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03/02/2012

AMO AS AÇUCENAS

 
 
Amo as açucenas na branquíssima
vertigem do princípio do mundo.
Ninguém pode amá-las assim
nas madrugadas de linho e de nácar.
Ninguém subiu as vertentes da colina
mais íngreme com um vestido de noiva
amarrado ao corpo.
O abandono recortado no ar.
Os desejos entorpecidos na alvura dos seios.
Os guizos das cabras reclamando o cio.
A cera das colmeias na greta dos lábios.
O fascínio da luz a incidir nas hastes mais altas.

Graça Pires
In http://fellingsfellings.blogspot.com/
foto por  Gianluca Nicolella

04/10/2009


Foto de Anibal Gonca... no Flickr

RECONHEÇO-ME

Reconheço-me em todas as paisagens
anunciadas pelos profetas, ou pelos mágicos,
fascinada com o impulso que me faz arriscar
uma paixão sem aviso prévio.
Plagio sem restrições
a vida de heróis fantasiosos.
Procuro em todas as definições
acerca da vida e da morte
a síntese perfeita
e transcrevo-a nas cordas vocais
para a citar a propósito das coisas que acontecem.
Ninguém me diga o caminho onde se equivalem
os dias e as noites de um roteiro de verão.

Graça Pires
In Conjugar afectos, 1997
Blogger Ortografia do Olhar

27/06/2009


Lily of Trebizon (Restrike Etching) by Anonymous

DETENHO-ME À PORTA DE UM PARÁGRAFO

Detenho-me, à porta de um parágrafo,
como aprendiz de enredos.
Sou a personagem que teme a sua morte
ancorada na última página.
As letras, afiadas como lanças impiedosas,
são a única referência nómada
de uma cadeia de vocábulos no labirinto do texto,
onde soletro a intimidade de tudo o que amei.

Graça Pires
De Labirintos, 1997

Almost Home, 1996 by Peter Szumowski

INVERNO

A persistência da chuva catalogada
por quem nada sabe de paixões.

O vento e o silêncio emboscados
no mesmo rumor nocturno.

A diáspora de aves migratórias
a encher os dias de presságios.

Graça Pires
by Ortografia do olhar, 1996

Interlude by Pauline Palmer

DE TANTO CHAMAMENTO

Caminho de encontro ao entardecer,
com a língua salgada de incendiar
a paisagem de quantos verões
me couberam na boca.
A curva do meu riso indicia o sul da mágoa.
Tenho um barco tatuado nos ossos
e os braços, quase enfermos,
de tanto chamamento.
No próximo verão, hei-de vestir-me de branco,
para que os veleiros avistem a solidão do meu olhar.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
by Ortografia do Olhar

Venus & The Three Graces (Detail) by Sandro Botticelli

EM SILÊNCIO

Em silêncio, sempre em silêncio,
as mulheres refazem o penteado,
que as mãos forasteiras
da noite desmancharam.
É a hora do romper do dia.
A cor da madrugada
quase que dói por dentro da pele.
E não fora a urdidura de mágoas
antigas, elas dariam, à paisagem,
o nome de um deus solar.

Graça Pires
In Quando as estevas entraram no poema, 2005
by Ortografia do Olhar

Dance in the City, 1883 by Pierre Auguste Renoir

POEMA DE AMOR

Enquanto os meus passos procuram
nos teus a ressonância da alegria
e ambos reconhecemos a luz fascinada
do olhar, dá-me a tua mão.
O nosso caminho não é a tristeza,
nem a raiva, nem o medo.
O rio conhece-nos a voz
porque transportamos no coração
pássaros em chamas e vagueamos lado
a lado, sem tempo, sem idade.
Um desvio de malícia denuncia
a suspeita cumplicidade da brisa
que nos brinca no rosto.
Uma densa névoa lambe,
tumultuada, a pele da noite,
Ao amanhecer, quase inesperadamente,
far-se-à verão em nossas bocas.
O teu nome e o meu nome serão frutos
de esperma e saliva presos à língua.
Os teus olhos : inquietos,
deslumbrados, transparentes.

Graça Pires
In Conjugar afectos, 1997
by Ortografia do Olhar

The Butterfly Hunt by Berthe Morisot

ENREDOS DE FIM DE TARDE

À revelia de pretéritas lembranças,
um bafo de terra molhada
devolve-me enredos de fins de tarde
que me sugerem os panos coloridos
com que, em criança, fazia as saias das bonecas.
O verso e o reverso de um concêntrico imaginário.
A atmosfera impregnada do meu fascínio de viver.
E pego na fala de Zaratustra para perguntar:
Que temos de comum com o botão de rosa
que verga sob o peso de uma gota de orvalho?
De que matéria somos feitos
que nos torna comovidos e inocentes
perante a promessa da ternura?
Sei o difícil jogo de viver.
Os meus desejos são como as areias
que o vento levanta sem levar para longe.
Nenhuma linguagem explica o devir das paixões.

Graça Pires
In Outono: lugar frágil, 1993
by Ortografia do Olhar