31/08/2020

MELHORIA

 

Roubaram-me o medo.

Pintaram-no de cor -de-rosa

e purpurina,

deram-lhe cetins de bailarina,

babado carmim de melindrosa.


Perfumada a essência em alecrim,

o medo diluiu-se em transparência.

Entre sedas e doces rebuçados,

evapora-se a tônica do medo

em irônica massa de brinquedo.



Flora figueiredo

de florescência

arte Chung Shek


20/03/2020

ÚLTIMO BRINDE


Queiramos ou não
Temos apenas três alternativas:
O ontem, o presente e o amanhã.

E nem sequer três
Porque como diz o filósofo
O ontem é ontem
Pertence a nós apenas na memória:
A uma rosa que se desfolhou
Não se pode arrancar outra pétala.

As cartas por jogar
São somente duas:
O presente e o dia de amanhã.

E nem sequer duas
Porque é um fato bem estabelecido
Que o presente não existe
Senão na medida em que se torna passado
E já passou...,
                                como a juventude.

No fim das contas
Só nos resta mesmo o amanhã:
Eu ergo minha taça
A esse dia que não chega nunca
Mas que é único
De que realmente dispomos.

Nicanor Parra
de Canções Russas 

19/03/2020

FLORES


Ninguém
 oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente 
oferece flores.

Mia Couto
de Tradutor de Chuvas

DISCURSO DO BOM LADRÃO



Lembre-se de mim quando estiver em seu reino
Me nomeie Presidente do Senado
Me nomeie Diretor de Orçamento
Me nomeie Procurador-Geral da República.

Lembre da coroa de espinhos
Faça-me Cônsul do Chile em Estocolmo
Me nomeie Diretor das Estradas de Ferro
Me nomeie Comandante-em-Chefe do Exército.

Aceito qualquer cargo
Conservador de Bens Imóveis
Diretor Geral de Bibliotecas
Diretor dos Correios e Telégrafos.

Secretário dos Transportes 
Visitador de Parques e Jardins
Prefeito do Município de Nuble.
Me nomeie Diretor de Zoológico.

Glória ao Pai
                      Glória ao Filho
                                              Glória ao Espírito Santo

Me nomeie Embaixador em qualquer parte
Me nomeie Capitão do Colo-Colo

Me nomeie se quiser
Presidente do Corpo de Bombeiros.

Faça-me reitor do Liceu de Ancud.

No pior  dos casos
Me nomeie Diretor dos Cemitério.

Nicanor Parra
de Só para maiores de cem anos







                                

13/03/2020

NADA DUAS VEZES




Nada acontece duas vezes 
nem acontecerá. Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morreremos sem rotina.

Mesmo sendo os piores alunos
na escola deste mundão,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.

Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tais quais.

Ontem quando alguém falou 
o teu nome junto de mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.

Hoje que estamos juntos,
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?

Por que você tem, má hora,
que trazer consigo a incerteza?
você vem - mas vai passar.
você passa - eis a beleza.

Sorridentes, abraçados
tentaremos viver sem mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas d'água.

Wislawa Szymborska
de Um amor feliz
arte Marchella Piery

09/03/2020

EXPERIMENTANDO A MANHÃ NOS GALOS



...poesias, a poesia é

 -é como a boca 
dos ventos 
na harpa

nuvem 
a comer na árvore
vazia que 
desfolha noite

raiz entrando 
em orvalhos...

os silêncios  sem poro

floresta que oculta 
quem aparece
como quem fala
desaparece na boca

cigarra que estoura o
crepúsculo 
que a contém

o beijo dos rios 
aberto nos campos
espalmando em álacres 
os pássaros

_ e é  livre
como um rumo 
nem desconfiado...

Manoel de Barros 
de Poesia Completa

07/03/2020

CÂNTICO OUTONAL




Ausente por um ano, ele chega macio,
passos de camurça sobre chão quente.
Veste de dourado a terra ainda suada
do ardor inclemente da estação passada.
Traz o azul das telas de Ticiano
como pano de fundo para a hora da prece.
Pálpebras de sono,
a tarde se aquieta, a lua cresce.
Adormece o dia no colo de outono.

