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28/01/2014



De repente, este espaço vazio,
vozes sumindo, o vento sussurrando
em folhas...


  De repente, a memória das palavras,
imagem e som em filigranas...


  (tua possibilidade espiada 
entre frestas de janelas e portas)


  Num lance de dados
te encontro, te acaricio, doce poesia...


  Filtro emoções, recomponho o universo,
só, feliz, repentinamente...

 

Fernando Campanella
In Palavrares
foto Tiina Gill (busy)

ENTRE POLOS




Há uma luz que incide em nossos corpos,
às vezes vaga, às vezes lume,
às vezes arco que constela de cores
as vias tortuosas de nossa estrada. 
Se enfrentei os mastodontes da noite
e minha armadura, ainda assim, 
revestiu-se de nada, eu me rendo:
esta luz que oscila entre nossos polos,
ora magra, ora vasta, é ganho, é graça -

desenha-me um azul no glaciar da alma
e me retrata. 


 Fernando Campanella
In blog Palavreares
arte Leonid Afremov
 

12/06/2013

REQUIESCAT




De meu mar, ofereço-te as ondas
e  as praias que poéticas conchas te trazem.

Tais suaves mistérios te concedo, mais as algas
e as gaivotas que bicam tecidos de luz na tarde.

Povoados de ti, de mim, os barcos que chegam
 e  ardem

Adere-te pois ao sal que a mim te chama,
cobre teus pés em espuma e encanto,
imerge teu rosto
nas claras águas que o dia me abre.

Fernando Campanella
foto de lotus8

19/07/2012

CÂNTICOS



Certos cantares são quase eternos,
nascem de outros que sabem a outros
que beberam às fontes,
aos fundamentos do ar.

Certas canções, as trazemos do berço
Ou de antes dos salmos,
as entoamos de cor
anônimas, acéfalas,
só corações pulsantes
de lágrimas e pétalas.

Priscos diamantes -
Cantigas, idílios ou cânticos -
certos cantares seriam eternos
(Os anjos não considerados)
não fosse o princípio,
e desde o princípio
é então a glória do verbo:
amar.


Fernando Campanella
tela  Dorina Costras

17/07/2012

OLHOS



 Dois pássaros voam,
de um leve azul inebriados.
De onde os vejo
Só há o espelho quieto de um lago.
E já não sei o que é mais visível
se o que enxergo, as aves,
com meus olhos,
ou se aquelas flautas moventes
sincronizadas,
que sonho
com os olhos quietos do lago.

Fernando Campanella
Imagem  Bibra Lake, Western Australia

TUA BELEZA



 Tua beleza, inconsciente de si,
Me puxa em seus encantos
Para o seu leito.
Mas o que fazer de tua beleza
Senão sofrer/gozá-la em doses
de solidões noturnas e densas?
(Senão armá-la em vaso
Para decantar a mesa.)
Como um jardineiro de ventos
Prefiro ver-te
Heras galgando muros
Ervas tecendo pastos
Ou aérea flor da memória.
Amar tua beleza , não mais,
Como cor que não apreendo
Rio que não detenho
e que passa.

Fernando Campanella
tela Yuri Yarosh

ASSIM NOS CÉUS

 

 O contorno de um jarro,
a etérea rosa,
o piano
em teclas de sonho a vibrar:
... um solitário noturno ou, quem sabe,
um mais que eterno romance,
uma serenata a duas mãos
tocada.
Assim nos céus,
À pálida memória de uma lua
ou de velas a bruxulear,
espectros de noivos,
irredimíveis ébrios de amor,
em alcovas de brumas
a valsar.


Fernando Campanella
  tela Michael Solovyev

12/03/2012

JUBILAÇÃO (OUROBOROS)




Deus me deu um amor na madureza...
(Carlos Drummond de Andrade)


Concedeu-me Deus um amor aos cinquenta
quando  Eros põe as barbas de molho
já transposto o vale das primícias
e das tormentas;

estendeu-me para leito o alvo linho,
acercou-me dos anjos de Jó,
deu-me calhas, de anteparo, para a tempestade

e de minhas cismas fez um Éden redivivo -

pôs a arder em mim a chama mesma
dos que não tomam o santo nome do tempo
em vão.

Para o gozo deu-me romã e serpente,
e a vontade infinda, a fome grata de menino.


Fernando Campanella
tela Eros; detalhe de óleo sobre tela de Parmigiano (1503-1540)

09/03/2012

POESIA,VERSÍCULOS


I

Tão real em sua idealidade,
não é de facto, nem de prosa.

II

Vem de longes, sem anúncio ou alarde -
de quando era a cor da pele a palavra.

III

Abro-lhe a janela, que se hospede
mas que arrume novamente o quarto.

IV

Bate-me com os pés seu ritmo,
faz-me dançar qual índio, imberbe.

V

Vive a me lembrar seus cânones,
intemporal, nem se importa
com que os ventos mudem
e que com eles girem as palavras.

VI

Fica o tempo que determina,
que lhe agrada.

VII

Quando parte, sem acordo de volta,
deixa-me síncopes, lapsos
que entrecortam madrugadas.

