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26/10/2021

ENREDO PARA LEMBRANÇAS

 

Ah! Mãe
que tempos aqueles
em que éramos apenas puros
e o peso de parcos saberes
não nos curvava o dorso
e essa densa nuvem de mágoas
não te turvava as águas!

Ah! Mãe
que tempos aqueles
em que no domingo de maio
pisavas caminhos de flores
sabias do amor de teus filhos
traduzidos em argila
de corações esculpidos!

Ah! Mãe
que tempos aqueles
em que nas águas das chuvas
lavávamos nossa inocência
nos olhos de crianças 
e não dizíamos nada
que te despertasse do encanto!

Ah! Mãe
que tempos aqueles...

Joinville, maio, 91.

Maria Lúcia Nascimento Capozzi
de Álbum de Retratos
arte Angela Loennig


27/07/2011

DE ANDORINHAS E PALAVRAS



As palavras recusam-se a guardar silêncios.
Libertam-se em sonhos de sílex
estilhaçam redomas de vidro
-cristalizadas memórias-
para irromper na manhã
de imprevista pauta anunciada
por andorinhas pousadas nos fios
acasaladas em breves semibreves:
palavras na iminência de ser música
palavras de asas, sombras e sons
-canção de luz invisível-
palavras que soam e voam
-partitura em revoada-
palavras rompendo amarras
irrompendo em novos poemas!

Joinville, verão 92.

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Álbum de Retratos
foto por Jose Sousa

20/02/2011

RUA XAVIER DA VEIGA 13




A quem revelarei que a inefável manhã
reacendeu-se nesse breve instante
nos passos do vulto esguio a subir e descer ladeiras
assim que a noite se escoou
por trás do horizonte tortuoso
no recorte das montanhas das Minas Gerais?

A quem anunciarei que as andorinhas
adivinharam a manhã enevoada
guardada nas rendas das beiras e nas eiras
no voo rasante sobre a relva úmida
lagrimada de gotas dos olhos diamantes
ou entre o soar dos velhos bronzes
que ferem o silêncio de Ouro Preto?

A quem confessarei enternecida
senão à pequerna ave toutinegra
pousada no alpendre da antiga Pousada
que seu gorjeio despertará Marílias e memórias
de um tempo de calúnias e verdades
sonhos e vigílias, sangues, suores e sons
das vozes  d´Africa, Brasil e Portugal?

A quem confidenciarei tão comovida
que os bem-te-vis aqui estão há séculos
anunciando a perpetuidade
do tempo guardado sob as heras
dos muros e azulejos da antiga vivenda
das seis sinhás, seus sonhos, seus saraus:
"Procura ser feliz na eternidade
que o mundo são brevíssimos instantes"?

A quem direi, enfim, que Vila Rica
dorme ao som mudo de Stella ao piano
na água fresca contida nas morimgas
nos segredos de Emília guardados no baú
a lacre e selo
na voz silente do vento nas vidraças
das janelas barrocas abertas aos meus regressos?

A quem direi, a quem direi, a quem?

Ouro Preto, setembro,92.

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Álbum de Retratos


REMEMÓRIAS DE LUTÉCIA




"Paris, os dias chamam sobre a palma
do teu sol escondido, negro e frio."
Carlos Nejar

Enquanto as tílias esperam pelas chuvas
nenhum sol me aquece na lenta despedida
no Sena águas refletem o verde-ouro
das folhas dançantes em águas estanhadas.

Memórias que passeiam no tempo suspenso
espalham-se nas águas que olho e reflito:
além da Pont d´Alma, além da harmonia
que outras imagens irão preencher o vácuo?

Ao desprenderem-se as folhas das tílias
em brônzeos voos de amarelos laivos
aladas formas contra o céu de outono
incendeiam minha manhã tão fria.

No brilho que desnuda as minhas carências
e acende o lume das verdades minhas
na idílica paisagem procuro um rosto:
que outras faces irão preencher a ausência?

Paris, outono,91.

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Album de Retratos
foto de  Rodrigo Vieira Soares no Flickr

25/12/2010

PICTURAL




Além da moldura da janela
a vida nua:
maduras sementes de romã
expostas ao sol de setembro.

