Mostrando postagens com marcador Maria João Cantinho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maria João Cantinho. Mostrar todas as postagens

12/04/2012

A MÃO



Partimos na frescura da manhã
e só o coração nos guiava,
ouvindo os sinais, a intermitência do vento
que percorria a floresta,
escutando o murmúrio da fonte.

E nada nos era vedado,
pois a nossa busca era outra
inumana e desmedida, por dentro dos nomes
e dessa página aberta, que era a nossa viagem.

E nada nos era vedado
porque outras eram as nossas margens,
outro o nosso desejo, no avesso do dito,
habitávamos as entranhas do tempo
como quem se demora,
sabendo que nada perdura.

E nada nos era vedado,
nessa jornada onde o medo era também liberdade,
outra a nossa fala, esse balbuciar
implodindo na flor do silêncio.

E nada nos era vedado
porque outra era a nossa pátria,
esse canto que subia no coração do dia,
entre o exílio e a promessa.

E nada nos era vedado
porque nunca se parte
apenas se regressa,
prisioneiros da mão do destino,
na passagem entre o sonho e a memória.

João Maria Cantinho
tela Jack Vettriano -

RITOS DA PASSAGEM I



Sigo o passo lento dos animais,
o ritmo milenar, o canto do vento
indicando o caminho dos nómadas.

Ao dia sucede a noite,
enquanto seguimos, lentamente,
lendo uma outra escrita
que se desenha nas estrelas,
constelações, runas, vestígios minerais
e pela madrugada dançamos
em redor do fogo, embriagados
como se fôssemos deuses antigos.

Maria João Cantinho
Imagem Koch & Wolf

20/09/2008


Foto de Inezita

HÁ DIAS EM QUE TUDO ME DÓI

Há dias em que tudo me dói.
Doem-me as mãos que desconheço
esfomeadas de dias, dói-me o olhar,
que se fecha diante da noite,
dói-me tudo, sem fim.

Doem-me os homens que matam
em nome de nada,
doem-me a guerra e a hipocrisia
dói-me o mundo, por dentro de mim,
doem-me as ruas desertas das cidades
aos fins-de-semana
e doem-me os rostos
de quem me olha, como se nada houvesse
para te dor. Dói-me até a própria dor.

E também me doem a ignorância e a soberba,
doem-me as crianças que caminham descalças,
e dói-me a sua alegria de não haver alegria,
doem-me a esperança
e o optimismo generalizado de quem anda cego,
dói-me a indiferença de quem pode,
dói-me tudo, até à agonia.

E também me dói a música,
doem-me os livros que nunca lerei
e doem-me os que amei
e dói-me Celan, Sílvia Plath
ambos, de coração colado aos lábios,
e dói-me a cegueira de Borges,
à procura de uma rosa
na penumbra do olhar.

E doem-me os labirintos onde nos perdemos,
os sonhos e as vielas,
onde perdemos amigos,
e doem-me esses amigos que já morreram e que nos
olham, do alto da sua claridade azul.
E dói-me tudo, até quase deixar de me doer,
dói-me tanto, até já nada fazer sentido.

E também me dói o vento e as árvores carregas de frutos,
doem-me as searas maduras de verão
onde o sol brinca com a memória,
entre espasmos de luz dourada,
doem-me os calamos de Withman,
a fraternidade que não existe,
dói-me o amor e dói-me a vida
cintilando na brevidade de cada flor,
doem-me as papoilas, os prados
onde o olhar se perde à procura de um lugar,
que vem lembrar-me o que não me doía.

E dói-me tudo, em certos dias,
que de tanto doer não aprecem dias.

Maria João Cantinho

17/09/2008


Foto de Walberth Mascarenha

A DANÇA PRIMORDIAL

De todas as formas,
este é o meu modo de ser,
improvável lugar entre as dunas e perfeição do céu
o meu modo de ser estilhaçado,
perdido num mapa que trago oculto sob a língua,
esta cartografia secreta,
onde concentro a esperança
no fogo da palavra, em sílabas de luz.

Olha-me com a ternura da primeira vez,
vê e evoca: o vento dança na areia, cantando,
vê e recorda esses milhões de grãos de luz
que navegam no longe do mar
nesse lugar
em que poderíamos, ainda,
morar no espanto, nascer de novo
e soletrar, letra a letra,
a caligrafia luminosa do vento.

Mas não esqueças, meu amor,
como leve é a dança primordial dos corpos,
não esqueças o derradeiro fulgor do sol,
a perfeição que se desenha
por entre esse cortejo de sombras
as sombras da música, as sombras das vozes.

De todas as formas,
Este é o meu modo de ser, lenta inspiração,
nesta feroz alegria de ter um corpo
que avança contra a escuridão,
em direcção a ti, o enlouquecido coração
tão asa quanto a noite de Verão,
onde tudo se dobra, mansamente,
para beijar a terra e celebrar,
onde tudo se aquieta
até quase não ser e permanecer
a dança das coisas, os gestos suspensos,
não esqueças a respiração da terra e a glória secreta
do mar, nas sílabas do mundo.

Maria João Cantinho
In Sílabas de Água, 2005.


Quando vir vaguear o corpo da noite
dançante, por entre os cascos da bruma,
virei até à janela que se despenha
no jardim das palavras.

