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29/03/2012

PEQUENAS COISAS



Pequenas coisas, ninharias, nadas:
vestígios de pegadas nas areias,
restos d'ossos roídos e d'espinhas,
pétalas, folhas secas, conchas d'ostras,

seixos rolados,vidros de cor, penas
de pavão, xícaras partidas, cascas
d'ovo, papéis, pedaços de películas
onde pintei de som sete pedrinhas

Pequenas coisas tão reais e nítidas:
madeixas de cabelo num anel,
cartas d'amor; um postal azul,
dos mares do sul, com as últimas notícias:

uma palavra só, escrita na praia,
depois duma talhada de papaia

António Barahona
In Sobre um Abismo

16/10/2010

O SOM DA SOLIDÃO























O som da solidão engana tanto,
magnífico na música de gestos,
que fico cada vez mais surdo e sinto
a presença do som além dos versos

Dentro de mim eu oiço um som absorto,
rastros de vibração de sons dispersos
Dentro de mim apenas um som extinto
e, de sons reunidos, só uns restos

Passo o dia a pensar em ti nas trevas,
passo a noite a pensar em ti surpreso
de te encontrar na luz do meu murmúrio

E o som, que em mim, imenso, já não vibra
a muito custo silencia o núcleo
do som do pensamento só ausência.

António Barahona
In Sobre um abismo
tela de Richard S. Johnson
  

23/07/2010

RUA ÁUREA



























Noite: um pequeno gato amarelo
sentado à janela dum quinto andar
escuta embevecido o violoncelo
que no prédio em frente estão a tocar.

Revira os olhos em espasmos macios
lambe a barriga o sexo as costas
à sua volta muitos ratos e rios
sardinha peixe-espada pargos ostras

O músico e o gato: cidadãos
nocturnos marinheiros da Saudade:
duma janela à outra dão-se as mãos
e nasce o arco-íris na cidade.

António Barahona
In Sobre um abismo
Imagem by Klein & Hubert Bios

VERSOS E REVERSOS






















Quanto mais perto da morte
mais a vida se intensifica
Quanto mais perto da noite
mais o Sol eterno brilha

Quanto mais perto do pânico
mais a calma se acomoda
Quanto mais perto do pranto
mais o riso forte ecoa

Quanto mais perto do amor
mais o ódio se avizinha
Quanto mais perto do gozo
mais a dor se multiplica

António Barahona
In Sobre um abismo
Imagem by Assaf Frank

20/04/2010


foto by Ataim Adzam

A GRANDE OBRA

Saudade,oração,ternura - eis
o pão nosso de cada dia com
poemas à mistura de bom som
alto d'exaustos níveis d'alquimia

Mas só tanta grandeza, sem virtude,
é bem pequena coisa, bem pequena:
um grão d'areia numa praia ínfima,
entre os meus dedos alaúde enorme

Nenhuma arma branca de melhor
metal possuo ora na pesquisa
de saber quem sou eu em plena guerra
ungida santa por maior amor.

António Barahona
In Sobre um abismo

13/04/2010


Foto by kaycatt

E se o vento varrer as folhas secas sem deixar
nenhuma?

Este Outono ela não guardará folhas dentro dos livros
E ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
E ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo
no Inverno, à chuva, atrás dos vidros.

António Barahona
In Noite do Meu Inverno