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11/12/2012

1




Escrevo a noite, sua lunar brancura
a iluminar as margens dos instantes,
a noite clara, sem depois nem antes,
que se desdobra, amante, na escritura.

Pressinto o gume dessa negra artéria
a alimentar o sonho da vigília,
seiva que salva o dia da armadilha
de  parecer sem alma e sem matéria.

Escrevo o avesso do clareado dia -
com o vício de suas falas sem sabor - 
numa impaciência que o papel adia.

Escrevo o escuro que o verso vislumbre:
o gesto urgente e puro de uma flor
colhendo sua existência na penumbra

Renato Tapado
In Moradas de Orfeu

20/10/2011

CAÇA


 com a rede
caço palavras crisálidas
que operam tua pele
e traduzo um punhado de
    asas
no papel

busco tua essência e colho
em pleno voo as
    imagens
que trazes no corpo

fotografo a lua
escondida em tua face
e guardo um pedaço de ti
sobre a mesa

as palavras são aéreas
e eu
piloto
da tua inconstante
nave

 Renato Tapado
foto por  Jason Bache

15/01/2011
























há um tempo em mim que esquece esses dias
os programas de tv
as mentiras
sou um tempo incubado entre meus orgãos
que destoa do corpo
das hipocrisias
levo dentro um tempo subversivo
transformo meus olhos caçadores
de outros dias expressivos
não expressivos
adiciono versos

Renato Tapado
In Poemas para quem Caminha
tela de Henri Matisse


















a cidade me percorre
austral
no crepúsculo das águas

faróis já respingam
inícios de noite

desencontros

o mar se revolta
com a fuga das gaivotas

eu fico com a maré
volta a confiar nos
encontros crescentes
com a lua

pré amar

Renato Tapado
In Poemas para quem Caminha
tela de Claude Monet

11/10/2010

















"A morte é
cotidianamente
endurecer-se
porém sem ternura."

" o caminho se faz ao andar
disse o poeta
mas há que inventar os pés
com poesia"

"uma mulher parindo
um dia livre
é campo inesgotável
de horizontes"

Renato Tapados
In Poemas para quem Caminha
tela de Carol Rowan
















nessa primavera
eu queria fazer dois poemas perfeitos
andar três horas fim de tarde
ler quatro livros sobre a américa
receber uma carta de havana
brincar com pombos
criar
enquanto o mar devolve idéias
trabalhar
numa oficina de poesia
fazer rir uma mulher
poder enviar um sorriso a manágua
abraçar alguém na praça

nessa primavera
eu queria tempo
em meu país
para primaveras

Renato Tapado
In Poemas para quem Caminha
tela de Maria Mosolova

***




















como aquela vez em que tocaste
uma pele angustiada
como o dia em que acendeste as luzes
os olhos  as manhãs
como os campos que trouxeste em teu cansaço
como abraço
o tempo em greve
ventos ciganos
laços e verdades

Renato Tapado
In Poemas para quem Caminha
tela de Claude Monet

10/10/2010

25
























Um gato na caixinha se entretém
com um ínfimo brinquedo, quase nada,
algo que não se mostra, mas contém
a graça e o risco de alguma jogada.
Não sei o que ele busca no vazio
desse espaço sem uso, limitado,
que o faz se deliciar num rodopio
sem fim, sem objeto, só agrado.
O pouco com que o gato se contenta
criando desse oco uma vertigem –
brincar com a solidão como uma bola.
Tento aprender o que meu gesto inventa
copiando o gato na página virgem –
caixinha onde minha solidão se evola.

Renato Tapado
In Palavras na Penumbra
tela de Henriette Ronner-Knip

18




















Um vento suave, em cálida passagem,
afaga lentamente minha pele.
Esqueço as horas nessa breve aragem,
antes que o tempo envolva a vida e a sele.
Nada a fazer, nenhuma ação pensada
neste instante em que tudo está adiado.
Apenas essa mínima tourada
que o vento faz com meu corpo cansado.
São três da tarde. Apuro o meu olhar
neste calor que só me traz miragens
e busco a fresca imensidão do mar.
Mas o vento, que a espuma azul evola,
me lembra que o calor ainda resiste,
o tempo impera – e tudo vai embora.

Renato Tapado
In Palavras na Penumbra
tela de Ivan Federovich Choultse

14























Busco o silêncio oculto
por trás das falas claras,
um inefável vulto
de mudez e voz raras.
O silêncio inaudito,
que não cabe na boca,
algo vão e infinito,
uma palavra oca.
Brancura sobre branco,
o nada soletrado,
um mentiroso franco
escondendo a verdade:
silêncio solitário
de um alguém nesta tarde.