Pedirei à sombra que me conceda ainda o verso
o verso sujo, lâmina ou centelha
ateando a manhã, entre o café
e este lume do silêncio,
a arder pela flor da giesta.

Não mais cantar senão o ar
ou as mãos que poisam, tão quietas
detentoras de incerteza, apenas.
Ficar assim, no olhar destas vidraças
onde julgo ver a vida que sonho ser.

Maria João Cantinho


SONHO...

Entra e tira o teu agasalho.

Está tanto frio...
Entranhou-se-me até quase às raízes do sentir enquanto te esperava.
Agora que aqui estás, quente que és na tua presença, conforta-me pois preciso tanto.
Já não distingo o corpo da alma, tal é o estado de algidez em que me encontro.

Os troncos que pus na lareira riem-se de mim e recusam-se a arder.
Só o teu abraço me providenciará algum alívio.
Senta-te aqui e recebe-me no teu colo...
Envolve-me com os teus braços e o teu olhar.
Aqueles, aquecer-me-ão o corpo e este o coração.

Deixa-me adormecer assim no teu regaço para que sonhe o que aqui te conto.

Maria João Cantinho

Foto de Ariasgonzalo

Essa mulher que caminha no orvalho da madrugada,
de pés nus, que dança na margem do rio,
ouvindo o vento da noite,
essa mulher
que canta o silêncio até onde o grito,
traz na fronte a cicatriz,
que se desenha como a luz na água, a sua loucura,
ela, alheia a tudo,
dança até onde a música eleva os seus pés,
ardem-lhe os lábios, morde a dor, a vida
e nada recusa.
Dança até onde a tempestade a leva.

Maria João Cantinho

Foto de Amelia PS

ESTE É O LUGAR ONDE NASCE A MANHÃ

Este é o lugar onde nasce a manhã,
o canto mais alto,
ateando a leveza do mundo.

Não me peças senão
um sonho de crisálida,
no sono das tuas palavras
que se escoam sobre as minhas
pálpebras, a respiração dos corpos dos amantes
que se extinguem no instante
exacto, folheando a memória
do amor, terra e céu unidos.

Este é o canto mais alto,
o que não se escuta senão
na brancura secretíssima da luz.

Maria João Cantinho

Foto de carolcam

Devora-te a escuridão.
Percorrendo cada esquina, cada rua
e os cães conhecem-te o olhar
onde o líquido fel e o sabor a sangue
te inunda os lábios pelo despertar
de todas as manhãs.

Danças pela noite fora
como se o tempo te pertencesse
e lírios azuis florescem dos teus gestos,
tão absurdos e inúteis
como a tua valsa nos braços da noite.

Guardo a tua imagem nua e
etéreo corpo bebendo a luz,
tão perto da água e as estrelas reflectem
o teu improvável destino. Já não vês a vida.

O teu olhar sobrevoa a areia
do calcinado deserto. Não há esquecimento.
E são os dedos dóceis, embora firmes,
da tua solidão a escrever as cicatrizes
na tua pele os mapas da desolação,
onde retiras o alimento do teu destino.

Sem olhar para trás. E danças pela escuridão adentro
com vidros atravessando as pálpebras
do teu sono.

Maria João Cantinho

16/09/2008


Foto de carolcam

NO CORAÇÃO DA MAGNÓLIA

De repente a magnólia
pulsa, não digas a solidão.

Guarda tudo, pois a música escoa,
um rumor de chuva
mansa, cintila
no rastro da lua

e pulsa o coração,
chegam os seres da noite
de pálpebras carregadas
sonhos em filigrana,
o grito contido.

O orvalho acontece
por dentro, olhos recolhidos
na saudade, o frio,

de repente a magnólia
pulsa, e a escuridão
é um adágio, não digas a solidão.

Alguém que me lê
o centro do coração ilumina-se,
o poema flui e ouves
o canto, não as palavras
decepadas,
arrancadas à opacidade.

Ouves. No coração da magnólia.

Maria João Cantinho

07/09/2008


by houseofblues

um deus que caminha
invisível, por dentro dos jacarandás
desenhando a orla da noite
o arrepio do mar.

os barcos esperam-no
quietos, guardando a luz,
os olhos do deus, o seu deslizar
entre as águas tranquilas.

Maria João Cantinho

Foto de gilesleitao

A CANÇÃO POSSÍVEL

Poderei ainda, amor, cantar
o exercício da insuportável ternura
sem que a vida sucumba
às cicatrizes do passado?

Por mais que digamos,
as nossas bocas morrendo uma na outra,
entre espasmos,
ainda a rosa é pálida
e os nossos dedos não passarão de mendigos
que se tocam na espuma dos dias.

Por mais que digamos,
as palavras jamais saberão o caminho
que lhes é devido,
o caminho das flores do silêncio
esse o único que salva o amor,
cravando-o na boca de Deus.

É noite, ainda, meu amor,
e a lua vem beijar-te os ombros
o teu corpo procura o lugar do meu,
como se nenhum outro coubesse dentro dele
antigo como a noite.

E os dedos serão ainda em torno da luz,
buscando a chama, o fruto,
a ferida que as tuas palavras
rasgaram no meu corpo
em volta dessa insuportável ternura.

Maria João Cantinho