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09/12/2013

XVII




Agora os girassóis entardecidos,
e esse lírio e essa rosa tão exangue
e essa mancha de símbolos sombrios
quase como um desmaio ou leve sangue.
 
Sobre os bosques caiu a tarde cinza
e a estrela temporária se augurou;
pendem das hastes cálices noviços,
e a cansada corola se esboroou.
 
E os cílios baixam gotejando chuvas
sobre os vidros das horas enterradas
com os momentos dos crimes e virtudes.
 
Algum arroio corre com essas lágrimas,
mas tão ligeiro pela escarpa aguda
que os olhos de quem vê nunca veem nada.
 
Jorge de Lima
In Invenção de Orfeu
tela Heike Talbert 

02/08/2011

ALTA NOITE QUANDO ESCREVEIS


À senhora Heitor Usai

Alta noite, quando escreveis um poema qualquer
sem sentirdes o que escreveis,
olhai vossa mão - que vossa mão não  vos pertence mais;
olhai como parece uma asa que viesse de longe.
Olhai a luz que de momento a momento
sai entre os dedos recurvos.
Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate
e a faz deslizar sobre o papel estreito,
com o clamor silencioso da sabedoria,
com a suavidade do Céu
ou com a dureza do Inferno!
Se não credes, tocai com a outra mão inativa
as chagas da Mão que escreve.

Jorge de Lima
In Poesia Completa 

13/03/2011

O HOMEM - PROCESSIONAL
























Junto de ti, homem, ser processional que só vês tua sombra,
pousa a mão no teu ombro o Anjo que te proteje.
Mas, ora esvoaça à direita, ora esvoaça à esquerda
o grande e belo Anjo exilado da Luz.
Adiante de ti - perfurada e sangrando,
a mão do Redentor te aponta o caminho certo;
dentro de ti - seres anteriores a ti, - luminosos ou negros
vão contigo e tua sombra.
Quando adormeces e ficas durante o sono - invisível e inocente,
e o livre arbítrio voa de teu cadáver,
a estranha procissão espera que tu te acordes
para prosseguir a marcha.
Por isso é que te cansas sem motivo nenhum.
Por isso é que andas de costas para o caminho certo.
Por isso é que tropeças e tateias como um ser sem leme.
Por isso quando pensas estar sobre o abismo do Inferno,
a mão perfurada e sangrenta te conduz para cima.

Jorge de Lima
In Poesia Completa
tela de Elvira Amrhein

12/12/2010

XIII
















Vago espaço de Natal,
geometria anoitecida.
As dimensões projetadas
são como sombras vividas.

Dentro dessa geometria
há um menino imbricado.
Esse menino me espia.
Vivo nele desenhado.

Apagaram aquele álbum,
faces amadas baniram.
Sempre um Natal, sempre uma árvore
de folhas amareladas.

Amigos da infância,aonde?
Quem pintou de cinza a ogiva?
Quem tisnou no cosmorama
o presépio colorido?

Dentro desse cosmorama
há um menino acordado
o resto projeta sombras:
Geometria.Geometria.

Jorge de Lima
In Poesia Completa
tela de Donna Green

21/11/2010

AS PALAVRAS RESSUSCITARÃO




As palavras envelheceram dentro dos homens
separadas em ilhas,
as palavras se mumificaram na boca dos legisladores;
as palavras se apodreceram  nas promessas dos tiranos;
as palavras nada significam nos discursos dos homens públicos.
E o Verbo de Deus é uno mesmo com profanação dos homens de Babel,
mesmo com a profanação dos homens de hoje.
E, por acaso, a palavra imortal há de adoecer?
E, por acaso, as grandes palavras podem desaparecer?
E, por acaso, o poeta não foi designado para vivificar a palavra de novo?
Para colhê-la de cima das águas e oferecê-la outra vez aos homens do continente?
E, não foi ele apontado para restituir-lhe a sua essência,
e constituir seu conteúdo mágico?
Acaso o poeta não prevê a comunhão das línguas,
quando o homem reconquistar os atributos perdidos com a Queda,
e quando se desfizerem as nações instaladas ao depois de Babel?
Quando toda confusão for desfeita,
o poeta não falará, do ponto em que se encontrar,
a todos os homens da terra, numa só língua - a linguagem do Espírito?
Se por acaso viveis mergulhados no momento e no limite,
não me compreendereis, irmão!

Jorge de Lima
In Poesia Completa
foto de a Alberto Donà no Flickr

07/11/2010

MINHA SOMBRA
























De manhã a minha sombra
com  meu papagaio e o meu macaco
começam a me arremedar.
E quando eu saio
a minha sombra vai comigo
fazendo o que eu faço
seguindo os meus passos.

Depois é meio-dia.
E a minha sombra fica do tamaninho
de quando eu era menino.
Depois é tardinha.
E a minha sombra tão comprida
brinca de pernas de pau.

Minha sombra, eu só queira
ter o humor que você tem,
ter a meninice ,
ser igualzinho a você.

E de noite quando escrevo,
fazer como você faz,
como eu fazia em criança:
Minha sombra
você põe a sua mão
por baixo da minha mão,
vai cobrindo o rascunho dos meus poemas
sem saber ler e escrever.

Jorge de Lima
In Obra Completa
tela de Vincent Abbey

06/11/2010

CANDEEIRO FAMILIAR
















Nas noites de minha meninice
existe um grande candeeiro amigo,
que sobre a vasta mesa de jantar
ilumina o meu serão antigo.

As doces sombras dos meus se projetavam
na parede branquinha do salão.
O primeiro cinema que eu conheci
foram essas sombras de carvão.

À procura do velho candeeiro
vinham asas da mata se queimar;
vinham de longe insetos viajeiros,
borboletas de forma singular.

O candeeiro era a lanterna mágica,
que me fazia na parede branca
o homem grande que eu queria ser
e de que sou uma sombra, apenas uma sombra.

A ventania às vezes surpreendia
as janelas abertas do meu lar,
e então as doces sombras se moviam,
trêmulas,trêmulas a bailar.

Quem é lá? perguntavam.
- É a ventania que lá forte está.
E com o vento, como que entravam,
e se espalhavam pelos vãos da sala,
a mãe-preta, o pai joão, toda a senzala,
todas as sombras que não vivem mais.

Jorge de Lima
Im Poesia Completa
foto de  Fotoamador

ILHA DE SEMPRE





Tu cheiras a canela e a rocio,
a laranja vista na primavera;
névoa do beijo de que antes era
alaúde desperto ao manar um rio.

Um choupo a procurar, sombrio,
a nostalgia perdida em sua ribeira
e há vidas; e um mundo e uma fogueira
deixa teu nome ao redor do meu.

Quer o destino um bosque alucinado,
sua condição assim, a planta obscura,
açucena que ao raio havia convocado.

E este quis sua ilha sempre viva
como trevo gemendo na planura
de que é amor e chama pensativa.

Jorge de Lima
In Poesia Completa
foto de tobey308

03/11/2010

NA CARREIRA DO VENTO























Lá vem o vento correndo
montado no seu cavalo.
Nas asas do seu cavalo
vem um mundo de vassalos,
vem a desgraça gemendo,
vem a bonança sorrindo,
vem um grito reboando,
reboando,reboando.

Lá vem o vento correndo
montado no seu cavalo.
Nas  asas do seu cavalo
vem a tristeza do mundo,
vem a camisa molhada
de suor dos desgraçados,
vem um grito reboando,
reboando,reboando.

Lá vem o vento correndo
montado no seu cavalo.
Nas asas do seu cavalo
vem um mundo amanhecendo
vem outro mundo morrendo.
Ligando um mundo a outro mundo
vem um grito reboando,
reboando,reboando.

Lá vem o vento correndo,
os séculos correndo  atrás.
Lá vem um grito de Deus
e um grito de Santanás.
Ligando um grito a outro grito
vem o vento reboando,
reboando,reboando.

Lá vem o vento reboando
com seus  cavalos-motores
voando nos aviões.
Lá vem progresso, poeira,
carreira,velocidade.
Lá vem nas asas do vento,
o lamento da saudade
reboando,reboando.

Lá vem o vento correndo
montado no seu cavalo.
Quem vem agora é um menino
montado no seu carneiro.
Parai, ó vento, deixai
repousar o cavaleiro.
Mas o vento vem danado
reboando,reboando.

Jorge de Lima
In Poesia Completa
tela de Thomas Aeffner

SABEDORIA





















Se me perguntares que é que desejo,
eu Te responderei - Sabedoria,
para que não seja um homem seco e de uma só visão,
e possa conservar a poesia ao meu lado sem a ciência a abafar;
e, se me perguntares que é que desejo por acréscimo,
digo-Te que desejo sabedoria porque com Tua sabedoria
tudo me virá, depois!
E a tudo poderei responder, e meus membros se multiplicarão
e eu serei numeroso, depois!
Se me deres sabedoria defenderei Teu Templo
e enxergarei a Verdade dentro da confusão.
E poderei ter respostas à que vier de Sabá,
e farei desta Musa uma das Tuas musas
entre as musas que Te glorificarão!
Dá-me sabedoria para que a poesia tenha a Tua marca, Senhor!

Jorge de Lima
In Poesia Completa
tela  on Augustin L'Hermitte