desculpas
Que perco os meus sonhos.

Mas meus danos não me petrificam,
Não passam de secreções internas.

Amanhã volto a ser primavera de novo.

Oswaldo Antônio Begiato

14/09/2008


REGADIO

Por aqui, hoje sim chove,
Mas é uma chuva doce e necessária,
Como doce e necessária
Faz-se a solidão à minh’alma segada.

Havia muito pó pra pouca estrada,
Muita boca seca pra pouca água,
E muito germinar pra pouco regadio.

Havia muita presença pra pouco coração,
Muitas palavras pra pouco ouvido
E muito estorvar pra pouca paciência.

Tua perversa permanência nas minhas horas quietas
Saqueavam-me os horizontes lúcidos
Banindo-os de meus olhos rasos de regalos.

Foste fátua.
Sensata, foste.

Quero agora ficar só.
Cabeça entre as pernas.
Um meu abraço em mim mesmo
Abraçando pernas e cabeça.
Olhos cerrados.
Deixar que minha boca se umedeça
Com a chuva fresca que me faz germinar
E que minha alma se entorpeça
Pelo silêncio que me restou santo
Com tua partida tardia.
Com tua partida vadia.

Tenho por aqui chuva e solidão doces e necessárias.

Oswaldo Antônio Begiato

07/09/2008


Foto de Eduardo Azeredo

DENTRO DOS OLHOS

De onde será
Invento os sonhos que não tenho?

De palavras bem ditas e mal ditas
Ao passar da leveza e da brisa
E por elas levadas?

De olhares intrigantes e deixados
Escondidos atrás da porta
Que o vento fechou?

De gestos ímpios e invisíveis
Gravados no deserto da alma
Que as tempestades apagaram?

De onde será vêm
Os sonhos que não consigo ter?

De mim mesmo
desenganado e fragmentado
Ou de minhas imagens
refletidas nos cacos do espelho
Que se quebrou de tantos desencantos?

Oswaldo Antonio Begiato

05/09/2008


by Marc Chagall

TERNURA

Com as estrelas que deixei cair
de minhas asas de borboleta-transparente,
pedi à minha fada-madrinha
que bordasse, com linhas do infinito,
uma noite somente para meu amor.

E com as flores que deixei cair
De minhas folhas de violeta amadurecida,
Pedi ao meu anjo-da-guarda
Que bordasse, com linhas de eternidade,
Um céu branco e lilás
para ser o dia da noite do meu amor.

Oswaldo Antônio Begiato

Lost in Dreams I by Joani

NADA E TUDO

Nada do que fomos
foi apenas um apenas.

Nada do que tivemos
foi pouco de um pouco.

Nada do que fizemos
foi somente um somente.

Tudo o que somos
é tudo de nós mesmos.

Tudo o que fazemos
é sentir a falta do outro.

E a gente vai como Deus quer.

Oswaldo Antônio Begiato