Flora Figueiredo
de Páginas viradas de um abril qualquer

SEMENTES


Olhos,
vale tê-los,
se, quando em quando,
somos cegos
 e o que vemos
não é o que olhamos
mas o que  o olhar semeia no mais denso escuro.

Vida
vale vivê-la
se, de quando em quando,
morremos
e o que vivemos
não é o que a Vida nos dá
nem o que dela colhemos
mas o que semeamos em pleno deserto.

Mia Couto
de Poemas escolhidos

LEMBRANÇA ALADA


Em alguma vida fui ave.

Guardo memória 
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes 
com o coração de asa
e tombo como um relâmpago 
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.

Mia Couto 
de Poemas Escolhidos

12/02/2020

46


Se me ouvires, eu pediria perdão.
Mas os ouvidos de quem não ama
são sempre surdos para quem tentou em vão
ultrapassar os muros.

Se me amasses eu me transformaria
num lago doce de mel para te alimentar.
Mas a doçura recusada de quem não recebeu amor
 se eriça feito um bicho ferido
 e em sua toca, dobrado sobre si,
lambe sozinho a própria dor,
disposto a morder para salvar 
o que talvez tenha sobrado de:
vida, embora inútil.

9 de abril de 1985
Caio Fernandes Abreu 

3


As malas feitas,
 parto outra vez.
 E outra vez,
 também esta,
 é mais fácil,
 mais feliz
 chegar do que partir.
 Deixo apenas no ar
 um vago perfume de incenso
 mas tão vago
 que, como eu,
 também partirá logo
 pela primeira
 janela aberta,
 pelo primeiro
 sopro do vento.

Carlos Fernando Abreu
de Poesias nunca publicadas

03/12/2019

JANELAS


Demoro
a fechar janelas
porque me dói
a vida entre dentro e fora.

Meu gesto lento,
sem antes nem depois,
desconhece se abre ou se fecha
a janela de uma outra janela.

Sem longe nem perto,
entre sombra e além,
na casa onde meu corpo começa,
sou eu mesmo a terra que contemplo.

Depois do vidro,
perdida da sua própria imagem,
a paisagem ainda mora toda em mim.
E eu, já, nela.

Mia Couto
de Mia Couto poemas escolhidos
arte Henry Alexander

ÁRVORE


Cego 
de ser raiz

imóvel 
de me ascender caule

múltiplo
 de ser folha

aprendo 
a ser árvore
enquanto 
iludo a morte
na
folha tombada do tempo.

Mia Couto 
de Mia Couto poemas escolhidos
arte Vincent Van Gogh


13/11/2019

JAMBOS VERDES





Nessas tristes tardes 
Debruço-me sobre a janela a colher jambos. 
Infinita tristeza de jambos amarelos 
Jambos verdes, jambos vermelhos. 

Flores dançam ao léu, 
Vermelhas pétalas de aurora. 
Cobrem calçadas, 
Cobrem o colete dos soldados cancioneiros. 

E há sabiás de peito avermelhado: 
Recolhem rosas no céu. 
Recolhem minha tristeza 
Amarga tristeza: risos de outrora. 

Hoje, já não mais giram e quando giram 
Não retornam essas aves retardatárias. 
Memórias esguias. 

E resta o silêncio, insólito silêncio: 
Escada de pedra 
Cravada no peito. 

Onévio  Zabot


A CANÇÃO DO RIO




(Na canção da correnteza do rio, ressoa a alegre certeza de que um dia será oceano)
Tagore

Vens cantando um canto antigo,
Oh! Rio amigo,
Que aprendeste no sertão…
Vens cantando o mesmo canto
Que com suave e doce encanto,
Cantam também teus irmãos!

Essa música divina
Que se evola em surdina
Do teu nobre coração,
Espalha-se com clareza
Invadindo a natureza,
Numa singela canção.
Nós te amamos, rio amigo,
E cantaremos contigo
Os teus hinos, teus cantares…
Amamos tuas águas claras,
Teus serpenteios de fadas,
Em requebros singulares.

Vens cantando de alegria
Nesta longa romaria,
Envolvido em teus cismares…
Corre, não fiques parado
E vai lançar-te cansado,
No doce seio dos mares!

Else Brum Sant´Anna
foto de Renata Santoro
Pousada Vale de Ouro - Joinville/SC