21/02/12

"EL CONDOR PASA"


Com dó maior, assisto
partir o grande pássaro.

Com alegria, vislumbro
um seu novo horizonte.

Com a enorme pena
dos humanos que não voam.

Com a imensa pena
dos que não o vêem,
escuto o vento roçar suas asas.

Com afoita clemência,
abrigo e misturo nossos olhos.

Com a enorme argúcia
dos que tanto sobrevoam;

Com a aurora e astúcia
dos que tanto despertam;
observo seu lento suave
planar sobre o vale.

Com dores e letras, desejo
partir soberano com o pássaro.

Com estranha mansidão,
grito e informo minhas penas:

Com a impávida altivez
e ousadia dos que suicidam

Com a tácita incerta alforria
dos que nos versos ressuscitam!

Ao fim e ao cabo de obscuras
esperanças, aprecio quando
El Condor Pasa e passeia
sua altivez - liberta e sagrada -
sobre os Andes Latinos!

*Jairo De Britto,
em  "Dunas de Marfim"
foto  Ivanuk

A MÚSICA DA TERRA



 A dor habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?

Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo - pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.

Urge romper o gosto, a morna límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.

E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino, qual se escuta,
na penumbra da alma, as duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.

Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não de mitos.
Há  que desmascarar nosso destino.

Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contigência,
nova música, ungida da tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.

Luta  o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços

da percepção,  e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados. 

À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhe o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.

Es nuss sein! É preciso! Na  amargura, 
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e a da alegria
resgatam nossa mísera passagem.

E entreaberta a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todo o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido.

para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.

Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.

Carlos Drummond de Andrade
In Discurso da Primavera e Outras Sombras



PASSADO


Temos que deitar abaixo do passado
 e tal como se constrói
andar por andar, janela por janela,
e o edifício sobe
assim, vamos descendo
telhas quebradas primeiro,
depois orgulhosas portas,
até que do passado
começa a sair pó
como se se batesse
contra o chão,
começa a sair fumo
como se houvesse fogo,
e cada novo dia
brilha
como um prato
vazio:
não há nada, não houve nada:
é preciso enchê-lo de novas e espaçosas
rações,
então, para o fundo
o dia de  ontem cai
à água do passado
como num poço,
à cisterna
daquilo que já não tem voz nem fogo.
É difícil
habituar os ossos
a perderem-se
os olhos
a cerrarem-se
mas
fazê-mo-lo
sem o saber:
tudo era vivo,
vivo, vivo, vivo 
como um peixe escarlate
mas o tempo
com a noite e um pano
foi apagando
o peixe e o seu tremor:
na água na água na água
vai caindo o passado
ainda que se agarre
a espinhos
e raízes:
partiu partiu e de nada valem
as recordações:
já a pálpebra sombria
cobriu a luz do olho
e aquilo que vivia
já não vive
e o que fomos já não somos.
E a palavra ainda que as letras tenham
iguais transparências e vogais
agora é outra e outra é a boca agora:
mudaram os lábios, a pele, a circulação,
outro ser ocupou o nosso esqueleto:
aquele que vivia em nós já não está:
partiu, mas se chamarem, responderemos
"Aqui estou" sabe-se que não estamos,
pois aquele que estava, esteve mas perdeu-se :
perdeu-se no passado e já não volta.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes

A PALAVRA


Nasceu
 a palavra no sangue,
cresceu no corpo sombrio, palpitando,
e voou com lábios e a boca.

Mais adiante e mais próxima
ainda, ela era oriunda
de pais mortos e de errantes raças,
de regiões que se tornaram pedra,
que se cansaram das suas pobres tribos,
porque quando a dor saiu ao caminho
os povos partiram  e chegaram
para semear novamente a sua palavra.

E assim, a herança é está:
este é o ar que nos comunica
com o homem enterrado e com a aurora
de novos seres que ainda não amanheceram.

Treme ainda a atmosfera
com a primeira palavra
engedrada
com dor e pânico.

Saiu
das trevas
e  até agora não há trovão
que troveje com a sua ferrajaria
com aquela palavra,
a primeira
palavra pronunciada:
foi talvez somente um sussurro, uma gota,
mais ainda se despenha a sua cachoeira.

