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05/06/2013

POETA



Deixa cair todo este orvalho puro
sobre os teus ombros doloridos

Vê como é  suave a terra:
mesmo nos galhos mais bruscos,
olha: há carícias amigas.

Tudo é mais coração, porque é mais coração.

Orvalho...Orvalho...Parece
que em tua vida alguma cousa amadurece.

Deixa cair, deixa rolar teu poema
como um fruto maduro, pelo chão.

Augusto Meyer
In O Jardim de Judith

17/06/2012

HUMILDE SURDINA



Deixa falar, deixa falar:
basta o mistério do amor,
minha ternura tão mansa
e o teu jeito de querer.
Nós seremos como os pequenos:
sabem tanto, sem saber.
Voa o olhar no fundo olhar,
mão na mão, o amor pousou.

Tarde boa, morre calma...
Brinca o sino da igrejinha.
Alguém diz palavras velhas
como um sonho que passou. 
Meu amor, a vida é grande
quando o olhar encontra o olhar:
mão na mão, o amor chegou.

Augusto Meyer
In Poesias 

06/06/2012

MILAGRE



Eternidade do minuto milagroso: 
                                  a erva cresce,
os grilos cantam sob o olhar antigo das estrelas.

Tão simples o mistério que uma criança pode  so-
                                                                letrar...

Agora mesmo em qualquer parte há uma rosa ao sol,
boca entreaberta para a luz.

Esta noite é de outro lado claridade...
Hora dupla, simultânea, total.

Coração, girassol aberto sobre o mundo claro,
outros homens virão,
outra gente virá viver este minuto azul
na rotação da noite,
sentir que a morte é sempre a vida,
que a vida morre pelo amor da vida
e há sempre um centro inesperado
vertiginoso e irredutível! 

Augusto Meyer
In Poesia
tela  Lilian Schade

VERANICO




Veranico de maio... paineiras em flor.
Azulínea transparência do ar puro e feliz.
Há uma distância perfeita nos claros volumes
e a harmonia das linhas sobe na luz.

Tudo agora vai ser inocente, inocente
como o riso das moças maduras ao sol.
Róseas, rodopiam estas flores girantes,
elas caem lentamente, tontas de luz.

Como é estranha a minha sombra viúva,
a minha sombra esbelta sobre a areia...

Todo o ser nestas mãos votivas,
todo o amor neste olhar bem claro para a vida.
todo o humano tremor.

Ah! desejos de cirandas cantadeiras
e de beijos!
loucura de abraços virginais 
e de pura, puríssima ternura!
Vontade simples de semear alegria
pelos cinco sentidos,
pela dança das palavras musicais!

Alma cheia, deixa cair os sonhos como as flores.

Maio suave é um pensamento bom:
é o sorriso de quem sabe.

Tu nasceste para o amor da hora leve, luminosa.
quando a mão se abre toda
e a voz canta e abençoa.

Os namorados vão passar na tarde clara,
as velhinhas murmuram palavras moças,
toda a gente lê no azul mais alto o seu destino
e os mendigos dão à vida esmola de um sorriso.

Augusto Meyer
In Poesias 1922 - 1955 
foto  Márcia Lia 

03/06/2012

SE DEUS QUISER...



À sombra do campanário
a vida é calma e grave como um crepúsculo de outono.

Às vezes passa um carro, trepidando pelas pedras,
e as lojas velhas tremem, sacudidas de saudade.

Bóia no bebedouro a torre trêmula, invertida,
sacudida molemente num reflexo,
abraçada numa ronda circular de folhas mortas.

As andorinhas piam quando a chuva está suspensa
e o ar parado é um ninho morno.

- Hoje vem água, comadre...
- Se Deus quiser...se Deus quiser...

A vida merencória, sem história,
como um sino sem glória
que guardasse no seu bojo o ouro das páscoas matinais
e a aleluia azul dos dias que não voltam nunca mais...

Augusto Meyer
In Poesias

SERÃO DE JUNHO



Ouve: alguém bateu na porta...
Janelas brilham no escuro.
Cada casa é uma estrelinha.
Cada estrela é uma família.
E o minuano, pobre-diabo
que não quer ficar no escuro,
bate, bate, empurra a porta,
praguejando como um doido:
- Pelo amor de Deus, eu quero
a esmola rubra do fogo!

Mas ninguém abre ao minuano.
que noite  fria lá fora!
Cada casa é uma estrelinha.
Há mais estrelas na  terra
do que no céu, Deus do céu!
Lá fora que noite fria!
E o minuano, pobre-diabo,
andando sempre, andarengo,
para enganar a miséria,
geme e dança pela rua,
e enquanto assovia - chora,
e enquanto chora - assovia...

Augusto Meyer
In Poesia  
 tela Leonid Afremov  

AOS CHORÕES



Chorões da praia de Belas,
molhando as folhas do rio,
sois pescadores de estrelas
ao crepúsculo tardio.

O mais velhinho, já torto
ao peso de tantas mágoas,
lembra um pensamento absorto
debruçado sobre as águas.

Salgueiros trêmulos, belos,
meus camaradas tão bons,
diz o poeta, violoncelos  
onde o vento acorda sons,

sois  à beira da enseada,
um bando de poetas boemios,
e fitais na água espelhada
vossos companheiros gêmeos...

Mas, se alguma brisa agita
a copa descabelada,
ondula, salta, palpita
vossa imagem assustada...

Augusto Meyer
In Poesias