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09/11/2021

PEQUENO COSMOS




Ah, rosas, não, nem frutos, nem rebentos. 
Horta e jardim sobejam nestes versos
De consonâncias velhas e bordões.

Navegante dum espaço que rodeio
(Noutra hora diria que infinito),
É por fome de frutos e de rosas
Que a frouxidão da pele ao osso chega.

Assim árido, e leve, me transformo:
Matéria combustível na caldeira
Que as estrelas ateiam onde passo.

Talvez, enfim, o aço apure e faça

Do espelho em que me veja e redefina.

- José Saramago 
 de "Os poemas possíveis". 

BALANÇA





Com pesos duvidosos me sujeito
À balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
Se julgar, assistir, ou ser julgado.
Ponho no prato raso quanto sou,
Matérias, outras não, que me fizeram,
O sonho fugidiço, o desespero
De prender violento ou descuidar
A sombra que me vai medindo os dias;
Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
Traições naturais e relutâncias,
Ponho o que há de amor, a sua urgência,
O gosto de passar entre as estrelas,
A certeza de ser que só teria
Se viesses pesar-me, poesia.

 José Saramago,
 de Os poemas possíveis 
arte Dorina Costras

18/12/2012

NESTA RASA POBREZA



Nesta rasa pobreza que ficou
De jardins floridos, de searas
Como espelhos do sol ao meio-dia,
Quem esperaria que nascessem nardos
E que as romãs abertas mostrariam
Corações lapidados e auroras?
Mas todo o tempo é tempo começado,
E a terra adivinhada, transparente,
Cobre a fonte serena e misteriosa
Que torna a sede ardente 

José Saramago
In Provavelmente Alegria
tela Amadeu Luciano Lorenzatto 

TEU CORPO DE TERRA E ÁGUA




Teu corpo de terra e água
Onde a quilha do meu barco
Onde a relha do arado
Abrem rotas e caminho

Teu ventre de seivas brancas
Tuas rosas paralelas
Tua colunas teu centro
Teu fogo de verde pinho

Tua boca verdadeira
Teu destino minha alma
Tua balança de prata
Teus olhos de mel e vinho

Bem que o mundo não seria
Se o nosso amor lhe faltasse
Mas as manhãs que não temos
São nossos lençóis de linho

José Saramago
In Provavelmente  Alegria 
tela Lauri Blank 

29/08/2012

MANHÃ




Altos os troncos, e no silêncio os cantos:
A hora da manhã, a nós nascida,
Cobre de verde e azul o gesto simples
Com que me  dás, a tua vida.
 
Confiança das mãos, dos olhos calmos,
Donde a sombra das mágoas e dos prantos
Como a noite do bosque  se retira:
Altos os troncos, e no alto os cantos.
 
José Saramago

BRANCO O TEU PEITO




Branco o teu peito, ou sob a pele doirado?
E os agudos cristais, ou rosas encrespadas
Como acesos sinais na fortuna do seio?
Que morangos macios, que sede inconformada,
Que vertigem nas dunas que se alteiam
Quando o vento do sangue dobra as águas
E em brancura vogamos, mortos de oiro.
 
José Saramago

23/07/2012

NA ILHA POR VEZES HABITADA



Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


José Saramago
In Provavelmente Alegria
tela William Holman Hunt 

CAVALARIA



Cheguei esporas ao cavalo
E os sentimentos exaustos
Deram saltos no regalo
Das gualdrapas e dos faustos

A relva cheirava a palha
Desmanchei rosas vermelhas
Mas pasto foi maravalha
Sabia ao sarro das selhas

Porque o cavalo era eu
O cansaço e as  esporas
Tudo eu e a cor do céu
Mais o gosto das amoras

Relinchos eram os versos
Com jeito de ferradura
Que fazia por dar sorte
Mas tantos foram reversos
Que o ventre de serradura
Deu um estoiro deu a morte

Cai a montada no chão
Cai por terra o cavaleiro
Que era eu (como se viu)
Da escola de equitação
Vim ao saber verdadeiro
Das transparências do rio

Agora dentro do barco
Nos remos brancas grinaldas
Tenho os teus braços em arco
Com um colar de esmeraldas 

José Saramago
In Provavelmente Alegria
tela Willen Haenraets

21/07/2012

INTIMIDADE



No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

 Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,


 No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago,1977
tela Gerard-Daran

19/07/2012

AINDA AGORA É MANHÃ


Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.


José Saramago
In Provavelmente Alegria
tela Yuriy Dubinin

O PRIMEIRO POEMA


Água, brancura e luz da madrugada,
E nardos orvalhados, olhos tardos,
E regressos de longe, lentos, vagos,
De espiral que se expande, ou nebulosa.
Assim diria que o mundo se criou:
Gesto liso das mãos do universo
Com perfumes e auras que anunciam,
Noutras mãos de quimera, outro verso.


José Saramago
In Provavelmente Alegria
tela Dorina Costras

02/10/2011

O BEIJO


Hoje, não sei porquê, o vento teve um grande gesto
de renúncia , e as árvores aceitaram a imobilidade.
No entanto ( e é bem que assim seja) uma viola
organiza obstinadamente o espaço da solidão.
Ficamos sabendo que as flores se alimentam na fértil
humidade.
É essa a verdade da saliva.

José Saramago
In Provavelmente Alegria
The Kiss - Gustav Klimt

AO INFERNO, SENHORES


Ao inferno, senhores , ao inferno dos homens,
Lá onde não fogueiras, mas desertos.
Vinde todos comigo, irmãos ou inimigos,
A ver se povoamos esta ausência
Chamada solidão.
E tu, claro amor, palavra nova,
Que a tua mão não deixe a minha mão.

José Saramago
In Provavelmente Alegria 

27/09/2011

OBRA DE FOGO


Lama, detrito, entulho, lixo e côdeas:
Onde estão as vassouras que me varram,
Onde estão as mangueiras, as lixívias,
Que me lavem dos escarros que me escarram? 

Onde estão as purezas mais profundas,
As faces,que eram minhas, da vergonha,
A língua original, antes que fosse
A via da mentira e da peçonha ?

Onde estão os meus olhos sem remela
E a brancura da alma, grave e nua?
Quem partiu os espelhos que falavam,
Quem me pôs espantalhos nesta rua?

Quem foi e quem sujou? Quem, e porquê?
Mas na funda estrumeira vai lavrando
Lento,seguro e oculto o grande incêndio
Que será a resposta do teu quando.

José Saramago
In Provavelmente Alegria

DEVAGAR,VOU DESCENDO


Devagar, vou descendo entre corais.
Abro, dissolvo o corpo: fontes minhas
De águas brancas, secretas, reunidas
Ao orvalho das rosas escondidas.

José Saramago
In Provavelmente Alegria

26/09/2011

AMANHECER

 
Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
 José Saramago
foto  melusina

23/08/2011

FORJA


Quero branco o poema, e ruivo ardente
O metal duro da rima fragorosa,
Quero o corpo suado, incandescente,
Na bigorna sonora e corajosa,
E que a obra saída desta forja
Seja simples e fresca como a rosa.

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto por gbyrne2

19/06/2011

PALMA COM PALMA


















Palma com palma,
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras
São espelhos rigorosos da verdade
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade.

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto de ruslou

11/06/2011

PARÁBOLA
















Num caroço de mentira
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida

Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira

Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra

Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento

E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto de   pycik

ANTES CALADOS


















E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?

(Mais perguntas,amor? Antes calados.)

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto por marcia.piva