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30/03/2011

MÚSICA

O carinho que te fiz
foi, em seus gestos sutis,
comparável ao afago
com que a lua esmalta o lago!

O carinho que te fiz
foi, em seus gestos sutis,
comparável ao sabor
com que o aroma orvalha a flor!

O carinho que te fiz
foi, em seus gestos sutis,
comparável ao alento
com que a folha aspira o vento!

O carinho que te fiz
foi, em seus gestos sutis,
comparável ao momento
em que o infeliz é feliz!...

Attilio Milano
In Todos os Poemas

28/03/2011

NATUREZA...


















A natureza hoje acordou irada:
o céu cobriu a terra com o lençol
sujo da chuva. O vento dá pancada
no rio, afugentando-o para a estrada...
E tanta chuva até esfriou o sol!

Estão chorando as árvores! Escuto
gemer e tiritante voz das aves!
A flor perdeu o aroma e o gosto o fruto!
A vida se vestiu toda de luto
e me nasceram pensamentos graves!

Mas por que a gente se entristece ou alegra
conforme anda lá fora o sol ou a chuva?
A alma é clara de dia e à noite é negra,
tem para os astros, pelos quais se regra,
risos de noiva e lágrimas de viúva!

Mas por que? Se o sabeis dizei-me, sóis!
luas! que há de comum em nós, que assim
é a mesma a natureza em mim e em vós?

Oh influência da natureza em nós!
oh potência da natureza em mim!

Attilio Milano
In Todos os Poemas
foto por Capricorn45rbjd

HOMEM




















Se a vida te pedir sempre o teu suor, enquanto
puderes, com a exaustão do corpo o solo rega!
Vês-me? fui sempre assim: se me fatigo, canto,
se o meu corpo trabalha, a minh'alma sossega!

Se a vida te pedir ainda o teu sangue, pega
do corpo e rasga-o nos espinhos com um santo!
O teu sangue e o teu suor de herança à vida lega
e viverás feliz como que por encanto!

Vês-me? por que é que vivo ainda, ante o teu espanto?
porque me esqueço da alma e dou o corpo à refrega!
Mas se a vida pedir-te uma lágrima, nega!

mas nunca dês à vida o suor d'alma que é pranto!
Ela não o vê nem ouve, ela é surda, ela é cega
a vida e toda, toda em si não vale tanto!...

Attilio Milano
In Todos os Poemas
foto por  wsos

TORMENTA...



















Noite triste:
zimbra o vento
que de riste
sangra e lasca
velha casca
a avelhentado  tronco rudo!

Dorme um rio
sonolento...
Treme o frio
pelas frestas
das florestas
e despe a fronde, despe tudo!

Pios tredos
veem de longe...
Os penedos
estremecem!
Nuvens descem
do alto, chorando as suas ânsias!

Coaxa um sapo,
reza um monge...
E alto, escapo,
voa o fumo
indefectivel das distâncias!

Numa rocha,
num assomo,
uma tocha
- avantesma
de si mesma! -
acorda algum extinto rito!

E alto, pelas
nuvens, como
as estrelas,
os coriscos
riscam riscos
no quadro negro da infinito!...

Zimbra o vento...
- Que tristeza! -
Sonolento
dorme o rio...
Corta o frio
e fere mais do que um açoite!

Despe a fronde
com a braveza
e o céu, onde
riscam riscos
os coriscos,
empresta a luz do dia à noite!...

Attilio Milano
In Todos os Poemas
tela de Francesco Zuccarelli