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29/03/2012

PESO DO MUNDO



A poesia não é, nunca foi
uma enumeração ou composto
de exuberância, bondade,
altitude , nem arado
ou dádiva sobre chão
prenhe de mortos.

Nem o arrependimento
de Deus por ter criado o homem
com o rosto da sua memória,
ao lado dos seus vermes.

Tão-pouco fôlego dos que amam
abrindo a porta límpida
do corpo e chovendo sobre a terra,
ou carreguem como tartarugas
o peso do mundo.

Nem reverência por um tigre,
pela leveza maligna de todas as patas,
pela sonolência junto à estirpe
aprisionada também
na dureza de ser tigre.

É o milagre de uma arma
total, de uma só palavra
reduzindo o átomo à completa inocência.

António Osório
In A Ignorância da Morte

ESTUFIM



Veleidade, reter avencas,
azaléas, os cactos
guerreiros e o mais,
cordame de feitiços.

Ninguém possui a natureza.
Ninguém a comanda
nem entranha ou abriga.

A sua é explosiva casa
de linhagens; o mundo,
estufim de Deus,
absoluta ciência e olvidos,
sua escassez.

António Osório
In A Ignorância da Morte

19/05/2010


de rawheadrex

OS LOUCOS

Há vários tipos de louco.

O hitleriano que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo.Aqueles que destroem.

E há sempre um
( o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.

António Osório
In A Ignorância da Morte

foto by nobuflickr

DIOSPIRO

O verde converte-se em vermelho,
é o Outono nas folhas do diospiro.
E caem intactas, por terra
são fogo adolescente.Tudo porque
no alto entre labaredas
amadurecem os frutos, que o divino
oferta, desgostoso de si próprio.

António Osório
In A Ignorância da Morte

Vincent van Gogh » Wheat Field with Cornflowers

A CABEÇA LIGADA

La pintura è una poesia che si vede
Leonardo


Van Gogh, queria algo
tão consolador como a música.

Os campos de trigo e centeio
com ciprestes, os seus obeliscos,
e lírios e grandes nuvens,
a sesta dos camponeses,
a natureza morta
de girassóis e enémonas,
o sereno bivaque de ciganos,
as árvores com o azul tisnado do céu,
loendros,paveis,roçadores
de pastagens limão ouro pálido,
o semeador ferruginoso de ocre,
enxofre e do tamanho de uma catedral,
o voo de corvos sobre ramos
luminosos e ternos
de amendoeiras em flor.
Depois de cortar a orelha
retratou-se com os lábios
pintados de sangue.
Se o sofrimento fosse mensurável,
naquela cara de símio
louco de ser homem
haveria dores
de um inteiro campo de concentração.

António Osório
In A Ignorância da Morte

18/04/2010


Galeria de lay_r/ olaias em floração

PARA OS CIGANOS

O pirilampo, aquele semáforo apenas verde
e oiro, na manta estava dos ciganos.
A lua era a cacheira onde dormiam.

Dois jumentos escutavam ralos,
torpor, a litania das rãs.

O tanque era mãe grande,
parturiente de águas e insectos.

Passara a floração das olaias.
A noite,gota a gota, destilava calor.

E os figos exsudavam uma lágrima de doçura
para os ciganos, na manhã seguinte.

António Osório
In Os Cavalos de Tróia

by Galeria de antoninodias13

AMO OS TEUS DEFEITOS

Amo os teus defeitos, e tantos
eram, as tuas faltas para comigo
e as minhas; essa ênfase
de rechaçar por timidez; solidão
de fazer trepadeiras, agasalhos
para velhos, depois para netos;
indulgência de plantar e ver
o crescimento da oliveira do paraíso,
carregada de flores persistentemente
caducas; essa autoridade, irremediável
desafio; e a astúcia
de termos ambos quase a mesma cara.

António Osório
In Os Cavalos de Tróia

14/04/2010


foto by woolyboy

PESO DO MUNDO

A poesia não é, nunca foi
uma enumeração ou composto
de exuberância, bondade,
altitude, nem arado
ou dádiva sobre chão
prenhe de mortos

Nem arrependimento
de Deus por ter criado o homem
com o rosto da sua memória,
ao lado dos seus vermes.

Tão-pouco fôlego dos que amam
abrindo a porta límpida
do corpo e chovendo sobre a terra,
ou carreguem como tartarugas
o peso do mundo.

Nem reverência por um tigre,
pela leveza maligna de todas as patas,
pela sonolência junto à estirpe
aprisionada também
na dureza de ser tigre

É o milagre de uma arma
total, de uma só palavra
reduzindo o átomo à completa inocência.

António Osório
In A Ignorância da Morte

18/06/2009


Les Deux Soeurs by Pierre Auguste Renoir

AS ADOLECENTES

A pele mosqueada da maçã reineta,
um ar vago e doce, feliz.
Subitamente correm como rapazes,
são a corda do arco
que se dilata e a seta do corpo
chega aos quinze anos,
quando abrem as ancas
e amam como se fossem mães.

António Osório,
In A Raiz Afectuosa

13/06/2009


Paul Newman - World Gallery

AMO OS TEUS DEFEITOS

Amo os teus defeitos, e tantos
eram, as tuas faltas para comigo
e as minhas; essa ênfase
de rechaçar por timidez; solidão
de fazer trepadeiras, agasalhos
para velhos, depois para netos;
indulgência de plantar e ver
o crescimento da oliveira do paraíso,
carregada de flores persistentemente
caducas; essa autoridade, irremediável
desafio; e a astúcia
de termos ambos quase a mesma cara.

António Osório
In A Ignorância da Morte

Elizabeth Taylor -World Gallery

CADA SEGUNDO

Não desejo a indigência,
a serenidade
dos lugares desertados:
desejo que cada segundo
quando amo
explodisse
e fosse a terra
em sua expansão
durante a primeira noite,
a gestante,
do mundo.

António Osório
In O Lugar do Amor

24/09/2008


Lovers Point by Osborn

Não é uma coisa só,
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.

António Osório