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20/08/2012

OSSOS DO OFÍCIO



O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.


Mesmo o maior esforço não adianta:
da sensação à ideia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.


Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir – e aí está o fascínio –
com a rima atravessada na garganta.


Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não e o que se canta,


mesmo porque (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta


é o trambolho que menos se agiganta
nesse percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,


depois que a rima atravessa a garganta.

Paulo Henrique Britto
tela Debra Hurd
In Tarde, 2007

ESPIRAL



A noite é um morcego manso
sobrevoando uma cidade quase adormecida,
tomando cada rua, cada casa,

como um cheiro adocicado de fruta
quase apodrecida que penetrasse uma casa,
ganhasse cada quarto, cada sala,

como cheiro morno de coisa morta
ainda há pouco se espalhando
por uma cidade quase entorpecida,

como uma noite que descesse sobre casas
mortas, como uma peste,
como se nunca houvesse havido dia.

A noite é um morcego morto.

Paulo Henrique Britto
 In Liturgia da matéria, 1982
tela Debra Hurd

18/08/2012

MEMENTO MORI

I

Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.
Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.

II

Luz frágil que brota no breu
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,
luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,
luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras. 

Paulo Henrique Britto
In  Azougue
tela Irina Kotova