Para dentro da moldura
subjaz na mudez do cabine
o casaco vazio
sem gestos.
O guarda-chuva inútil
colhe florinhas miúdas
de uma antiga tela de Monet.

Dizem das águas que virão em breve
inundar o róseo
o translúcido ventre
da romã pendente.
Oscilante
vulvar e tímida.

A romãzeira frágil
- testemunha ocular do óbvio -
revela direitos e avessos
de presença e ausências.
Outonos.Primaveras.
Tons e sobretons.
Poema traçado em finos gestos.
Tela composta em palavras:
pictural.

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In A Literatura Possível
tela de Claude Monet

06/08/2010

CANÇÃO AO PAI DISTANTE




Rastreio em mim
silenciosas dores
noturnas penas
voos solitários
buscando luzes
chaves-claridades
do escuro enigma
o ponto de ruptura.

Em que noite escura, pai, nós nos perdemos?

em vão percorro
caminhos já trilhados
desertas ruas
becos sem saída
em meio a tantas sombras
eu te procuro
em ressonâncias
de canções inúteis.

Em que cantiga triste, pai, emudecemos?

Cravo as unhas afiadas
nas nossas memórias
até que o sangue
aflore em minha pele
lembranças esculpam
gotas do meu pranto
lavando na alma
as noites assombradas.

Em que rastro de luz pai, nós, nos veremos?

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Álbum de Retratos 
tela by Carol Walklin





AMANHECENTE





Busco breves claridades
o eterno apelo da luz
em sombras inexoráveis
de silenciosa ausência
sedenta de tuas fontes
na noite de horas fundas
que sangram predestinadas
aos sonhos agonizantes.

Tateando meus desejos
meus dedos contornam sóis
em tua presença-lembrança
extingue-se a madrugada
em jorro translúcido-orgástico
principia a claridade:
aljofarado de tuas mornas águas
perolizado à luz de gotas do teu sumo
o dia se faz sobre o meu corpo...

Maria Lucia N.Capozzi
In Álbum de retrato
tela by Sir John Everett Millais


NOTURNAL
























Meu barco zarpa em busca dos teus olhos
fontes de luz em meio a densa escuridão
agora que a noite não é só luar e estrelas
e a longa vigília já cerra minhas pálpebras
renasço, trazendo teu destino em minhas mãos!

Velívolo, dentro do antigo silêncio noturno
penetra nas cores invisíveis dos meus sonhos
obeverados de azul profundo e canções marinas
enquanto rememoro rumores de chuvas, ventos
e antiquíssimas ternuras em tuas mãos, amado!

Maria Lucia N.Capozzi
In Álbum de Retratos

tela by Baron Francois Pascal Simon Gerard



19/07/2010

EPIFANIA























"E disse Deus à mulher: tu parirás
  teus filhos em dor..."

Ave! Maria plena de graças,
Que à luz trouxeste a Luz humanizada!

Bendita sejas tu entre as mulheres todas
sacralizadas em colpos,clonos e cisalhas
renovadoras do mistério belo
da Vida Eterna por ti reinventada!

Na soledade das cercanias de Belém
bendito é o fruto da parturição celíflua
Brithânia Eterna no ventre da Terra
que te fez deípara para a Humanidade!

Doce Maria, mãe de Deus Menino
diviniza nossos tão sagrados partos
balsamiza nossas dores não sagradas
roga por nós na tua epifania!

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Álbum de Retratos
Tela by Lorenzo Costa

15/07/2010

MUSICANTIGA




Da tua doce flauta
renascerá vibrante
o som mais puro
que reascenderá
a vida, a chama,
a luz do escuro!

Despertará no toque
as cordas dedilháveis
do meu alaúde,
devolverá ao mundo
a música esquecida
e a plenitude!

Nesse feliz dueto
sons de madrigais,
dança, luz e cor.
Porque na madrugada,
ao som da tua flauta
ressurgirá o amor!

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Espelho de Mim
Tela by Roth

14/07/2010

TALANTE




Da concha das minhas mãos unidas
- predestinado ninho metafísico-
parte, alígera, em tua definitiva busca
a minha renascida alma-andorinha!

Sobrevoa teus espaços-solidão-clausuras,
ruas escuras nas tuas veias, os teus silêncios
para penetrar nas frestas das tuas janelas,
pousar no teu ombro-porto das minhas esperas!