Depois o sentido encheu a palavra.
Ficou prenhe e encheu-se de vidas,
tudo nascimentos e sons:
a afirmação, a claridade, a força,
a negação, a destruição,a morte:
o verbo assumiu todos os poderes
e fundiu-se existência com essência
na eletrecidade da sua formosura.

Palavra humana, sílaba, nádega
de longa luz e rija prataria,
hereditária taça que recebe
as comunicações do sangue:
eis aqui onde o silêncio foi integrado
pela totalidade da palavra humana
e não falar seria morrer entre os seres:
faz-se a linguagem da cabeça aos pés,
fala a boca sem mexer os lábios:
os olhos de repente são palavras.

Eu pego na palavra e acaricio-a
como se fosse somente forma humana,
as suas linhas extasiam-me e navego
em cada ressonância do idioma:
pronuncio e sou e sem falar o fim das palavras
aproxima-me do mais fundo silêncio.

Bebo pela palavra levantando
uma palavra ou taça cristalina,
por ela bebo
o vinho do idioma
ou a água interminável,
fonte materna das palavras,
e taça e água e vinho
tecem o meu canto
porque o verbo é origem
e cria vida: é sangue
é o sangue que expressa a sua substância
e está designada assim a sua evolução:
dão cristal ao cristal,sangue ao sangue,
e vida à vida, as palavras.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes
      

PARA LAVAR UMA CRIANÇA


Só o amor mais velho da terra
lava  e penteia a estátua das crianças,
endireita as pernas, os joelhos,
eleva a água, faz resvalar os salões,
e puro sai o corpo  respirando
o ar da flor e da mãe.

Ó vigilância clara!
Ó doce perfídia!
Ó terna guerra!

Já o cabelo era um emaranhado
tecido entrelaçado por carvões,
por serrim e azeite,
por fuligens, arames e caranguejos,
até que a paciência
do amor
institui os baldes, as esponjas,
os pentes, as toalhas,
e com âmbar perfumado, limpo, penteado,
com antiga parcimónia e com jasmins
ficou mais novo o menino todavia,
e soltando-se das mãos da mãe
correu a montar novamente no seu alazão,
buscando lodo, azeite, urinas,tinta,
ferindo-se e esponjando-se entre as pedras.
E assim recém-lavado salta o menino pró mundo
porque mais tarde só terá tempo
para andar limpo, mas já sem vida.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes

19/02/12

MADRUGADA CAMPONESA



MADRUGADA camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia-à-dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
No meu longe seringal.

Já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

Thiago de Melo
In Faz Escuro mas Eu Canto

NO FUNDO DA GARGANTA



Na mata o silêncio
cobre as folhas:
todas as palavras
que não foram ditas,
as que ficaram presas
no fundo da garganta
aqui habitam,
metade terra-metade ar.
As que mudariam
o rumo de uma  vida,
as que se perderam,
as que se desmancharam,
as que nem nasceram.

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola 
tela Evening Glow at Mono Lake, from Mono Mills, 1930

BORBOLETAS



Azuis e amarelas
borboletas preenchem o ar
que respiro
suas asas percorrem minha
pele,
entram em meu sangue,
deságuam nas mãos com que escrevo
este poema.


Roseana Murray
In Poemas para ler na escola
tela Metamorphosis Of A Metaphor - Duy Huynh

COMPOSIÇÃO


O  amor põe suas mágicas
em funcionamento.
O amor compõe, propõe, supõe,
indispõe e interpõe,
sua adaga entre o ser
e o vazio do vício
(a ser-viço do amor).

O amor compõe seus acídos
na linha mais ambígua
da mão, entre o desejo
e o tato, neste incêndio
propagante e terrível.

O amor dispõe seus plácidos
novelos enredados
e fio a fio supõe
sua mosca, seu tédio
e sua deslizante
atração de suicídio
e adultério.

O amor
propõe enigmas.Trans-
põe montanhas de sombras,
interpõe-se entre os seres
e apenas se indispõe
para compor de novo
sua casca e seu ovo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos
tela Second Embrace - Oliver Ray

15/02/12

POEMA SIMPLES



Deixa-me recolher as rosas que estão morrendo nos jardins da noite,
Deixa-me recolher o fruto antes que este volva as raízes da terra,
Deixa-me recolher a estrela úmida
Antes que sua luz desapareça na madrugada,
Deixa-me recolher a tristeza da alma
Antes que a lágrima banhe a pálpebra
Do orfão abandonado e faminto,
Deixa-me recolher a ternura parada
No coração da mulher que desejou ser mãe.
Deixa-me recolher a esperança dos que acreditam,
Recolher o que ainda não passou
E mais do que tudo dá-me a recolher
A palavra de amor e de doçura para que reparta
Com os ouvidos que esperam como uma gota de mel
Caindo na alma e no coração,
Como a única luz dentro de tanta escuridão.

