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21/10/2013

SERENA



Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.
 
Henriqueta Lisboa
In Azul Profundo


26/03/2013

TUAS PALAVRAS, AMOR




Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!
Eu não as tinha pressentido,
eu era como a terra sonolenta e exausta
sob a inclemência do céu carregado de nuvens,
quando, igual a uma chuva torrencial de verão,
tuas palavras caíram da altura em cheio
e se infiltraram nos meus tecidos.

O' a minha pletora de alegria!...
As árvores bracejaram recebendo as bátegas entre
                                                                                   as ramas,
as coroas bailaram numa ostentação de taças repletas,
os frutos amadurecidos rolaram bêbedos no solo,
E eu vivi a minha hora máxima de lucidez e loucura
sob a chuva torrencial de verão!

Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!...
Minha alma era um rochedo solitário no meio das ondas,
perdido de todas as cousas do mundo,
quando, ao passar dentro da noite na tua caravela
                                                                                fugaz,
tu me enviaste a mensagem suprema da vida.
A tua saudação foi como um bando de alvoroçadas gaivotas
subindo pelas escarpas do rochedo, contornando-lhe
                                                                                     as arestas,
aureolando-lhe os cumes.

E a minha alma esmoreceu ao luar dessa noite,
- ilha branca da paz, num sonho acordado...

Amor, como são belas e misteriosas as tuas palavras!...
 
Henriqueta Lisboa
In Traço de Poeta
tela Willem Haenraets

04/11/2012

CRIANÇAS NO JARDIM




Ao sol que a chuva de ouro espalha
pela terra fragrante, em doidos
galeios de luz e de cor,
as crianças brincam no jardim.

E entre papoulas, rosas, dálias,
margaridas e  verdes moitas,
parecem seus olhos azuis
bolhas de orvalho matutino.

De vez em quando alguma criança,
cabelo ao vento, lábio fresco, 
levanta as mãos num gesto rápido
tentada por uma corola.

Antes porém que a flor alcance
é burlada no seu desejo,
pois já se assustou com a voz áspera
do jardineiro que não dorme.

Henriqueta Lisboa 
In Velário
tela JaniceTraneJones

29/12/2011

MÁSCARA


Houve um tempo de aurora
houve um tempo de lua.
Houve a seca e o orvalho.
Houve o vento violento
e a brisa da madrugada.
Hoje existe a Máscara.

Fruto opimo da terra,
sazonado, maduro,
transpirando através
da epiderme o suco
de sabor nem amargo
nem doce, apenas ácido,
da árvore pende a Máscara.

A um influxo da luz
sobre  o prisma composto
de numerosas faces,
o segredo profícuo
surge à tona e devassa
a sua própria Máscara.

Henriqueta Lisboa
In Miradouro e Outros Poemas 
tela John Birch 

Ó NATUREZA


Ó natureza: força  e travo.
Sorvo-te o ar desde antes
do amanhecer na terra
a cada respiro.
Bebo-te a água nascente e antiga
ora nas mãos em concha
ora em cristal.
Intrépida ou vacilante
piso-te o chão - colina e vale -.
Alimento-me de teus frutos
acidula-me o verde.
Aquece-me e queima  teu fogo
dádiva e ardil entre nós.
Estou em ti estás em mim
nesse mútuo sofrer
em que eclipse me traz colapso,
nessa defensiva ou jugo
em que tento aliciar-te.
Tu violenta eu capciosa.
Natureza, mestra, inimiga,
que me ensinas o amor e rebeldia.
Entre nimbos encarcerada,
pelos astros liberta,
sinto-me parcela em teu corpo
de unidade comigo.

Henriqueta Lisboa
In Miradoura e Outros Poemas 
tela Michael O'Toole  

EMBLEMA


Esse volátil arco-íris
que se desprende pelas asas
de multipássaro e enlaça
pela cintura terra e céus

esse versátil arco-íris
meio anel ligeiro laço
a desatar-se a perder-se
nos ermos da nostalgia

delineia porventura
- fluídico emblema pálido -
aliança mais duradoura
de outra vida noutro espaço.

Henriqueta Lisboa
In Miradouro e Outros Poemas

28/12/2011

TEORIA



Amor acima do tempo
quem o teve já não tem.
Amor que os dias consomem
- claro - merece outro nome.
O que precede ou sucede
não foi nem é  de ninguém.

Ai, camélia que desmaia
cortada de manhã  cedo!
Amor nas ondas da praia
dura o que espuma entre os dedos.
Já no recesso dos vales
é morto de sombra e peso.

Amor que se vai às nuvens
no campo não tem raízes.
O que na relva dormita
de melhor fruto descuida.
O que sobe e o que não sobe
éter e limo os dissolvem.

Henriqueta Lisboa
In Miradouro
tela Franz Von Stuck

TRANSMUTAÇÃO



A chuva sobre o campo. A flor
de encontro ao coração. O vinho
da verdade no cálice.

Ó assombro ó fascínio
de quem sofria de cegueira!

(Era a sede era a fome
era o anelo incorrupto)

Então sucede
em alçar de matizes ainda ao longe
por vales férteis a perder de vista
e doces lagos que balouçam cantando
e desertos em êxtase lunar
o mais que tudo irreal
dentro dos mundos definidos:
a paz.

Henriqueta Lisboa
In Miradouro e Outros Poemas
tela Vincent Van Gogh

APRENDIZAGEM



A Maria Alice Barroso

Não apenas olhar mas ver
ao infinito num segundo
certo rosto sofrido e ardente
boca cerrada entre dois vincos

Não somente sentir  mas apreender 
ao mais profundo o ponto mínimo
que em trajetória sem retorno
faz do destino humano um círculo.