Alço novos voos, coreografo movimentos-luz,
acordo o sol para iluminar o teu cenário triste
acendo as luzes do dia para a tua festa
que jorrará-azul de nunca mais ter fim!

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Espelho de Mim
tela by Frantisek Drtikol- The Soul,1930


TRANSCENDENTAL




Retroceder,
penetrar na sua espiral
no inverso sentido do tempo,
procurar:

o curso do rio
a fonte da luz
a trilha do sonho
a pedra filosofal
a quintessência da alma!

Renascer,
desaguar no seu lento caudal,
ter inteiro sentido do tempo,
encontrar:

a água pura da fonte
o exato momento da luz
o preciso mistério do sonho
a perfeita alquimia do ouro
a eterna presença de Deus!

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Espelho de Mim
tela by Doug West 





Apesar do desamparo dos desencontros.
do desespero dos descaminhos,
do desencanto dos desamores,
do desacerto dos desabafos,
do desafio dos desagrados,
do desalinho dos descontroles,
do desapego dos desalmados,
do desconsolo dos desvalidos,
do desacato dos descontentes,
do descompasso dos desatinos,
Eu permaneço e descanso em Ti,Senhor!

Maria Lucia Nascimento Capozzi
in Espelho de Mim
tela by Paolo Caliari Veronese

08/05/2010


Under The Horse Chestnut Tree,by Mary Cassatt

MÃE

Amar-te, hoje,
é compreender o primeiro acontecimento
alcançar o sentido exato da criação
plasmação de universos-vida
e impregnar-me de ti, Mãe !

Abrir-me, agora,
para a poesia concebida sem alardes
regressar à lentidão dos dias passados
reencontrando a pureza do tempo vivido
na certeza de que amanhã
haverá mais uma estrela
para livrá-la das noites
e preparar-te claridades ...

Amar-te, sempre,
com o segredo eterno das pedras
imóveis e silenciosas
inundadas de tua luz crescente
onde desenho meu perfil de filha
redescubro sonhos nos olhos velados
olhos d'água de antigos riachos
ritmados regatos de saudades
abeverados de tua terna presença, Mãe!

Maria Lucia N.Capozzi
In Álbum de Retratos

01/05/2010


foto by olhares.com

DUAL

Lembranças em silêncio se insinuam
feito a luz que se infiltra pela fresta
qual o vento que não posso acorrentar
a indagar-me de nossa afinidade metafísica.

Refaço tua face à luz do lusco-fusco
pressinto-te no vôo da andorinha
alada alma do verão igual à minha
que é pássara e voa, e cicia.

Respiro ares que não são os teus
partilho o encontro da água e da sede
pergunto-me se noite é sombra ou estrela
se é das almas ou dos corpos em conflito?

Maria L.Nascimeno Capozzi
In Álbum de Retratos

25/01/2010


Sea Serpents (Detail) by Gustav Klimt

ATEMPORAL

Todas as tardes o sol morre no final
da minha rua.
Agonia lenta e iluminada.
Analogamente, penso na morte nossa
de cada dia
cada sono é uma pequena morte,
ensaio diario para o grande desenlace
de cada vida.
Entretanto, em todas as manhãs
o sol ressuscita na visão da minha janela.
Nascimento lento e iluminado.
Ponderadamente, abstraio a idéia do ciclo:
vida-morte,morte-vida.
Horas de morte - libertação - a cada noite,
horas de vida - condenação - a cada dia.
É a morte antecedendo a vida,
é a vida antecendedo a morte.
Vidamortevida: sequência que não se finda,
grande desafio do cotidiano,
testemunho de eternidade.