Fernando Campanella
tela Zsolt Zsigmondn

04/03/2012

O EU CONFESSO (FRAGMENTO)



 ...Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha...
(Canção da tarde no campo, Cecília Meireles)

Haverá um dia
em que alguém lerá meus versos
mas neles abstraído já não me acho.
Não um dia como este, de pretensões confessas,
quando tudo que fiz conta, ou não.
Ou não haverá hora e vez
para toda idiossincrasia.

Cria do tempo, escrevo e passo.
Mas se me buscares, transpõe os versos,
encontra me lá, à fímbria da tarde,
quando pássaros voarem
sobre capinzais em flor.

Fernando Campanella

17/01/2012

ARCO DE CORES



dobrei o labirinto
e lá ele estava
assente, como um farol
- não indaguei quando
nem quis saber por que -

melhor que as belezas
aconteçam assim
- um engaste do tempo -
um instante sem fim

Fernando Campanella
In Palavreares
foto por Fernando Campanella

05/01/2012

LEGADO



Os gansos sobrenadam o lago
descuidados da hora de partir,
meus dedos ocupados os contam,
minha alma é meu tesouro ao se abrir.
Do mundo certas uvas da melhor cepa eu colho,
deste doce vinho, meu legado,
outras almas um dia beberão por mim.

Fernando Campanella
tela Leonid Afremov

04/01/2012

OFÍCIO


Naturezas de borboleta
forjam casulos em silêncio.
Em segredo, universos tramam
O absoluto florescimento.

Tanta beleza em surdina
que já não se conta o tempo.

O ferreiro tece o concreto
em diurno alheamento.

Também meu ofício de arte
por estas vias se encorpa.
Tanta mobilidade, tantas formas
me saíram do bolso
assim como do nada
no mais desprovido silêncio.

Fernando Campanella
tela Edward Robert Hughes (1851-1914),

TRAJETÓRIA


Não proclames tuas palavras
quando a força de uma divina mão
te arrebatar para um centro
invisível e imóvel.

Como o mistério nos campos
de uma semente vingada
serás lançado a uma solidão imensa
mas não a profanes com impropérios
de teus conhecidos fantasmas.
Pode já não ser a angústia,
pode já não ser o tédio
se a alma assume, atemporal, a trajetória.

Fernando Campanella
tela Frederick Pickford Marriott (1860-1941),  

E MINHAS ÁGUAS ORDENARÃO SEU CURSO


beber do liberado vinho
entoar meu íntimo canto
que a opressão dentro de mim dói
e quero a plenitude dos campos
Deixa-me dos gansos de arribação

que me fique o espaço para ouvir o vento
e o silêncio que o vento assopra
nos interstícios das águas

- não quero asas desjuntas-
deixa-me o corpo em vida, e a fantasia ,
para que das vias torpes não desfolhe eu
apenas as pétalas frias

deixa-me ser o que somos , amplamente,
na multidão dissonante dos eus

deixa-me assim até que te perceba
e apaziguado te toque

e minhas águas ordenarão seu curso
e minhas ilhas já não serão sem braços.

(Fernando Campanella, 1988)
In Palavreares
tela Margaret Jordan Patterson

24/03/2011

OUTONO



uma aragem
uma estação
um rito de passagem...
um cão sem pelo
...em cima do muro:
não é lava nem gelo
nem claro nem escuro
uma luz quase sedada
em transição
(as árvores confrangem;
os ursos já estendem
suas camas)
um sopro
esta alma esvoaçada
um verso
uma folha de mim
à tua janela
deixada.
Fernando Campanella
tela de Longo

12/01/2011

E ME ALIVIA...



Eu me alegro
à terra firme
sob meus sapatos
surrados

refaço as pedras
retomo as insanidades
do meio dia

- irrelevantes agora
a velha praga da horta
e os ratos
da minha cozinha -

acaricio as ranhuras
da minha porta

ajoelho, beijo o solo
da alma reencontrada.
(No eco das sombras
já não havia ternura
e podaram-se os jardins
das palavras)

Até que à fria gosma dos musgos
eu me confunda
e a surda ausência me destitua,
amor, me toma, e me alivia.

Fernando Campanella, 2006
Blogger Palavreares

QUE PASSA...



Tua beleza, inconsciente de si,
me puxa em seus encantos
para o seu leito.

Mas o que fazer de tua beleza
senão enquadrá-la em vaso
para nutrir a mesa

senão sofrer/gozá-la em doses
de venenos súbitos e densos...

Como um jardineiro de ventos
prefiro ver-te
eras galgando muros
ervas tecendo pastos
ou aérea flor da memória.

Amar tua beleza, não mais,
como cor que não apreendo
rio que não estanco
e que passa...

Fernando Campanella
Blogger Palavreares


aquelas gotas de chuva
nas folhas
pesam, pesam...

e se tornam leves
quando não são mais tempo

e

caem

Fernando Campanella
Blogger Palavreares

07/11/2010

REFABULANDO


Estas cigarras toantes
flutuam na sã inconsciência
de um sono.

Estas belezas -
não as perturbes, não as toques -
crepitam em líquidas texturas
de sonho.

Mas se buscares que despertem
afina os ouvidos, achega-te,
imperceptível, leve, e mais leve
e como elas, enquanto verão,
arde então, e canta.

Fernando Campanella
retirado do blogger Palavreares
foto de Happy Monkey no Flickr