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes
tela Arunas Rutkus - 1961

AS POMBAS




Vai-se a primeira pomba, despertada...
Vai-se a outra mais...mais outra...enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando, as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia
In Poesia
foto por  martynpearl

14/02/12

DO PORTÃO DA CASA



 
Abri o portão
O coração rangeu.
Rangeu
dentro de mim
e eu sorri

como um lavrador sorri
com seu rosto de terra
e a boca rasgada de riso
diante da terra lavrada.

Abri o portão partido. Partiu-me
em dois horizontes.
Em dois gomos de um fruto fugaz.
Igual e desigual.

Abri o portão da minha casa.
E a ferrugem (ou seria orvalho?)
desatou o nó da palavra
pendurada por um fio
no fundo da garganta.

Abri o portão da casa de minha infância.
Mapa dobrado dentro de mim
desdobrado,
mapa mudo
onde afundei
em areia movediça
palavra por palavra.

Abri o portão da casa.
A boca do jardim, a travessia
do mundo.
O tempo fendeu
dentro e fora de onde vim
e espatifou as asas de papel
que vesti em mim.

Manchei roupa, amor e ávidos tatos
em polpa de fruto proibido.

Puiu-se a pele nova na vivência,
no corpo dividido.
Entre sonhos, frêmitos, tristuras
e o real vivido.

Pois ainda que sonhe o tempo todo
ter o tempo de encontrar a verdade
em minhas mãos,
nada sei de mim
além de fotografias estampadas no jornal.
E pouca coisa mais saberei
ainda que acredite o contrário a cada instante
e que meu campo de batalha comigo mesmo
dure a vida inteira deste sonho
como dura o sonho a vida inteira
e, muitas vezes, se projete
além do horizonte aberto
do portão,
pouco mais ou nada mais
saberei.

A caixa vazia
de um velho relógio colonial
desliza sobre as águas do rio Itajaí-Açu
entre a lua cheia partida
e a nuvem veloz.

E todas estas palavras
e outras tantas nem escritas nem ditas
(esfacelada luz de uma estrela sem face nem foice)
fazem parte da minha biografia transparente.
Nada menos
nada mais.

Lindolf  Bell
In http://miradas.soylocoporti.org.br/tag/lindolf-bell/
tela Helen Allingham

SÓ ME RESTA CANTAR



Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.

Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.

Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?

Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra  tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,

são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que  elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?

O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente -  dos suicídas.

Cassiano Ricardo
In A Difícil Manhã

13/02/12

ENTRE OS PÁSSAROS...



Entre os pássaros se esgueiram
como se deixassem na sombra

Os perfis de seda
não de aves, mas de anjos:
não anjos expulsos por perfídia
mas desejosos de caminhar pelos caminhos
a modo de homens  isentos de cansaço.
Anjos que crianças veriam
sem medo, a elas semelhantes.
Mulheres sonhadoras os julgariam
amados ausentes enfim reencontrados

Não se despedem, sussuram melodiosamente:
- Junto à fonte estarei e tu, comigo.
Há que esperar. Tal beleza os reveste nesse instante
que desviamos  o olhar.

Dora Ferreira da Silva

AS CANTIGAS DO TEMPO


As cantigas do tempo que me envolvem
não são apenas as que me envolvem,
serenas, às ondas do mar de Vigo.

Vêm de eidos, eiras, muros e travessas,
formam de um puzzle as incontáveis peças,
mas me rondam e estão sempre comigo.

Não são distantes peças de antiquário
ou jazigos de um parque funerário.
São estufas repletas de ar amigo.

A música do tempo me transporta,
como um menino, à intransponível porta
que se antepõe ao amigo e leva ao tigo.

Essa canção do tempo corta a ria
e me conduz à arcaica romaria
sobre as ondas anciãs do mar de Vigo.

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo