26/03/15

CESTA DE PÁSSAROS



A manhã é uma cesta trançada
com fios de luz.
Nota por nota,
o canto dos pássaros
constrói a cidade sonhada.

Caminharemos todos,
como se pisássemos
em uma sonata azul,
e nossas mãos inventarão
novos gestos, novos mapas
onde o amor será sempre possível.

Nenhum homem matará outro homem.
Então a terra sairá
de sua órbita bem comportada
e, livres da força da gravidade,
seremos ao mesmo tempo 
gente e pássaro. 

Roseana Murray
In Rene Magritte

25/01/15

TEMPO DE SER


Para Roselane Pessoa de Albuquerque

Não te importes com os anos que vão,
mas põe teu olhar, tua força,
toda a tua expressão,
no instante presente,
nos anos que virão.
Há sempre um tempo de preparar as armas,
afiar as facas,
um tempo de reunir dados,
juntar cacos,
um tempo de procurar saber,
de experimentar.
Depois vem o tempo de usufruir  
o tempo de gozar:
Um tempo de certezas
menos incertas,
um tempo em que temos tudo para ser
e muito pouco o que perder.
Este é o tempo de agora,
o tempo que virá.
Um tempo que se fará
não do que se acerta
ou se acomoda
nem do que por fora
se aparenta,
mas daquilo que por dentro
se acrescenta.
E daquilo que de mais de dentro,
como mágica,
como luz e sonho,
se arranca
e se espalha.

Affonso Fortuna
In O eu Esfacelado
arte Naiden Stanchev

***



As mãos do segredo limpam os quartos,a
sala, a cozinha feita de mármore, o banheiro.
Tudo limpo, mesmo que tudo respire falso,
pulse falso, estratagema de mentiras. O dono 
da casa: limpo. Mesmo que se saiba pó 
esquecido nos cantos, ele mantém a casca.
Tudo está fechado: portas, janelas, o sótão,
para que as mãos sujas do segredo não 
desagradem à vizinhança.

Rubens da Cunha
In Casa de Paragens
arte Charles Dwyer

***



Desaguam noites. O cansaço dos relógios, a
avenida condutora de espermas futuros.Nos
bordeis, mulheres  afetam carnes. Nos bares,
bêbados convidam ao trago imaculado da 
vadiagem. Nos jardins, insetos rastejam entre 
gosmas, enquanto nos quartos dormem fátuos,
figurativos, salivados em penúrias, muitos na
cidade. Abaixo do sono coletivo, meus olhos 
arremessam condenações, ironias falhas,
vontades de ser outro.Não Rimbaud. Outro
menos corajoso.

Rubens da Cunha
In Casa de Paragens
arte Leonid Afremov    

02/01/15

TELHA DE MENOS


Minha casa tem uma telha de menos
e uns macaquinhos brincando no sótão.

Quando há chuva,
            cai um pouco de chuva na varanda;
quando há sol,
            passa um feixe de luz nos remansos da  sala;
e quando há vento,
            a música se esparrama pelo quarto
            embalando alguns sonhos e pesadelos.

Ás vezes passa rápido a figura de um pássaro,
outras vezes apenas um riso de borboleta,
uma nesga de nuvem e o brilho de um avião
nos rumos do Brasil.

Mas é a noite que uma das três Marias
se debruça no espaço azul da minha casa.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens
arte Laurent Parcelier

31/12/14

SONETO DO SONO


A tarde é tão serena que parece
vir do hálito que  sobe do teu sono.
Vejo-te ir nas nuvens do abandono,
comovido de calma. A tarde desce

ao longe , sobre o mar.Mas lenta e leve,
como a exala o sonho desse sono.
E tudo, enfim, é o sopro do abandonado
e o seu sussurrar na mão que escreve.

Dormes como num voo. Como se fosse

quando o tempo era jovem. E então me sinto
pleno de mar e luz e céu - e sou
soberbo e claro por estar absorto
no abandono desse pó de estrelas 
que se juntou para inventar teu corpo.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outros Poemas

  

31 DE DEZEMBRO


Diremos outra vez as mesmas palavras
e elas serão novas,
                             embora
tenha havido o que houve
e saibamos o que sabemos.

Porque assim é. E assim será, 
                                             enquanto
aqui estivermos.
                              Enquanto
janeiro acender em nós 
a sua luz de além dos calendários
mortos.

Rui Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações.
arte Evgeny Kouznetsov

29/12/14

SONETO DO ANO-NOVO



Sob as primeiras luzes de janeiro,
sente ainda enfunar-se a alma rota
de cinquenta e oito anos nas derrotas
que vai singrando, rude aventureiro.

Medita, nesta praia de janeiro,
sonhando nas espumas novas rotas.
Sua alma é ainda a mesma: essas derrotas,
e os oceanos, e os ventos, e o veleiro.

Alma rota, porém ainda capaz 
de respirar palmares e areias
virgens, e ir à sua busca, até que a paz

pouse nas velas e acenda no mar
- doce de azuis abismos e sereias -
um dia lindo para naufragar.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações
arte Elizabeth Blaylock

ANTES DE TUDO




Antes de tudo, não é nada disso
Não te amo: é um amor de outrora
que te ama
como se diante de um espelho

Talvez não me entendas.Mas isto
não importa: ainda  que me
entendesses
eu sofreria igual.

Nem mesmo existes como existes
em mim.Que não existo
senão
quando sonhas em mim.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita
arte Alexei Lashkevitch

28/12/14

OS MENINOS E A MENINA



A mata de olhos úmidos
refletia a manhã.
Crianças escalam pedras
escorregam no limo
                              e ao lado
o riso da cascata.
 
Revoada de borboletas.
Restou uma fotografia.
 
Alguém leu certo dia
num autor apócrifo:
                              Os meninos se chamavam
                              André
                               Braz
                               Olavo...
                                            e havia uma menina. Seu nome: 
                                            Elizabeth
 
Mas Amor que nome tem quando completo?
Eram outros também. Sabe-se que a menina
desembaraçara as crinas do Unicórnio
nas espumas do Lago.
 
Formas estranhas de pedras.
A mata as lambia (como a suas crias)
num colo de musgos.
 
                                Perto
lírios de gosma e perfume:
                                reis coroados -
                                Salomão e a Rainha de Sabá
                                 em fascinado colóquio.
 
As crianças se foram
ficou  a fotografia
                           irradiando:
é um sorriso só
                         imagem
                         sem conceito algum
 
Dizei-me: o  que se resgata desse instante?
Que fulgor não se apaga para lá 
no momento que somos?
                                      Com seu dedo leve
                                      o eterno caça-nos além
                                       do tempo breve.
 
Dora Ferreira da Silva
In Poemas da Estrangeira 
arte  Diane Leonard
 

26/12/14

O MENINO LOUCO




Eu te paguei minha pesada moeda,
Poesia...
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriram insones como flores no escuro
Até que, longe no horizonte, eu via
A Lua vindo, esbelta como um lírio...
Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula... Às vezes virginalmente nua ...
E era branca como as nozes que os esquilos
                                descascam na mata...
Pura como um punhal de sacrifício...
         (Em meus lábios queimava-se , ignorada, a palavra   
                                             mágica!) 
Mario Quintana
                                         De Apontamento de história  Sobrenatural                                        

SÃO PLÁCIDAS TODAS AS HORAS QUE NÓS PERDEMOS




Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
 
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
 
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...
 
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
 
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
 
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
 
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
 
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
 
Fernando Pessoa
Ode / Ricardo Reis
arte  Fuller Graves

GUIA-ME A SÓ A RAZÃO



Guia-me a só a razão.
Não me deram mais guia.
Alumia-me em vão?
Só ela me alumia.
 
Tivesse quem criou
O mundo desejado
Que eu fosse outro que sou,
Ter-me-ia outro criado.
 
Deu-me olhos para ver.
Olho, vejo, acredito.
Como ousarei dizer:
"Cego, fora eu bendito"?
 
Como olhar, a razão
Deus me deu, para ver
Para além da visão -
Olhar  de conhecer.
 
Se ver é enganar-me,
Pensar um descaminho,
Não sei. Deus os quis dar-me
Por verdade e caminho.
 
Fernando Pessoa
De Cancioneiro
arte Felix Mas  
 

DOMINA OU CALA




Domina ou cala
 
Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
 
Fernando Pessoa
Odes/ Ricardo Reis 
arte Felix Mas

19/11/14

GORJEIOS


 
Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
 
Manoel de Barros  
In Poesia Completa