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13/08/2010
DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei.
E há tanto tempo
Entendo que sou terra.
Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu.
Pastor e nauta
Olha-me de novo.
Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hilst
tela by Jean Kevorkian
10/01/2010

by Willem Haenraets
Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.
Hilda Hilst
20/09/2009

by Willem Haenraets
DO AMOR
Costuro o infinito sobre o peito
E no entanto sou água fugidia e amarga
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedra, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.
Hilda Hilst
In blogger Alma Tua
06/06/2009

Foto de kaycatt*
É tempo para dizer
Se prefiro o teu amor
Àqueles, aos doces ares
Da minha campina em flor.
Tu que projetas e inventas
Estruturas ascendentes
Tu que conheces melhor
As coisas do querer bem
(Porque até agora te quis
E antes não quis ninguém)
Tu, bem o sei, me pressentes.
E mais ainda, me vês
Tão perto do querer ser
Deste amor sempre contente...
Ah, descantares, lamentos.
As leves coisas do tempo
Têm seu tempo e seus altares.
É tempo para escolher
O anoitecer nas planuras
E o contemplar luaceiros
E é tempo para calar
A história dos meus roteiros.
Paisagem, tu me alimentas
De verde, de sol, de amor.
E numa tarde tranquila,
Nos longes, seja onde fôr
Lembra-te um pouco de mim:
Que eu morra olhando as alturas .
E que a chuva no meu rosto
Faça crescer tenro caule
De flor.( Ainda que obscura)
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio
27/05/2009
25/05/2009

Foto de weirena
Falemos do amor,senhores,
Sem rodeios.
[Assim como quem fala
Dos inúmeros roteiros
De um passeio].
Tens amado? Claro.
Olhos e tato
Ou assim como tu és
Neste momento exato.
Frio, lúcido, compacto
Como me lês
Ou frágil e inexato
Como te vês.
Falemos do amor
Que é o que preocupa
Às gentes.
Anseio, perdição,paixão,
Tormento, tudo isso
Meus senhores
Vem de dentro.
E de dentro vem também
A náusea.E o desalento.
Amas o pássaro? O amor?
O cacto? Ou amas a mulher
De um amigo pacato.
Amas, te sentindo invasor
E sorrindo
Ou te sentindo invadido
E pedindo amor.(Sim?
Então não amas, meu senhor)
Mas falemos do amor
Que é o que preocupa
Às gentes: nasce de dentro
E nasce de repente.
Clamores e cuidados
Memórias e presença
Tudo isso tem raiz, senhor,
Na benquerença.
E é o amor ainda
A chama que consome
O peito dos heróis.
E é o amor, senhores,
Que enriquece, clarifica
E atormenta a vida.
E que se fale do amor
Tão sem rodeios
Assim como quem fala
Dos inúmeros roteiros
De um passeio.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio

Foto de weirena
Leva-me a um lugar onde a paisagem
Se pareça àquela das visões da mente.
Que seja verde o rio, claro o poente
Que seja longe e leve a minha viagem.
Leva-me sem ódio e sem amor
Despojada de tudo que não seja
Eu mesma. Morna estrutura sem cor
A minha vida.E sem velada beleza.
Leva-me e deixa-me só.Na singeleza
De apenas existir, sem vida externa.
E que nos escuros claustros do poema
Eu encontre afinal minha certeza.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio
21/05/2009

Foto de Henri Bonell
Tenho te amado tanto e de tal jeito
Como se a terra fosse um céu de brasa.
Abrasa assim de amor todo meu peito
Como se a vida fosse voo e asa.
Iniciação e fim. Amo-te ausente
Porque é de ausência o amor que se pressente.
E se é que este arder há de ser sempre
Hei de morrer de amor nascendo em mim.
Que mistério tão grande te aproxima
Deste poeta irreal e sem magia?
De onde vem este sopro que me anima
A olhar as coisas com o olhar que as cria?
Atormenta-me a vida de poesia
De amor e medo e de infinita espera.
E se é que te amo mais do que devia
Não sei o que se deva amar na terra.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio
20/05/2009

Foto de Henri Bonell
As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito,
Em labirinto de exígua ressonância.
Os solilóquios do amor não se eternizam.
E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio

Foto de Henri Bonell
Tenho medo de ti e deste amor
Que à noite se transforma em verso e rima.
E o medo de te amar, meu triste amor,
Afasta o que aos meus olhos aproxima.
Conheço as conveniências da retina.
Muita coisa aprendi do seus afetos:
Melhor colher os frutos na vindima
Que buscá-los em vão pelos desertos.
Melhor a solidão. Melhor ainda
Enlouquecendo os meus olhos, o escuro,
Que o súbito clarão de aurora vinda
Silenciosa dos vãos de um alto muro.
Melhor é não te ver. Antes ainda
Esquecer de que existe amor tão puro.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio

Foto de Henri Bonell
As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.
Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.
Tive casa e jardim.
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiuro
O porquê do jasmim
- Sua brancura, o cheiro.
Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio

Foto de Henri Bonell
As coisas que nos circundam
(Na aparência desiguais)
Conservam em suas essências
Ai, aquela mesma e triste
Parecença.
Difícil é escolher
Entre viver e morrer.
Difícil é o escutar-se
E ao mesmo tempo escutar
Rigores que vêm da terra
Lirismos que vêm do mar.
Auroras imprevisíveis
Entre Platão e Plutão.
Entre a verdade e os infernos
Dez passos de claridade
Dez passos de escuridão.
Consinto que me surpreendas
Dizendo palavras densas.
O não dizer é o que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.
Não tenho tido descanso
Do falarar de quem ama.
Amor é calar a trama
É inventar! É magia!
As palavras engenhosas
E os teus dizeres do dia
À noite não têm sentido
Quando arquiteto a elegia.
E sendo assim continuo
Meu roteiro de silêncio
Minha vida de poesia.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio

Foto de lcloss
Não te espantes da vontade
Do poeta
Em transmudar-se:
Quero e queria ser boi
Ser flor
Ser paisagem.
Sentir a brisa da tarde
Olhar os céus, ver às tardes
Meus irmãos, bezerros, hastes,
Amar o verde, pascer,
Nascer
Junto à terra,
(À noite amar as estrelas)
Ter olhos claros, ausentes,
Sem o saber ser contente
De ser boi, ser flor, paisagem.
Não te espantes. E reserva
Teu sorriso para os homens
Que a todo custo hão de ser
Oradores, eruditos,
Doutos doutores
Fronte e cerne endurecido.
Quero e queria ser boi
Antes de querer ser flor.
E na planície, no monte,
Movendo com igual compasso
A carcaça e os leves cascos
(Olhando além do horizonte)
Um pensamento eu teria:
Mais vale a mente vazia.
E sendo boi, sou ternura.
Aunque pueda parecer
Que del poeta
Es locura.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio
17/05/2009

fotodependente.com/img2217.htm
Companheiros, é de lua
A noite que vem chegando.
Para engolir o meu pranto
Que eu não saiba de outras vidas
Nem dos que estão se matando.
Já tive tantas desditas
Que é preciso ir inventando
Caminhos novos, veleiros
(Além do mais navegando
Se conhece o marinheiro).
Verdade é que tu me dizes:
O amor, poeta,
É alegria.
Por isso é que estou tramando
Viagens, vínculos,dádivas
Por isso a noite é de lua
E o coração é de Brasa.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio

Foto de Grace Olsson Fotograf
O tempo é na verdade o do retorno.
Pensa como se agora fossemos argila
E estivéssemos sós e mudos, lado a lado.
Por um momento(se viessem chuvas)
Talvez se misturasse o meu corpo com o teu
E um gosto de terra úmida aproximasse
Brandamente
As nossas bocas.
Que seja assim lembrada a tua ausência:
Como se nunca tivéssemos nascido
Sangue e nervos. Como se nunca tivéssemos
Conhecido a verdade e a beleza do amor.
Pensa como seria se não fossemos.
E não houvesse o pranto, o ódio, o desencontro.
O tempo é na verdade o do retorno.
Se não for amanhã, será um dia.
O céu azul e limpo, o mar tranquilo
Pássaros e peixes, pássaros e peixes
Mais nada.
Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio
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