Renato Tapado
In Palavras na Penumbra
 tela de Joram Neumark

12/07/2010








Hoje tua mão é veloz
como pássaro descendo às águas
quando em meus mares inquietos descansa e
durante anos me conquista

hoje teu rosto recebe o vento
dos tempos que vêm como pássaros
em mergulho alucinado de esperanças

hoje teus olhos inflamam o tempo
com sensualidade sincera
desses dias já sem ilusões
mas carregados de desejos

hoje teu corpo existe
como ser e não como sombra
como desejo e não como vício
como prazer e não como espera
escandalosamente vivo
como as águas
comos os pássaros
conquistas

Renato Tapado
in Poemas para quem caminha
tela by Willem Haenraets

























teus olhos de centeio
se acumulam
no fresco olhar que lanço
em minhas terras

sou minifundiário
enquanto durem
as cheias de tuas fontes
renováveis

e aro em pensamento
a nova safra
de cores cereais
no firmamento

Renato Tapado
in Poemas de quem caminha
tela by Heide Dahl




















eu vi no ônibus
uma adolescente
sentar no colo de outra

conversaram sobre o mundo
que ficou menos hipócrita
nesse momento

(e cento e trinta e quatro vezes
mais doce)

Renato Tapado
in Poemas para quem caminha




as águas me aguardam como víboras
recolhem pombos de uma tarde
enquanto voa meu passado    arranca
dúzias amarelas de promessas
explosões   amores
abraço o vento sob telhas vermelhas e
ao invés de barcos
encontro conchas mareadas de presságios
chegadas
e olhos mais limpos

Renato Tapado
in Poemas para quem caminha
Tela  by William Charles Piquenit


31/05/2010


by Edgar Degas

meu coração
é uma guerrilha contra o tempo
aberto
ergue as armas frente ao passado em ruínas
rompe com o homem só
solta pássaros nos dias novos
dança e descansa
na estrada
e avança

Renato Tapado
In Poemas para quem Caminha

03/04/2010


foto by Lady Lumley

Outono.Escuto o passo de um riacho
em meio à noite fria e cristalina.
Escuto esse vazio que desatina
onde procuro algo e nada acho.

As folhas caem, tudo cai no escuro,
nesses dias de verticalidade.
E quando me deparo com outra tarde,
o horizonte é um desgostado muro.

O céu é cinza. E fria a água do lago -
espelho opaco que nada reflete -
mas aqui dentro trago as mãos de um mago;

Invento sílabas que o tempo esquece
- nesse papel em branco em que me vejo -
e finjo que essa página me aquece.

Renato Tapado

29/03/2010


foto by kaycatt*

aqui não há folhas no chão
outono é uma esperança que não chega
como amigos
mas o frio me agasalha de noite
uma vodca
(moscou não acredita em lágrimas
diz o filme)

danço pela calçada com as estrelas
imagino pares
partes do continente
em mim

o jeito é lembrar
uma música do pat metheny
chile 1970
esperar amigos de outono
juntar as folhas

Renato Tapado
In Poemas Para Quem Caminha

11/01/2010


by Christie's Images

na paz dos teus olhos
descanso
como aquele que morre
nos dias de chuva e frio
e tristezas pelo que passa
diante dos meus olhos de esperança

e ressuscito em noites
consagradas por teus lábios
noites colhidas com carinho
por tuas mãos de povo forte
que me abraçam como a uma causa
livres da escuridão e do medo

sou novo homem pelos ventos quentes
que teu coração produz sincero
como artesão de coisas simples
toques ruídos e desejos
num corpo a lutas descoberto

então vem a saudade
de lembrar de ti como uma conquista
que fugiu pelas minhas mãos
entre uma tarde e outra de carícias
predizendo tua ida

e eu de ti separado
como um veio enfraquecido
espero a volta das noites
como dois pássaros em vôo

Renato Tapado
In Poemas de quem caminha

by Pierre-Auguste Renoir » The Harvesters

TERRAS

teus olhos de centeio
se acumulam
no fresco olhar que planto
em minhas terras

sou minifundiário
enquanto durem
as cheias de tuas fontes
renováveis

e aro em pensamento
a nova safra
de cores cereais
no firmamento

Renato Tapado
In Partilhas

by John William Waterhouse » Boreas

MATIZES

pelas manhãs desperto
as fontes de uma
cor
ação
tingindo o dia de anseios

pelas tardes enfrento
o véu cigano do olhar
em ruas humanas e
claras

pelas noites guarneço
as forças do sonho
sonar
de novos matizes de
ser

Renato Tapado
In Partilhas