Henriqueta Lisboa
In Miradouro e Outros Poemas
tela Sir Edward Burne-Jones

18/12/2011

AS PROVAÇÕES


É a montanha dos porfiosos granitos,
é a montanha das vigílias e do sono propiciatório,
a montanha viva.

O coração humano desconhece repouso.

Cada dia é mister renascer para a luta.
Sem trégua as picaretas golpeiam a rocha à procura da linfa
os olhos queimam de sol a sol decifrando enigmas.

E quando à noite o fatigado corpo se  abriga
no semitorpor cerrando a franja das pálpebras,
eis que os ouvidos temerosos se enleiam:
o uivo de soltas alimárias atravessa paredes,
friamente penetra o sagrado refúgio do homem.

Porém a lâmpada que arde na sombra pendurada a correntes
é seiva de tronco alimentando  o rubor de entreabertas orquídeas,
é gota a gota o sangue azul a consumir-se em oblata.

Perde-se então aos poucos nas quebradas da serra
o uivo longínquo das olimárias.

O coração humano desconhece repouso.

O homem se inscreve cada dia na eternidade
com uma nova presa debaixo dos pés.

Henriqueta Lisboa
In Miradouro e Outros Poemas
foto por Rivertay

27/11/2011

DO POETA


O ar que respira é o do vergel,
Batido de sol, resguarda
pela espessura dos refolhos
algo de sombra e orvalho.

Entre os escaravelhos e o arbusto
do peito frágil existem
segredos buscando alívio
através de sussuros.

Do aroma que sobe e desce
pelas vergônteas em balouço,
nem concebera o zéfiro
a delicadeza. A força

com que se prendem ao solo
as emaranhadas raízes
tem origem talvez
nesse mundo remoto

antes das águas, muito antes
da criatura em face dos céus
e acaso simplesmente prolonga
o ato criador de um deus.

Henriqueta Lisboa
In Miradouro e Outros Poemas
tela "Inspiração" por Solange Alves
http://pensarart.blogspot.com/2011/05/blog-post.html

ROSA PRÍNCIPE-NEGRO


Rosa Príncipe Negro, sepultada
nos tempos. De que mundo
ressurges
- ônix,ébano e púrpura? 

Que anjos de moura estirpe reguardaram
tuas formas no escuro?
Que Saara adensou
tua seiva?
Que coluna susteve
teu longo talhe débil contra os ventos,
para que teu resplendor de súmula
fosse - ancestral - de treva ao sol?

Vens de alquimias sábias, de raros
processos, de lutulência e rubis.
Entre duas tangentes, desespero
e êxtase, assomas.
Com teus veludos
à soleira da morte.

Decantou-te não sei que oráculo.
Da quinta-essência
para o breve declínio.

Henriqueta Lisboa
In Miradouro e Outros Poemas 

MATURIDADE


Maturidade, sinto-te na polpa
dos dedos: abundante e macia.
Saturada de sábias
doce-amargas amêndoas.

És o tálamo para a morte,
o velame no porto.

Sob teu musgo, a pedra.
O silêncio em teu seio é prata
a sofrer o lavor
minucioso do tempo.

À tua sombra de pomar
ressoam passos de eterno
entre folhas: do eterno.

Ó pesadelo momento,
ó bojo cálido!

Henriqueta Lisboa
In Miradouro e Outros Poemas

03/10/2011

SUSPIRO



Adivinhar no azul
a hortência, o cristal,a antecâmara.

Sentir nas mãos a brisa
à semelhança
de um instrumento aflorado
pelo abandono.

Henriqueta Lisboa
In Casa de Pedra
tela Alena Hrbkova

07/05/2011

FIDELIDADE























Ainda agora e sempre
o amor complacente.

De perfil de frente
com vida perene.

E se mais ausente
a cada momento

tanto mais presente
com o passar do tempo

à alma que consente
no maior silêncio

em guardá-lo dentro
de penumbra ardente

sem esquecimento
nunca para sempre

doloridamente.

Henriqueta Lisboa
In Alvo Humano
foto por Marcos Fontes      

01/05/2011

FLOR DE SÃO VICENTE

















Do caule esguio em pendor,
três pétalas - uma flor.

Humildade.Simplicidade.
Caridade. Ó penhor!
De que maneira se há de
aproximar dessa flor?

O gesto suspenso em meio
a um delicado tremor,
entre o anelo e o receio
de tocar essa flor.

Henriqueta Lisboa
In Montanha Viva: Caraça
foto  por Counse

28/04/2011

VIDA BREVE





















Vida frágil
corpo de haste
alma de flor
se esfolhou...

Vida curta
gesto de onda
barco em fuga
mar levou...

Olhos de orvalho
raio de sol
enxugou...

Voz de brisa
sobre o lago
serenou...

Vida breve
por amor
fruto em nácar
nas entranhas
carregou...

Vida aéreda
corpo de alma
nenhum rastro
deixou...

Henriqueta Lisboa
In Prisioneira da Noite
foto por marc50

SINGULAR























Em vez de amar singelamente
uma casa pequena com jardim,
uma varanda com pássaros,
uma janela em que ao sereno há uma bilha de barro
um pessegueiro, uma canção e um beijo
- o pessegueiro de seu pomar,
a canção popular
e o beijo que poderia alcançar-
a minha musa ama precisamente
o que não existe neste lugar.

Henriqueta Lisboa
In Prisioneira da Noite
tela de Susan Tolle McClure

NOTURNO
















Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,
dançam livres como libélulas
em redor do fogo.

Henriqueta Lisboa
In Prisioneira da Noite
foto de  a marc50