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Espelho de Mim

21/01/2010


foto by naasadovento.wordpress

AZUL POEMA AZUL PARA MARIO QUINTANA

Acima dessas frágeis manhãs que te guardam
há o irreversível azul que persiste em teus olhos
atravessando os dias e as noites em que habitas:
há revoadas de anjos sonâmbulos
azulinos pássaros voando contra o azul
sons d'água pura a escorrer da bilha
inundando de azul o arco do algibe
- o mais límpido cristal de tuas fontes -
à luz vertente da estrela Aldebarã!
Além dessas silenciosas sombras que te envolvem
há um caminho florido em azul para trilhares
enquanto o vento dorme azulecido nos telhados
das casas e ruazinhas tranquilas da cidade
azulejadas dessas coisas tão mínimas da vida
que tu cantavas e luarizavas nas canções
sob a luz dos lampiões nas esquinas da poesia
onde encontravas moedinhas perdidas pelo chão
naquela mesma luz que há de estar a enluarar agora
as altas janelas de teus sonhos!
Através dessas sombras solitárias de tuas pálpebras
a palavra azul esplende nos diamantes
que tuas mãos poliam e teus olhos pintavam
e teus sonhos sonhavam nas enchentes de luz:
o fino hastil do poema soprado pelo vento
que se escondia no horizonte azulíneo do Tempo
em que Cecília te chegava de um pátio de infância
os olhos profundos e as mãos eternamente amadas
a dizer-te que nem tudo está perdido:
que tu nunca morres e nem te esqueces das palavras.

Maria Lucia Nasimento Capozzi
In A Literatura Possível

16/01/2010


foto de Luiz Schiel

TEMPUS FUGIT

Caminho pelo Tempo há muitas eras
meus pés a pisar eternidades
ouvindo passos em silêncios seculares
movida a mortes,vidas e verdades
a reinventar a alma imaginada.

Nenhum Tempo me supre plenamente
as carências contidas a ferro e fugas
enquanto colho as maças de antigamente
de fecundas sementes germinadas
busco os caminhos que vão dar na luz.

Porque o Tempo não me é revelado
nas constelações, nas luzes-madrugadas
eu, aprisionada em pele, fibras e neurônios
nem sólida nem líquida, mas etérea
caminho de mãos dadas com a Morte.

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Álbum de Retratos.

Foto de Luiz Schiel no Flickr

POLIÁLOGO
Para Marialuiza Ribeiro Pazinatto

Deixemos que o mar das rememórias
nos batize de água e sal.
Que o Tempo aflore aos nossos olhos
em espirais de luz-tempo tangíveis.
Precisamos saber dos reencontros
na luz difusa do vivido gota a gota.

Tu me pressentes na antiquíssima paisagem?

Através do vidro fosco das vivências
revejo a nós, olhos lavados pelas vidas
puras e ambíguas como um teorema
entrelaçadas, descendo pelo Tempo
a entoar o canto e o contra canto.

Que doces tâmaras um dia colhemos?

Procuro o Tempo em palavras e diálogos
com a devoção de quem faz um poema:
te reconheço múltipla, eu multifacetada
nossas faces sitiadas nas muitas visões
de espaços não medidos palmo a palmo.

Virias do passado acaso eu te chamasse?

Sou relógio de Sol, tu clarão da lua
envolvidos nos quatro indivissíveis elementos.
Da amoro-da-mata sabemos o travo na boca
que há o sal úmido e o açucar cândi
serpentes e anêmonas marinhas
asas,labirintos,ponto e contraponto.

Lembra-te que antigamente sabíamos voar?

Leo obscurecido em sombras,Sol posto em Aquário
anoitecimento marcado no Zodíaco
sutiliza karmas de nossos signos antípodas
em cósmica-telúrica completude
dos caminhos traçados passo a passo:

Viemos da Luz para ser a luz ou a sombra?

Americana, novembro,92

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Álbum de Retratos

Foto de melpeatfield no Flickr
Ilha de São Francisco do Sul/SC

SÃO FRANSCISCO DO SUL

Hoje eu amo
a pequena cidade silenciosa
onde a paz aninha
junto aos pássaros da ilha
nos beirais das casas seculares
de janelas azuis e calmas
pintadas de puro dia
com pesadas portas entreabertas
por onde passam solenes
antigas almas amigas
com suas brancas asas
e seus semblantes diáfanos
despertando sonhos e memórias.

Hoje eu percorro
as estreitas ruas tortuosas
que conduzem à clareza cristalina
dos sonhos revividos
quando piso estes chãos antigos
impregnados de dias passados
povoados de voláteis vultos
amados vultos íntimos
que evocam as cantigas
as cirandas das meninas
o adro da velha igreja
familiarizada com os séculos
que se escoam lentos
como as nossas vidas...

Ilha de São Francisco ,abril 91

Maria Lucia Nascimento Capozzi
In Álbum de Retrato